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	<title>Revista Moviola - Revista de cinema e artes</title>
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	<description>Revista sobre cinema e artes</description>
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		<title>Habemus Papam</title>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 19:43:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Aristeu Araújo</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong><img class="size-full wp-image-5336 aligncenter" title="Habemus Papa, de Nanni Moretti" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/05/habemus1.jpg" alt="" width="490" height="276" /></strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>Nanni Moretti</strong> é hoje o diretor italiano de maior prestígio internacional. Talvez por isso seus últimos filmes tenham se distanciado de seus temas mais peculiares, um misto de autobiografia e crônica italiana. É provável que Moretti tenha se dado conta do alcance que ele tem mundo afora. Em <strong><em>O Quarto do Filho</em></strong>, filme lançado em 2000, Moretti escreve e dirige um drama, algo bastante incomum em sua filmografia. Depois, em 2006, ele exibe <strong><em>O Crocodilo</em></strong>, um filme político que parece enterrar de vez com o passado de filmes pouco compromissados ou de menores pretensões. Agora, por fim, chega às telas <strong><em>Habemus Papam</em></strong>, longa-metragem que se propõe a descortinar um dos rituais mais obscuros do mundo ocidental, o conclave.</p>
<p style="text-align: left;">É no conclave onde é escolhido o novo Papa. Como se dá a votação, que pode envolver até 120 cardeais, pouco sabemos. No fim do sufrágio, que pode durar dias, o Papa vitorioso é anunciado à praça do Vaticano no latim &#8220;habemus papam&#8221; e o escolhido se dirige à varanda para saudar o povo. É justamente aí que <strong>Nanni Moretti</strong> irá iniciar seu longa-metragem, penetrando no secreto ritual e mostrando (ou supondo) como se dá a escolha do novo pontífice.</p>
<p style="text-align: left;">No entanto, <strong><em>Habemus Papam</em></strong> está longe de ser um elogio à igreja. Moretti está muito mais preocupado em saudar o que há por trás do ritualístico, do santificado. E como em essência o cinema de <strong>Nanni Moretti</strong> é cômico, é com humor que ele irá desbravar tal universo.</p>
<p style="text-align: left;">No filme de Moretti, a votação se dá em vários turnos, pois os cardeais não conseguem chegar a um acordo. Assim, para poderem dar um fim à sessão, todos tem a ideia (secreta, pois o voto é sigiloso) de escolher Melville, um cardeal pouco expressivo que estava fora da lista dos favoritos a sumo sacerdote.</p>
<p style="text-align: left;">Enquanto os votos são lidos, ouvimos os pensamentos dos cardeais que quase em uníssono rogam a deus para não serem escolhidos. É algo parecido com o que <strong>Wim Wenders</strong> propõe em <strong><em>Asas do Desejo</em></strong>, quando os anjos visitam a biblioteca e ouvem os leitores e suas leituras silenciosas. Pode parecer uma citação forçada, mas não. Mais para frente, Moretti tratará da questão do anonimato e da invisibilidade. Melville, o Papa eleito, vagará por uma Roma que ainda não o conhece. Em muito ele não passará de um idoso como tantos outros, um tanto invisível portanto. Assim como aqueles anjos.</p>
<p style="text-align: left;">As simbologias empregadas no filme são fartas. Ainda no início, o conclave se inicia às escuras. Há um apagão na capela sistina, o que deixa os cardeais em polvorosa. Um medo primordial, como os medos que o próprio catolicismo infringe a seus crentes. Melville, o escolhido, se confessa depois amante do teatro. Gostaria de ser ator, mas sabe que não leva jeito para a coisa. Desistiu há muitos anos da carreira porque era mau ator. E aqui Moretti faz uma das mais geniais sacadas do filme, pois ele aproxima a atuação tetral com os rituais da igreja. No momento do &#8220;habemus Papam&#8221;, Melville entra em pânico. Como o ator que observa o público da coxia e estanca na hora de entrar no palco, o novo Papa não tem coragem de chegar à varanda para dar a benção ao numeroso público ali presente. Ele não está pronto.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-5340 aligncenter" title="Habemus Papa, de Nanni Moretti" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/05/habemus2.jpg" alt="" width="490" height="276" /></p>
<p style="text-align: left;">Sob grande constrangimento o ritual é interrompido. Um psicanalista é chamado (interpretado pelo próprio <strong>Nanni Moretti</strong>) para tentar reverter o medo papal. Mas, grande ironia, a investigação da alma humana (num sentido mais pagão) leva anos, com sorte meses. Além disso, sessões de psicanálise envolvem confissões sexuais, relatos de sonhos e desejos guardados a sete chaves. Tudo expressamente proibido para um Papa e seu interlocutor, claro.</p>
<p style="text-align: left;">É com enorme firmeza que <strong>Nanni Moretti</strong> irá conduzir sua história, tratando esse conto do Papa que não quer assumir seu posto como uma crítica à igreja e seu obscurantismo, mas também com enorme respeito ao que é humano. E é bom lembrar que o humano não é só o que é bonito ou poético. O humano traz consigo a inveja, a raiva, a ganância e tantos outros sentimentos danosos, como faz questão de lembrar o diretor de teatro<strong> Enrique Diaz</strong> no documentário <strong><em>Moscou</em></strong>, de<strong> Eduardo Coutinho</strong>. No documentário, Coutinho registra a montagem da peça <strong><em>As três irmãs</em></strong>, de <strong>Checkov</strong>.</p>
<p style="text-align: left;">A aproximação com <strong><em>Moscou</em></strong>, aqui, se faz oportuna. No filme de Moretti, o Papa é um aficionado pela peça <strong><em>A Gaivota</em></strong>, também escrita por <strong>Checkov</strong>. Tanto lá como cá, há um desfoque daquela tênue linha que separa (ou nunca separou) a ficção da realidade. Para Coutinho, observar o <strong>Grupo Galpão</strong> na criação de uma peça é registrar a criação de realidades, de universos próprios, concentrados, únicos e efêmeros. O teatro é um grande criador de verdades. Em<strong><em> Habemus Papam</em></strong>, o registro parece buscar um outro ângulo dessa verdade construída. E<strong> Nanni Moretti</strong> não está falando apenas alguma obviedade ateia como &#8220;o Homem criou deus a sua imagem e semelhança&#8221;. Seu impulso é o de revelar que as tais verdades não existem. Algo como o que <strong>Sigmund Freud</strong> revelou em seus escritos.</p>
<p style="text-align: left;">Para Freud, o Homem contemporâneo padece de três grandes feridas, referente a três grandes desdobramentos científicos. A primeira delas veio com <strong>Copérnico</strong> e sua teoria heliocêntrica, que tirou a Terra e o ser humano do centro do universo; a segunda chaga foi <strong>Darwin</strong> quem trouxe com sua teoria do evolucionismo, e a certeza que agora não fomos criados à imagem e semelhança de deus. Por fim, em auto-referência, Freud diz que a terceira ferida é a psicanálise, criada por ele mesmo. A psicanálise fez o Homem perceber que não é dono de si nem consciente total de seu eu.</p>
<p style="text-align: left;">O que o filme <strong><em>Habemus Papam</em></strong> fala, é que o Homem precisa dessas verdades, sejam elas científicas ou religiosas; sejam ficcionais ou documentais. A ritualização em torno da escolha de um novo Papa é um gerador de certezas, um ansiolítico milenar que está ali para ratificar que os ciclos existem, que tudo &#8211; no fim &#8211; será bom e/ou igual ao que sempre foi.</p>
<p style="text-align: left;">O Papa de Nanni Moretti, no entanto, é uma espécie de quarta ferida. Ele está ali para dizer que não, não é o representante de deus. Sua incerteza é o vazio do outro, da igreja e do papado. A dúvida de um Papa é a dúvida da própria igreja. A dúvida do Homem, desde que crente.</p>
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		<title>Urânio em Movi(e)mento</title>
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		<pubDate>Wed, 02 May 2012 13:06:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Moviola</dc:creator>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[energia nuclear]]></category>
		<category><![CDATA[Festival Internacional de Filmes sobre Energia Nuclear]]></category>
		<category><![CDATA[Festival Rio de Janeiro]]></category>
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		<category><![CDATA[Rio+20]]></category>
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		<description><![CDATA[O 2º Festival Internacional de Filmes sobre Energia Nuclear, Urânio em Movi(e)mento, nomeou oito filmes, representando oito países, para o seu prêmio Oscar Amarelo, em três categorias: Melhor Curta, Longa e Animação. O Festival começa seis dias após a Cúpula da Terra (Rio + 20), na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/05/petergreenaway.jpg"><img class="wp-image-5323 aligncenter" title="petergreenaway" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/05/petergreenaway.jpg" alt="" width="415" height="233" /></a></p>
<p style="text-align: left;">O <em><strong>2º Festival Internacional de Filmes sobre Energia Nuclear</strong></em>, <strong>Urânio em Movi(e)mento</strong>, nomeou oito filmes, representando oito países, para o seu prêmio Oscar Amarelo, em três categorias: Melhor Curta, Longa e Animação. O Festival começa seis dias após a Cúpula da Terra (Rio + 20), na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Entre 28 de junho e 13 de julho, o Festival vai exibir mais de 50 filmes de todos os continentes, sobre bombas atômicas, energia nuclear, mineração de urânio e os perigos radioativos.</p>
<p>No evento será exibido o novo filme de <strong>Peter Greenaway</strong>, o <strong><em>Bombas Atômicas no Planeta Terra</em></strong>. Veja a programação <a href="http://www.uraniofestival.org/index.php/pt/programacao" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p><strong>Os candidatos</strong></p>
<p><strong>Melhor Longa-Metragem</strong></p>
<p><strong>Czerwony Guzik (O Botão Vermelho)</strong><br />
Direção: Ewa Pieta &amp; Miroslaw Grubek<br />
Polônia/EUA, 2011, 52 min</p>
<p><strong>Chernobyl: The invisible thief (Chernobyl: O ladrão invisível)</strong><br />
Direção: Christoph Boekel<br />
Alemanha, 2006, 59 min</p>
<p><strong>Not for Public Release: a Nuclear Incident in Lock Haven (Não publicável: Incidente Nuclear em Lock Haven)</strong><br />
Direção: Bill Keisling<br />
EUA, 2010, 73 min</p>
<p><strong>Melhor Curta-Metragem</strong></p>
<p><strong>Atomic Bombs on The Planet Earth (Bombas Atômicas no Planeta Terra)</strong><br />
Direção: Peter Greenaway<br />
Holanda/Reino Unido, 2011, 12 min</p>
<p><strong>Jadugoda the black magic (Magia negra)</strong><br />
Direção: Shriprakash<br />
Índia, 2009, 9 min</p>
<p><strong>Fikapaus (Coffe Break/Pausa para o Café)</strong><br />
Direção: Marko Kattilakoski<br />
Suécia, 2011, 14 min</p>
<p><strong>Melhor Animação</strong></p>
<p><strong>Leonids Story (A história de Leonid)</strong><br />
Direção: Rainer Ludwigs<br />
Alemanha/Ucrânia, 2011, 19 min</p>
<p><strong>Sacred Ground (Terra Sagrada)</strong><br />
Direção: Karen Aqua<br />
EUA, 1997, 9 min</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Veja cenas de A família nuclear</strong></p>
<p><a href="http://www.revistamoviola.com/2012/05/02/2o-festival-internacional-de-filmes-sobre-energia-nuclear/"><em>Click here to view the embedded video.</em></a></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Nós, e o Cavalo de Turim</title>
		<link>http://www.revistamoviola.com/2012/04/30/nos-e-o-cavalo-de-turim/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 16:25:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Andrea Tonacci]]></category>
		<category><![CDATA[Béla Tarr]]></category>
		<category><![CDATA[Cavalo de Turim]]></category>
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		<category><![CDATA[cinema contemporâneo]]></category>
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		<category><![CDATA[Turin Horse]]></category>
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		<description><![CDATA[“O homem só é homem na superfície. Levante a pele, disseque: aí com ela o maniqueísmo. Depois nos perdemos em uma substância insondável, alheia a tudo o que conhecemos e, todavia, crucial.” Paul Valéry em Chaier B Para os amigos Renaud Leenhardt , Andrea Tonacci  e Fernanda Chicolet. Nossa utopia é a do nosso lugar, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;" dir="ltr"><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/04/cavalodeturim.jpg"><img class="size-full wp-image-5295 aligncenter" title="cavalodeturim" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/04/cavalodeturim.jpg" alt="" width="490" height="276" /></a></p>
<p dir="ltr"><em>“O homem só é homem na superfície. Levante a pele, disseque: aí com ela o maniqueísmo. Depois nos perdemos em uma substância insondável, alheia a tudo o que conhecemos e, todavia, crucial.”</em></p>
<p style="text-align: right;" dir="ltr"><em></em><span style="text-align: left;"><br />
Paul Valéry em <em>Chaier B</em></span></p>
<p><strong><strong><br />
</strong></strong></p>
<p>Para os amigos <a href="http://www.imdb.com/name/nm0498692/" target="_blank"><strong>Renaud Leenhardt</strong></a> , <a href="http://www.imdb.com/name/nm0867104/" target="_blank"><strong>Andrea Tonacci</strong></a>  e <strong>Fernanda Chicolet.</strong></p>
<p><strong><strong><br />
</strong></strong></p>
<p dir="ltr">Nossa utopia é a do nosso lugar, deste que conquistamos como desafios, principalmente a barbárie, o que denominam modernidade e onde os espertos e sem talento algum se projetam como vanguardas e que nós sempre confrontamos com coragem e dignidade, tentando ver no outro o que eles mesmos não veem, porque negam a universalidade que nossa individualidade tenta construir. Chegamos à utopia da amizade, da cumplicidade e conjurações de um mundo melhor para todos. Sim, estamos vivendo no limite dos perigos! Temos consciência de tudo isso. Isso porque o mundo podre e baixo que tenta nos acolher é pantanoso. Nos cabe então nossas utopias e ainda ir um pouco além, arrastando conosco os blocos históricos de poder, que sempre nos ameaçaram. Conflito entre poder e medos. O que também temos, mas, nada a perder!</p>
<p dir="ltr">Felizmente temos a consciência da nossa escravidão, e a impossibilidade pacífica de sair dela. Achamos que sairemos da vida da mesma forma como entramos: com um sólido ato de violência. Violência que querem transformar em espetáculo, desejo, traição e alienação. O ato de nascer! Daí as cidades de deus e tropas das elites, sempre bem remuneradas e defendidas pelas mídias. E aos poucos estamos descobrindo que não existe transcendência em qualquer ação que realizamos. Acreditem, a única transcendência possível é das ideias. E todo ato depois de gerado por elas está morto e acabado.</p>
<p dir="ltr">Queiram ou não temos que defender nossa individualidade que nasce dessa consciência e que pode nos levar ao prazer, à violência e à dor. A tudo aquilo que chamamos realizações ou perdas; porque enclausurados em nossos guetos, espaços ou trabalho, a realidade sempre nos acompanhou, sendo parte de nós e de tudo o que pensamos ou fazemos assimilando a vida sem restrições ou preconceitos. Apenas com uma visão crítica original, corajosa, amparada por ideias e exemplos, pensando colaborar para mudanças. O ser é linguagem. Todas as linguagens passando por todos os simulacros que são as linguagens sujas e baixas do poder. De qualquer tipo de poder, da Ancine ao Palácio da Alvorada sempre defendendo a mesmice e à burocracia imunda, interessante para a manutenção histérica e histórica da luta de classes na cultura. Não à toa um ministério da guerra e da cultura. Alguma diferença? E onde é diferente se todos os sistemas são iguais?</p>
<p dir="ltr"><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/04/cavalodeturim02.jpg"><img class="alignleft  wp-image-5296" title="cavalodeturim02" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/04/cavalodeturim02.jpg" alt="" width="320" height="191" /></a>Passamos por todo esse lixo sem macular a nossa crença, as nossas utopias, os nossos experimentos, e sem o massacre que sofremos agora de toda parte com o modelo único de sobrevivência ditado pelas leis do mercado. Ocupado e sem oposição alguma, não é? Mas&#8230; felizmente, ainda não fomos atingidos, porque não viramos produto descartável, tipo <em>De Pernas Para o Ar</em>, <em>Cilada. com</em> ou <em>Bruna Surfistinha</em>.  Quem se lembrará dessas bostas em dez anos?  Procuramos ganhar o mundo saindo de nós mesmos, para tentar construir e distribuir ideias. Não como um ato programado de violência, espetáculo barato e exploração. Acreditamos nas ideias, nas multidões conscientes, nos mitos desde que representem uma ideia além da realidade que sempre nos atormenta.</p>
<p dir="ltr">Também sabemos deixar de acreditar quando a liberdade se via ameaçada. Liberdade! Que liberdade? Aquela que nasce da nossa consciência e que sabemos ser aliada da coerção? Nunca acreditamos em nada absoluto. É tudo transitório, felizmente. Hoje, feliz ou infelizmente, o exercício de liberdade é cada vez mais individual, nosso, do excluído de tudo, menos de ideias. E é evidente que as concessões sempre serão necessárias, mas sem que sejamos forçados a vender a alma a deus ou ao diabo.</p>
<p dir="ltr">As multidões conscientes e os pensamentos universais estão mortos! A grande cultura e os grandes pensadores estão banidos por essa causa, porque sempre souberam que a vida é uma clausura individual que querem universalizar com espetáculos e ideias tolas e absurdas. Estas que passam a ser geniais pela nossa ignorância, pelos medos, pela necessidade e pela coerção. Aqui, o capitalismo não demora a entender que está gerando um grande inimigo: os ovos da serpente. Ainda assim, não acreditamos que a humanidade ficará embrutecida, submissa a essa ordem por muito tempo. <strong>Nietzsche</strong>, <strong>Tchekov</strong>, <strong>Brecht</strong>, <strong>Godard</strong>, <strong>Adorno</strong>, <strong>Benjamin</strong>, <strong>Glauber</strong>&#8230; municiaram os guetos e os campos de extermínio com o melhor dos explosivos: as ideias! E nós todos as carregamos um pouco. E muitas vezes somos obrigados a ler e ouvir que somos homens duros. Respondemos apenas que não. Somente sofremos as nossas dores e as dores do mundo. De um mundo que está ficando cada vez mais longe como nos mostra <strong>Béla Tarr</strong>  no seu belíssimo nitcheano e oportuno <strong>Cavalo de Turim</strong>. Mas&#8230; não podemos carregar a tragédia sem um pouco de humor e poesia. Para nós a necessidade da arte é essa: não deixar endurecer a alma dos mais sinceros sentimentos de afeto e preocupação.</p>
<p dir="ltr">A obra-prima de Bela Tarr, insere-se na construção e na busca de uma arqueologia da linguagem, esta que nos atemoriza, para viver e morrer. O que nos leva a fugir de nossas descobertas. Espaço e procura de Nietzsche: “Se quisermos considerar o espelho em si, veremos nele, apenas, nada mais do que as coisas; se queremos compreender as coisas, retornaremos em último lugar ao espelho – essa é a história mais geral do conhecimento” ! Só podia ser mesmo Nietzsche, esse que, ao ver o cavalo de Turim sendo chicoteado, abraçou-o e chorou. Por todos nós e por nossa humanidade. Que ainda não chegou à humanidade desse cavalo.</p>
<p dir="ltr"><em>O Cavalo de Turim</em>, filme que define o sentido pleno de nossa tragédia, uma concepção histórica e ética de nosso caminhar, de linguagens interrompidas, em busca de nosso fim. E aceitando que o poder, a mídia e a produção façam do espetáculo essa Torre de Babel, na desconstrução da linguagem, para nossa possível elevação e transfiguração. <strong>Nietzsche</strong>, <strong>Goethe</strong>, <strong>Marx</strong>,<strong> Benjamin</strong>, <strong>Foucault</strong> e tantos outros, mais a genialidade de espelho de nós mesmos, para um eterno retorno, nele, para o entendimento das coisas e, nunca sabendo o que é ou, são realmente uma coisa completa. Então, precisamos retornar sempre, acompanhados pela genialidade do filósofo transcendental da <em>Origem da Tragédia</em>, sua obra de juventude e da qual jamais se separou e que a confirmou em seu diálogo maior com <em>O Cavalo de Turim</em>. Chorando com ele. Enlouquecendo, como uma solidariedade possível. Ou, com a morte, no caso de não aceitação da escravidão que aceitamos e que nos submete, como vida, sustentáculo da ideologia dominante na construção do poder; essa coisa tão insignificante que o espetáculo pobre eleva – e nos eleva como uma coisa maior – e que a ele nos submetemos.</p>
<p dir="ltr"><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/04/cavalodeturim03.jpg"><img class="alignright  wp-image-5297" title="cavalodeturim03" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/04/cavalodeturim03.jpg" alt="" width="320" height="191" /></a></p>
<p dir="ltr">Filme de ruídos e de um discurso do silêncio. Esse de nosso interior e, intocável como o do mito. Discurso de nossa origem e de nosso fim, nossa única e possível transcendência, mesmo assim, inconscientemente arrasados pelo lado de fora, penetrados sistematicamente pelo espetáculo empobrecedor. De culto, fetiche, desejos, compensação  e punição. E que, quando se vai um pouco além,  denominam hedonismo, pena de morte, bombas, guerras, extermínios&#8230; Tudo isso é <em>O Cavalo de Turim</em>. E tudo sendo o choro de Nietzsche. E nos dando uma certeza, já que as indagações estão esgotadas: O único ser que se escraviza conscientemente, pela compensação como vida, é o humano. E fazendo dela sua punição. Uma tragédia na construção do poder para sua própria submissão.</p>
<p dir="ltr">Filme avançado de nosso estado de poesia e crítica, coisas raras no ciclo só de consumo do descartável e de arquiteturas do vazio, sem espelhos. Numa construção ética, estética e da própria dor, enquanto a natureza exterior exulta em seus ruídos musicais incansáveis e eternos, acompanhando-nos como um réquiem. É Mozart nos acompanhando, também! Filme também de cascata tonotroante só possível numa tragédia, essas que os gregos já nos brindaram. De desespero, experimentos e desejos. E com todas as possíveis aproximações; o princípio e o fim de todas as naturezas. E sempre na tentativa de construção de uma linguagem maior, mais exemplar, a de nossa sublime e interrompida elevação. No encontro de Apolo e Dionísio. Da energia e da crença, essa nossa fé, convertida nas coisas. Silêncios e ruídos, como nuances, música, tempos claros e escuros cheios e vazios, o que somos e negamos, e afirmamos para quase nada. Mas, pelo menos, para o enriquecimento da tragédia e desse estupendo filme que o Brasil deverá recusar como um exemplo do mundo empobrecido em que vivemos.</p>
<p dir="ltr">Um filme para não se definir. Porque tudo! O nosso nada! Hipotético, subjetivo e de realidade surreal, pelo que fazemos e pelo que fazem de nós. De qualquer forma, não se pode deixar de arriscar e chamá-lo de uma arqueologia da linguagem na definição da tragédia humana. Com aquele cavalo sendo a essência da natureza, essa que queremos ou, pensamos querer humana, demais humana e que esse <em>Cavalo de Turim</em> soube nos mostrar e nos elevar. Como essência das coisas e das palavras. Silenciosas, e ruidosas, à espera das nossas, como entendimentos e elevação. Pelo menos no choro, como em Nietzsche. Filme que eleva também, todas as formas de comunicação. De movimentos, silêncios e ruídos. Principalmente, pela presença constante, infinita, da música repetitiva e original. Sons e ruídos de dissonâncias e das possibilidades da linguagem, quando é buscada, como aproximação, individuação e a de um processo para a totalidade numa evolução de idealismo mitológico, como na mística.</p>
<p dir="ltr"><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/04/turin-horse.jpg"><img class="wp-image-5298 alignleft" title="turin-horse" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/04/turin-horse.jpg" alt="" width="284" height="169" /></a>De um todo não comprometido e de uma individualidade ainda portadora de energia e fé, não tocada pela ideologia ou qualquer princípio de organização humana. Presentes todas as dialéticas ainda não comprometidas pois, nem a submersão, essa elevação na busca, escapa no filme. Do sublime à sublimação. Nessa relação fantástica de pai e filha e onde a natureza é obrigada a ceder o lugar para uma experiência mais filosófica na discussão e na construção da linguagem, antes do caráter da praticidade , dos impulsos e pulsões a que somos levados e instigados como necessidades, desejos, transgressões e punições. E na construção dos ritus e dos espetáculos maculados pela ideologia, poder e na separação de toda organicidade – vida e morte; tão íntimas, próximas e desentendidas.</p>
<p>Um filme também de segredos e afetos. Tentando nos revelar as rupturas de um pensamento comum, este que a nossa história nos coloca como um absoluto, uma arqueologia possível de nosso conhecimento e de nossa origem e, que desde o princípio, vem sendo maculada por todo tipo de ideologia na construção de poderes. Individuais e de todos os outros. Submetendo-nos a um domínio impossível de ser rompido para um retorno constante, como nos sugere Nietzsche, em busca do melhor de nós, da natureza, para uma possível superação. Da tragédia e do prazer como culpa e punição. E chegarmos à elevação daquele cavalo, o de Turim. A que o filme retorna sempre. E com à inegável elevação. Só nos resta sair em busca de um cavalo, abraçá-lo e, também, chorar! Mas, antes é necessário assistir a esse filme incomparável, pela relação de tempos, silêncios, ruídos e música. De naturezas! A nossa e a desse <em>Cavalo de Turim</em>. E que mereceu esse filme raro. Raríssimo entre nós que vivemos do culto idiota do mercado e da TV. Aqui, filmes como <em>Sudoeste</em>, <em>Carta ao Futuro</em> e <em>Marighella</em> são esforços individuais épicos, pois são também anti-hollywoodianos e necessários, pois não se satisfazem com bolinhas, estrelinha,  bonequinhos e festivais. São usados, mas usam também porque nos fazem pensar numa história nova tanto para o cinema, como para política. De lixo já estamos muito bem servidos. Lixo que serve ao mercado, não a poesia. E cinema sem poesia, vira televisão. Fascismo, né?</p>
<p dir="ltr"><strong>Clique e assista o trailer:</strong></p>
<p dir="ltr"><p><a href="http://www.revistamoviola.com/2012/04/30/nos-e-o-cavalo-de-turim/"><em>Click here to view the embedded video.</em></a></p></p>
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		<title>Curta Kinoforum abre inscrições</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Mar 2012 16:38:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Moviola</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Curta]]></category>
		<category><![CDATA[Curta-metragem]]></category>
		<category><![CDATA[Festival]]></category>
		<category><![CDATA[Kinoforum]]></category>

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		<description><![CDATA[Estão abertas as inscrições para o 23º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo (Curta Kinoforum). O evento acontece de 23 a 31 de agosto de 2012. Trata-se de um festival realizado desde 1990 na cidade de São Paulo. Anualmente, o evento seleciona cerca de 400 produções do Brasil e do mundo. Sua programação tem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/03/Curta-Kinoforum-–-23º-Festival-Internacional-de-Curtas-Metragens-de-São-Paulo.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5278" title="Curta Kinoforum – Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/03/Curta-Kinoforum-–-23º-Festival-Internacional-de-Curtas-Metragens-de-São-Paulo-300x181.jpg" alt="" width="300" height="181" /></a>Estão abertas as inscrições para o 23º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo (Curta Kinoforum). O evento acontece de 23 a 31 de agosto de 2012.</p>
<p>Trata-se de um festival realizado desde 1990 na cidade de São Paulo. Anualmente, o evento seleciona cerca de 400 produções do Brasil e do mundo.</p>
<p>Sua programação tem como eixo central os programas de filmes internacionais, latino-americanos e brasileiros e, a cada ano, também é criada uma série de programas especiais, a partir dos próprios filmes inscritos e de sugestões de curadores.</p>
<p>Site do festival: <a href="http://www.kinoforum.org.br/curtas/2012/">www.kinoforum.org.br/curtas/2012/</a></p>
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		<title>O Artista</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Feb 2012 20:10:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo de Almeida</dc:creator>
				<category><![CDATA[Longas]]></category>
		<category><![CDATA[Barton Fink]]></category>
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		<category><![CDATA[Cantando na Chuva]]></category>
		<category><![CDATA[Gene Kelly]]></category>
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		<category><![CDATA[Jean Dujardin]]></category>
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		<category><![CDATA[Nasce Uma Estrela]]></category>
		<category><![CDATA[O Artista]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar]]></category>

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		<description><![CDATA[O Artista, França/Bélgica, 2011, de Michel Hazanavicius. Na melhor sequência de O Artista, George Valentin sonha com o mundo sonoro, enquanto ele mesmo permanece mudo. O pesadelo resume as intenções de Hazanavicius, que não emula, propriamente, o cinema silencioso, mas confina o herói nos limites daquele universo &#8211; inclusive quando a fala o substitui, pouco [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O Artista, França/Bélgica, 2011, de Michel Hazanavicius.</strong></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-5268" title="O Artista, de Michel Hazanavicius." src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/02/thaartist3.jpg" alt="" width="504" height="334" /></p>
<p>Na melhor sequência de <strong>O Artista</strong>, George Valentin sonha com o mundo sonoro, enquanto ele mesmo permanece mudo. O pesadelo resume as intenções de Hazanavicius, que não emula, propriamente, o cinema silencioso, mas confina o herói nos limites daquele universo &#8211; inclusive quando a fala o substitui, pouco a pouco.</p>
<p>Os enquadramentos, a velocidade, os movimentos de câmera e os cortes são do cinema contemporâneo, no entanto &#8220;presos&#8221; na roupagem muda. Quando vemos as produções que de fato George Valentin estrela, Hazanavicius copia o período silencioso muito bem: por exemplo, na sequência em que o herói, mascarado, escala um muro e foge dos que o perseguem. Por outro lado, embora os filmes de Peppy Miller sejam sonoros, eles sempre aparecem na tela&#8230; mudos!</p>
<p>A forma predomina em <strong>O Artista</strong>. Ou melhor, quase só há forma. A trama, mal e mal, une a transição do cinema silencioso para o sonoro, como em <strong>Cantando na Chuva</strong> &#8211; e Jean Dujardin obviamente se baseou em Gene Kelly para compor o personagem -, com a ascensão da jovem estrela em detrimento do velho astro, a quem ama, como em <strong>Nasce Uma Estrela</strong>. Para Hazanavicius, o cinema não representa o mundo, não busca a verdade. O diretor se interessa apenas pela realidade que criou, ou seja, pelo microcosmo que existe somente na tela, durante a projeção, e que não se conecta a nada além do próprio simulacro que homenageia e (re)alimenta.</p>
<p>Em <strong>J.Edgar</strong>, a nova obra-prima de Clint Eastwood, o personagem-título pondera, lá pelas tantas, ao falar sobre o FBI, que tão importante quanto o que se diz, é o que não se diz. A crítica se encaixa à perfeição em <strong>O Artista</strong>. Hazanavicius propaga o velho clichê, mentiroso, de que astros do cinema mudo pereceram durante a transição sonora porque não se adaptaram ou deram as costas à inovação &#8211; George Valentin gargalha enquanto sua desafeta realiza o teste de som, para depois emendar que ele não pertence àquele futuro. A versão atualizada de <strong>O Palhaço que Não Ri</strong> &#8211; e <strong>O Artista</strong> guarda inúmeras semelhanças com a nefasta cinebiografia de Buster Keaton.</p>
<p>Mas o quê, exatamente, <strong>O Artista</strong> omite? Bom, para um filme, em teoria, sobre os bastidores de Hollywood, Hazanavicius não fala sobre a indústria do cinema em si. Há, claro, Al Zimmer, caricato produtor interpretado por John Goodman &#8211; e qualquer semelhança com <strong>Barton Fink</strong> não é mera coincidência -, cujos olhos brilham por dinheiro, que descarta até seu maior astro em favor de Peppy Miller. No entanto, quando o confrontam, ele cede: primeiro, George Valentin chama Peppy de volta, após Zimmer demiti-la pela capa da <strong>Variety</strong>; depois, Peppy envia o roteiro para Valentin e lhe salva a carreira.</p>
<p><strong>O Artista</strong> não diz, como nos lembra <strong>J.Edgar</strong>, que a transição do cinema mudo para o sonoro marcou a consolidação do &#8220;studio system&#8221; em Hollywood, com o domínio dos cinco grandes estúdios: <strong>MGM</strong>, <strong>Fox</strong>, <strong>Paramount</strong>, <strong>Universal</strong> e <strong>RKO</strong>. O som trouxe, definitivamente, as grandes corporações financeiras e industriais para o cinema: o banco <strong>Goldman Sachs</strong> patrocinou a pesquisa da <strong>Fox</strong> para o <strong>Vitafone</strong>, enquanto a <strong>Western Eletric</strong>, a <strong>General Eletric</strong> e a <strong>RCA</strong> entravam no mercado (a <strong>RKO</strong>, aliás, pertencia à <strong>RCA</strong>). Com o som &#8211; imposto de cima para baixo: decisão industrial, não artística -,os estúdios finalizaram a integração vertical do cinema, no qual produziam, distribuíam e exibiam os filmes em suas próprias cadeias de teatros, já que apenas os &#8220;big players&#8221; tinham condições econômicas de bancar os novos equipamentos que os filmes sonoros demandavam.</p>
<p>Claro que o processo que culminou na oligopolização do mercado cinematográfico já se iniciara durante o cinema mudo, quando a MGM contratou Irving Thalberg para controlar a produção (embora Thalberg, paradoxalmente, não acreditasse no som). Ele é o elo perdido em <strong>O Artista</strong>, aquele que Hazanavicius não invoca, nem nas entrelinhas. Graças a Thalberg, os diretores (e atores-diretores, tradição que se inciou com Roscoe Fatty Arbuckle) perderam em definitivo o poder em Hollywood, que passou a ser exercido com mão de ferro pelos estúdios. Como produtor-executivo, Irving Thalberg cortou a liberdade artística de Erich Von Stroheim, Tod Browning e Buster Keaton, por exemplo, e os submeteu à linha de montagem. Keaton não fez a transição para o sonoro porque não compreendeu o som, e sim porque Thalberg lhe tirou o controle de seus próprios filmes!</p>
<p>&#8220;The final cut&#8221;, ferramenta que Thalberg, Zanuck, Selznick e outros que se seguiram negaram aos diretores na &#8220;Era de Ouro de Hollywood&#8221;. O direito ao corte final, ao poder sobre o filme. Talvez a exceção seja Chaplin, que também era dono da United Artists. É a questão que <strong>O Artista</strong>, conscientemente, não toca: na sequência do incêndio, George Valentin salva a lata com a primeira cena entre ele e Peppy Miller, não o filme que escreveu, dirigiu e produziu.</p>
<p>O romantismo a serviço da indústria. O Artista é a crônica do triunfo de Hollywood sobre o autor.</p>
<p><strong>Veja o trailer aqui:</strong></p>
<p><a href="http://www.revistamoviola.com/2012/02/18/o-artista/"><em>Click here to view the embedded video.</em></a></p>
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		<title>Um Nelson em Tom maior</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Feb 2012 18:18:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[A música segundo Tom Jobim]]></category>
		<category><![CDATA[documentário brasileiro]]></category>
		<category><![CDATA[Dora Jobim]]></category>
		<category><![CDATA[Nelson Pereira dos Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Tom Jobim]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160; “Já ninguém mais lembra o passado/ Nem se ele existiu/ Quando nos oferecíamos ao encanto/ Do desconhecido/ Para hoje nos oferecer e nos perder/ Nos encantos do espetáculo/ Com a despolitização da vida/ A alienação da arte/ A estética do fascismo/ E a entrega sem desejos/ [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/02/nelsonpereiradossantos.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5243" title="nelsonpereiradossantos" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/02/nelsonpereiradossantos.jpg" alt="" width="490" height="276" /></a></p>
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<p>“Já ninguém mais lembra o passado/ Nem se ele existiu/ Quando nos oferecíamos ao encanto/ Do desconhecido/ Para hoje nos oferecer e nos perder/ Nos encantos do espetáculo/ Com a despolitização da vida/ A alienação da arte/ A estética do fascismo/ E a entrega sem desejos/ Não basta ser humano/ Tem de ser imagem”.</p>
<p>(Sindoval Aguiar em <em>Nem me Lembro</em>)</p>
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<p>Se a TV prostitui tudo, a música dá a diferenciação possível entre a criação profunda e os consumidores. É, digamos, uma força de resistência e de conscientização descentralizada da produção de excrementos para o mercado. <strong>Nelson Pereira dos Santos</strong> com <strong><em>A Música Segundo</em></strong> <em><strong>Tom Jobim</strong></em>, documentário co-dirigido com Dora Jobim, insiste que temos que procurar a felicidade na lata de lixo da indústria cultural, e guiar o público até Brecht. Mas Nelson não é Brecht, mas o cineasta que lapida imagens para operar a catarata das massas, sabendo que a redenção não virá com o baixo uso do espetáculo da violência ou com Hollywood. Mas com Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Tom Jobim&#8230;</p>
<p><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/02/tomvinicius.jpg"><img class="alignleft" title="tomvinicius" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/02/tomvinicius.jpg" alt="" width="372" height="292" /></a>Ora, só a música transcende os muitos discursos fascistas do nosso tempo. Ela chega a todos de diversas maneiras, e não precisa do progresso artificializador tecnológico. Ela enriquece todo esforço revolucionário. Foi assim ontem com Bach, Verdi, Wagner, Mozart&#8230; Segue sendo assim com Arrigo Barnabé, Macalé, Tom Jobim&#8230; Felizmente seu processo segue sendo desestabilizador através dos tempos. Ao parasitismo putrefato da política partidária, ela responde com uma poética acumulação de sonhos e paixões, impondo-se como formulação de caminhos. Nelson Pereira dos Santos uma vez mais substancia o cinema, desta vez falando pela música de Tom Jobim.</p>
<p>Deixa a ficção falida aos boçais da aliança publicidade-TV, para privilegiar uma espécie de organicidade dos muitos afetos vividos por Tom. É importante salientar que a música não precisa de empresários, bancos ou burocratas. Ela existe nas festas populares, nos bairros operários e até no Carnaval. Também não é um produto descartável como “A Eguinha Pocotó”, mas uma superação histórica do capital que vive e morre nele mesmo. Ou seja, a música sempre será uma arte popular, decisiva para a compreensão da história. E esse filme de Nelson sobre Tom é realmente um espetáculo em seu sentido grandioso. E falar de um espetáculo nos obriga a algumas observações.</p>
<p>Espetáculo eminentemente musical a nos conduzir em razão do tempo de domínios, exclusões e massificações e, onde até a luz se apaga pela banalidade, a uma reflexão também crítica, política e ideológica. Não deixando escapar os meios de produção e o capital que tudo emporcalharam. Tornando a mídia, a tela, luz de uma vela sem fé e de muito perigo. Mas Nelson Pereira é um cineasta de muitos experimentos e sabe definir os espetáculos à semelhança de um Buñuel, que fazia da música coisa tão importante e misteriosa, como suas próprias histórias, tornando-a quase imperceptível em seus filmes. Pelo que possuía de sublime, como nos tambores de Calanda, de que falaremos mais adiante.</p>
<p><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/02/tomelis.jpg"><img class="alignright" title="tomelis" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/02/tomelis.jpg" alt="" width="353" height="234" /></a>O filme sobre Tom Jobim é um fenômeno musical de tempos levitados que Nelson nos traz nos fazendo acreditar que todas as diferenças culturais existem, estão aí, só precisando ter a sua luz captada, abrindo espaços, que imperceptíveis, vão se fechando na eliminação das diferenças particularistas de nossas existências e de nossa força de expressão criativa, destruídas e dispersas pela violenta investida de um tempo que não se contém nem se contenta pelas incursões desmedidas na cultura do espetáculo. Nos causando uma inferioridade e nos deixando um universo de vazios bestificados e arrogantes. Como se quiséssemos salvaguardar a selvageria do mundo! Tornando o ser humano um combustível carnívoro para as máquinas. Com a cultura não nos protegendo contra nada, servindo à própria barbárie, como dizia Pasolini, nessa agitação mortífera das telas, principalmente as das televisões de todos os espaços públicos e privados. Quando toda a inquietação da música, da poesia estão sem luz flutuante a caminho das esferas. O que esse filme sobre a música de Tom nos traz e nos projeta é o próprio universo. Nos assimilando também com lágrimas, delírio e paixão. E encantamento.</p>
<p>Nelson se deixou levar pelo encantamento! E fez coisa rara. A musicografia de Tom para uma leitura infinita de todos os sentidos; mesmo daqueles ausentes, cujos ecos de tão percucientes, se farão tocar. Musicografia cinema. Porque linguagem, expressão, poema, luz refletindo como som e imagens; com tantas histórias! Falando todos os idiomas e cujos segredos e intimidades, a cada um se revelam como ao autor/diretor que soube ouvir e conduzir todos numa regência de Tom. Porque intimidade e cosmogonia. Nostalgia nas esferas! Nelson subvertendo a natureza da linguagem. Fases e faces misteriosas que só o tempo e a arte revelam e que o cinema, como o mito, nem sempre projetam, retém à espera do tempo. O tempo de Nelson. O tempo de Tom Jobim. Como tivemos um tempo de Pasolini. De Drayer, Lang, Buñuel, Glauber etc.</p>
<p>Buñuel em seus filmes projetava os ecos dos tambores de Calanda, sua cidade natal. Neles, mistérios e provocações, histórias e pulsões. De muitas Espanhas. E daquela que ele gostaria que fosse. De Picasso, Goya, Velásquez, Lorca, Dali e de tantos mais. E com ecos desses tambores que tudo significa: da música, do poético ao trágico! E da diferença de Buñuel. Como nessa musicografia de Tom, uma diferença de Nelson Pereira dos Santos. Onde as diferenças de Brasil são também mistérios e projeções, desde <strong><em>Rio 40 Graus</em></strong>, <strong><em>Rio Zona Norte</em></strong>, o subúrbio de Caxias no <strong><em>Amuleto de Ogum</em></strong>, e outros Rios, como esse de Tom. O de Nelson em sua multiplicidade de tempos, histórias, representações e vontades. E Nelson sabe do que estamos falando! De caatingas e rincões, de metrópoles e solidões, de aglomerados militarizados, de culturas polarizadas e centralizadas, de muitos canais e de um só escoadouro. Nelson é também, muito desse retrato musical de Tom. Filme que emite sinais luminosos de vaga-lumes cruzando escuridões culturais de fascismos, de poder centralizado cooptando pelo discurso de paixão, adesão e medos. Nunca com o sentido cultural de Paz e Liberdade, de um Tom sempre maior.</p>
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<p><strong>Trailer do filme:</strong></p>
<p><a href="http://www.revistamoviola.com/2012/02/13/um-nelson-em-tom-maior/"><em>Click here to view the embedded video.</em></a></p>
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<p><img src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/tracejado.jpg" alt="" width="500" height="5" /></p>
<p><em><strong>Luiz Rosemberg Filho</strong> é diretor de cinema, escritor e artista plástico carioca. Foi roteirista de Adyós General e Viva a Morte. Dirigiu Assuntina das Amérikas, Crônicas de um Industrial e O Santo e a Vedete – até hoje inédito nos cinemas brasileiros. Atualmente dirige curtas-metragens em formato digital “para não enlouquecer”.</em></p>
<p><em><strong>Sindoval Aguiar</strong> é mineiro, roteirista, ator e diretor. Ele co-dirigiu dois longas, ao lado de Braz Sediak: Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja.  Escreveu roteiros para filmes como Álbum de Família, Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende.</em></p>
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		<title>Lourenço Mutarelli</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 21:33:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Moviola</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Cheiro do Ralo]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[História em Quadrinhos]]></category>
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		<category><![CDATA[Lourenço Mutarelli]]></category>
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		<category><![CDATA[Quadrinhos]]></category>
		<category><![CDATA[Transubstanciação]]></category>

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		<description><![CDATA[Lourenço Mutarelli, quadrinista, escritor e ator, faz aqui uma revisão de sua carreira. Hoje em dia, mais afeito à literatura do que aos quadrinhos, ele explica como se deu a transição que levou o autor do HQ Transubstanciação a se lançar como romancista escrevendo em 2001 o emblemático O Cheiro do Ralo, livro base para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/02/quando-meu-pai-se-encontrou-com-o-et-fazia-um-dia-quente-1.jpg" rel="lightbox"><img class="size-medium wp-image-5223 alignleft" title="Quando o meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, de Lourenço Mutarelli" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2012/02/quando-meu-pai-se-encontrou-com-o-et-fazia-um-dia-quente-1-300x228.jpg" alt="Quando o meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, de Lourenço Mutarelli" width="300" height="228" /></a></p>
<p><strong>Lourenço Mutarelli</strong>, quadrinista, escritor e ator, faz aqui uma revisão de sua carreira. Hoje em dia, mais afeito à literatura do que aos quadrinhos, ele explica como se deu a transição que levou o autor do HQ <strong><em>Transubstanciação </em></strong>a se lançar como romancista escrevendo em 2001 o emblemático <strong><em>O Cheiro do Ralo</em></strong>, livro base para o filme dirigido por <strong>Heitor Dhalia</strong>. Aclamado em ambas as linguagens, Mutarelli coleciona seis romances, uma peça de teatro e dezessete álbuns de histórias em quadrinhos. Seu último trabalho, <strong><em>Quando Meu Pai se Encontrou com O ET Fazia Um Dia Quente </em></strong>(foto acima), foi lançado no final de 2011 e até agora ninguém sabe dizer se é uma história ilustrada ou uma HQ disfarçada de literatura. Como ator, o seu maior desafio foi viver o protagonista da adaptação de <a href="http://www.revistamoviola.com/2010/01/25/natimorto/">Natimorto</a>, livro que ele próprio escreveu. Para Mutarelli, seu trabalho é reflexo do inferno pessoal que viveu na juventude. Os desertos e labirintos, os personagens em distúrbio, o realismo fantástico, são sintomas desse e de outros dramas. Mas o que Lourenço Mutarelli mais quer com a sua obra é encontrar a delicadeza, &#8220;mas sem ser banal, sem ser bunda mole&#8221;. Assista a entrevista.<br />
<strong><br />
</strong></p>
<p><a href="http://www.revistamoviola.com/2012/02/02/lourenco-mutarelli/"><em>Click here to view the embedded video.</em></a></p>
<p><strong>Créditos</strong></p>
<p><strong></strong><strong>Entrevista e montagem</strong> por <a href="http://www.revistamoviola.com/author/admin/">Aristeu Araújo</a><br />
<strong>Som direto</strong> por Denise Soares<br />
<strong>Produção </strong><a href="http://www.haverfilmes.com.br">Haver Filmes</a></p>
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		<title>Umberto D. e nosso cinema consignado</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Dec 2011 16:18:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cinema e política]]></category>
		<category><![CDATA[cinema italiano]]></category>
		<category><![CDATA[cinema político]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento econômico]]></category>
		<category><![CDATA[era Collor]]></category>
		<category><![CDATA[Graciliano Ramos]]></category>
		<category><![CDATA[Humberto D]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Rosemberg Filho]]></category>
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		<description><![CDATA[Para os Bandeirantes do Ponto Cine “Só a morte é possível/Enquanto a vida é luta/Pelo impossível/E de glórias/Inglórias/Se de antemão/Sabemos a vitória /Vale pela força/E pelo desempenho/Como na arte/A astúcia/A vencer o velho/E o novo/E o tempo que passa/E se não passou/É a arte ou a velhice/Que pesou/E se vence a arte/Pode não ser eternidade/Mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p id="internal-source-marker_0.2563177885467487" dir="ltr"><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/umbertod.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-5179" title="umbertod" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/umbertod.jpg" alt="" width="490" height="276" /></a></p>
<p dir="ltr">Para os Bandeirantes do Ponto Cine</p>
<p dir="ltr"><em>“Só a morte é possível/Enquanto a vida é luta/Pelo impossível/E de glórias/Inglórias/Se de antemão/Sabemos a vitória /Vale pela força/E pelo desempenho/Como na arte/A astúcia/A vencer o velho/E o novo/E o tempo que passa/E se não passou/É a arte ou a velhice/Que pesou/E se vence a arte/Pode não ser eternidade/Mas é vida/Surpreendida/ Num instante/Onde um ser que passa/Fez o flagrante/Arte e vida/E basta/Morte e velhice/Vencidas/Luta de morte/Luta de vida/De instantes/E de tempos/Bastantes.”</em></p>
<p style="text-align: right;" dir="ltr">                                  (De <em>Um Flagrante Basta, </em>de Sindoval Aguiar)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p dir="ltr">Leitor, vamos iniciar esse modesto trabalho sobre um grande filme de <strong>Vitório De Sica</strong>, com uma simples, mas necessária pergunta: por que “velhos” filmes geniais como <em>O Grito</em>, <em>Noites Brancas</em>, <em>Othelo</em>, <em>Umberto D</em> e mesmo <em>Deus e o Diabo Na Terra do Sol</em> não passam mais nos cinemas que se dizem de arte? Viraram telas, as da televisão que só comporta o lixo da sua programação? Ousaríamos dizer, aproveitando o espaço, que a eterna  crise no cinema brasileiro, é uma crise imposta de dependência. Que dependência? Um bom filme, sem dúvida, deve refletir sobre ela. Dependência política, econômica e cultural onde entra o nosso cinema. Mas&#8230; já vivemos um tempo em que a nossa cultura não era lá muito melhor, mas a dependência não se fazia sentir tanto. E o cinema não era tão atingido.</p>
<p dir="ltr">O controle sobre ele era rigoroso, mas havia uma real sustentação interna, mercadológica e cultural. Produzíamos de 80 a 100 filmes por ano. Possuíamos aproximadamente mais de 4000 salas de cinema em todo Brasil. E hoje? Talvez, nem um terço desse número. O cinema nacional também foi desregulamentado para atender à flexibilização das leis e interesses duvidosos. Muitos foram os que enriqueceram fazendo picaretagens, mas sendo vendidos como santos ou salvadores da pátria. Estatística séria e precisa para quê?</p>
<p dir="ltr">Houve uma época, não muito distante, mas parecida com um conto de fadas, em que o filme nacional para ser exibido, teve que conquistar uma reserva de mercado, a fórceps – pois o cinema estrangeiro não nos permitia espaço, quando a lei era mais truculenta do que o mercado. Hoje a lei é única, e mesmo que o filme fosse bem de bilheteria, teria que deixar o mercado. Foi e ainda é assim! O distribuidor estrangeiro, com a complacência do exibidor, exigia.  Mas, foram lutas memoráveis que precisam ser conhecidas e reincorporadas ao nosso cinema. O grande público já não fazia qualquer distinção que prejudicasse o cinema nacional. Já o defendia em condições de paridade criativa e técnica com o cinema estrangeiro. E na sua importância como cultura de massa, era defendido e respeitado como parte de nossa realidade econômica e cultural. E pela sua importância na construção de uma identidade para o povo, não pode deixar de viver em crise: endógena e exógena.</p>
<p dir="ltr"><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/220px-UmbertoD.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5185" title="220px-UmbertoD" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/220px-UmbertoD.jpg" alt="" width="220" height="307" /></a>Já nos foi dito que depois do holocausto a poesia não seria mais necessária. Seria o caso de sabermos se o cinema, como arte, não será mais necessário depois do fetiche, uma imposição do mercado e da indústria principalmente cultural. Mas isso somente poderemos saber, quando o cinema nacional voltar a ser exibido em centenas de salas e abordar matérias e ideias pertinentes à nossa formação, ainda tão precária e tão dependente. E o cinema pode perfeitamente contribuir para que a nossa própria cultura faça os questionamentos e apresente as respostas para aqueles problemas que nos interessam como país em desenvolvimento e cuja sustentação temos de sobra. Inclusive cultural e cinematográfica.</p>
<p dir="ltr">Lamentavelmente, o investimento real no Continente, é numa desmaterialização dos sonhos. Os países não suportam uma sociedade sem fome e guerras. Ora, onde nasceu a opera bufa do fascismo? O delicado e magistral <em><strong>Umberto D</strong></em> recém lançado em DVD, já é a vida e o resultado das guerras que estavam por vir. Quase um grande documentário do desmantelamento humano, feito com poesia e leveza. Na nossa opinião, o melhor filme feito por <strong>De Sica</strong>. E numa publicação de 2007 lemos num jornal que: o “olhar de medo é o primeiro a ser percebido pelo cérebro humano”. Medo do cotidiano, da existência que estaria por vir e da vida. Sem hierarquizações viver tornou-se assustador. E como bem dizia Kafka: “Estou aqui, mais que isso não sei, mais que isso não posso fazer. Meu barco não tem leme, navega com o vento que sopra nas regiões inferiores da morte”. Foi como o conservadorismo foi se impondo pelos séculos pelas religiões, meios de comunicação e pelas guerras de ocupação cultural, econômica e militar.</p>
<p dir="ltr">Digamos que a certeza de que vamos todos morrer, marca nossa impotência real frente a uma vida plena de realizações. Paga-se um preço caro pela velhice. O ser sensível (e poderíamos todos sermos sensíveis!), vive em permanente exílio. Fora, ou dentro do seu próprio país. Aos Planos de Saúde, políticos e Partidos não importa a mínima que se viva mal. O objetivo central é que em sendo velho, que se morra logo. Mesmo a cultura de massa é uma enganação. Como afirmava Adorno: “A diversão é o prolongamento do trabalho no capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo em condições de enfrentá-lo.” Ou seja, condiciona-se à esperança ao movimento bem pago das máquinas de controle individual e coletivo como a TV. E toda tentativa de rompimento, se dilui em editais, esperas e papeladas.</p>
<p dir="ltr"><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/cachorro.jpg"><img class="alignright" title="cachorro" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/cachorro.jpg" alt="" width="320" height="240" /></a>Uma vez aposentado, passa-se a não ser nada do interesse do dinheiro. Pagando  sempre com atraso, o tempo que demora a terminar. De Sica redimensiona com seu melhor filme, quiçá às avessas da imutabilidade dos velhos sobreviventes desse nosso tempo. Umberto D  é um simples professor aposentado com problemas de dinheiro e onde só a decadência do sistema é dimensionada como artifício anti-ilusionista, pois a velhice é um espaço onde não há mais começos, e sim enfermidades do corpo e da alma. E onde a catástrofe do fim torna a solidão, a corrosão natural dos que partem sem um só sonho. E apenas quiseram estudar, ler, viver e serem minimamente felizes no caso do professor Umberto Domenicco, em companhia de seu cãozinho maravilhoso que nos remete a cadela Baleia em <em>Vida Secas</em>, de Graciliano Ramos. O que interessa ao realizador e seu delicado personagem, é amplificar o real sentido da vida. Não como alegoria ou nostalgia, mas como defesa de uma outra história para a sensibilidade. Usando o cinema não como excentricidade técnica, mas como construção amorosa da sobrevivência humana.</p>
<p dir="ltr">Ainda a  propósito de Umberto D, essa obra prima de De Sica, um dos extremos do neorealismo pelo rigor narrativo e o rigor da sensibilidade em tocar extremos com as dicotomias expressivas, econômicas e sociais, o forte dos gênios desse gênero como Visconti, Rossellini, Francesco Rosi, Antonioni, etc., onde a cultura nunca esteve a reboque mas, sendo o fundamento crítico de uma astúcia poética, literária e cinematográfica. Como, em situações como essas, deixar de falar de nossa condição, de nosso cinema burocratizado, sempre uma ameaça vendendo encantamento, farsa, aderência? De cineastas envelhecidos e que já nascem de cabelos brancos, na encruzilhada e sem saber o que é, realmente, o nosso cinema. O que é e o que sempre foi! E também o que pode ser!</p>
<p dir="ltr">Cinema que não consegue sair do buraco; crescer rejuvenescendo! Quando nossos movimentos econômicos, políticos e culturais nos impõem envelhecimento. E a nossa experiência e alguma relação com esses fenômenos, notadamente, os sociais e culturais, não podem nos desmentir. Porque o Brasil sempre cresceu assim. Concentrando renda e fingindo fortalecimento interno. Crença e realidades forçadas pelo marketing e uma mídia comprometidos, historicamente, forçando uma economia e uma cultura social distorcidas, pelo nosso despreparo, pelo nosso desconhecimento.  E pelas nossas necessidades, acompanhadas sempre de um bom prato de mau caratismo. O rico mercado interno a crescer continuamente, não nos atende em nada, nos obrigando a consumir as porcariadas que veem de fora, comprometendo nossa formação pois, somos ainda, em desenvolvimento e formação; viciando o nosso espectador contra sua origem e responsabilidade. E, por outro lado, quem pode negar a nossa dependência a obsolescências,  enquanto nossa porca burguesia consome bens duráveis, viaja e exorbita, privilegiada pela concentração da renda, e um PIB que não tem servido socialmente ao país? Porque a realidade confirma que, estruturalmente, nada se altera. No campo e na cidade. Há uma ditadura social e econômica no debate e na visão crítica das ideias. Onde, no cinema, obrigam-nos agora, a expô-las às corporações para alguma consignação! Temos que refletir culturalmente e politicamente sobre tudo isso! Onde está o povo no poder?</p>
<p dir="ltr"><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/umberto-d-1952.jpg"><img class="alignright" title="umberto-d-1952" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/umberto-d-1952.jpg" alt="" width="280" height="210" /></a>O nosso cinema sempre foi refletido de forma enganosa porque a força de seus meios e de seu movimento circulatório nunca foram os do interesse do país. Mas, da minoria, a que detém poder, riqueza e suas excedências, as que definem os movimentos. Ninguém pode negar o crescimento do mercado cinematográfico mas, para quem? Para a concentração de renda e para os abusos de domínio e obsolescências. Não estamos falando de moral mas de ética, sociologia, política, desenvolvimento e necessidades! E de domínios, destes que avançam no cinema garantindo o mercado, o público cativo nos impondo o princípio corporativo! Já nas burocracias e também nas produções dos filmes, nas histórias e na escolha de atores, todos amestrados, fazendo coro ao sistema que foi se tornando único desde a era Collor, desmontando o cinema e estruturando o sistema de vídeo; agora forçam a tecnologia, negando a força criativa dos cineastas, controlando o mercado e forçando o consumo do que produzem e passam a importar para o nosso cinema. Principalmente a tecnologia 3D. Para nada além de domínio e controle.</p>
<p dir="ltr">As leis brasileiras precisam rever esse quadro, enquanto o governo parece favorável a construir um Brasil mais brasileiro! Direcionando melhor a conduta das empresas cinematográficas em defesa de nosso cinema. Claro, sem negar o momento, as relações internacionais, políticas e democráticas de negociações e imposições. As circunstâncias pesam! Conhecemos as circunstâncias, Jack Valente! A nossa globalização precisa ser melhor direcionada. O que nos interessa um monte de cinemas e de filmes idiotas em 3D, que o próprio público mais exigente recusa? Mais investimento, mais imposição e domínio? O que nos interessa um filme de produção custosa de l5, 18, 20 milhões, com nossos recursos, dirigida por um estrangeiro? Não estão querendo trazer Woody Allen para dirigir um filme aqui? Nada contra o delicado cinema de Woody Allen e sim contra os nossos burocratas. Nossa formação e nossas necessidades não são as mesmas de Roliude! Estudemos um pouco mais de história! A globalização não acelerou avanços, mas retardos! Imperializados e de dependências. Reparemos que os movimentos do cinema, não são os nossos movimentos circulatórios para nós. Com dependência simulando avanços e crescimento do mercado. E o que realmente existe mas, com as telas e o mercado, para nós, fechados!</p>
<p dir="ltr"><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/Umberto-D.jpg"><img class="alignleft" title="Umberto-D" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/Umberto-D.jpg" alt="" width="350" height="245" /></a>Avanços de corporações não significam avanços para o cinema nem para o país. De modo geral, nos tornamos um cinema de produção e de exibição, corporativas. Consignadas! Com o mercado interno completamente dominado pelo lixo que vem de fora. Com o cinema fazendo movimento em círculo, no mesmo lugar. De onde não sai! Nossos movimentos não passam de uma realidade presuntiva, não acontece, fortalece o cinema contra nós, contra nossos profissionais, contra nossa profissão, fingindo a ascensão de uma classe social, fazendo cinema por elas mesmas. Uma mentira que quer se tornar verdade.  E se torna. Mas, uma verdade, da mentira! A mesma do operário querendo ser patrão, sem tocar política e culturalmente nos movimentos, os de mudança. Sem o nosso crescimento nas telas com bons filmes, mas geradoras de renda para cobertura de produções e de todos os custos, gerando lucros, é tudo falso. Até que os próprios incentivos podem nos faltar ficando somente os da dependência e os de domínios: os das corporações. Esse fluxo enorme do nosso cinema nada nos tem representado como independência do nosso cinema. Continuamos à margem; das telas, inseridos nas logomarcas, no sistema de domínio e de controle.</p>
<p dir="ltr">Já estamos no cinema, como o mundo dos idosos. Carentes e dependentes. Sonhando um outro dia menos miserável, então, empenham o próprio salário nos bancos. Os famosos empréstimos consignados que tanta riqueza gera e concentra. Favorecendo um consumo interno e um alavancamento do PIB. O idoso no empréstimo, oferece a segurança do contracheque. O cineasta quando obtém algum recurso e alguma tela alternativa, garante assim, que nosso cinema permanecerá dependente, dominado, selendo nossas possibilidades e nossos sonhos. O de nunca acordar! E nosso cinema é tão importante que ninguém pode mais negar a razão econômica, política e social. Vide os filmes das favelas, os tais das UPPs, feitos por nós mesmos; quer dizer, por eles mesmos! Como negar a nossa cultura? Felizmente, ela continua na luta! Nas ditaduras de farda ou do cinema! Foi assim no “milagre econômico” de 1975. E tem sido assim na nossa Idade de Ouro do cinema! Onde o bolo nunca cresce para ser dividido. E nunca jorrando nem leite, nem mel!</p>
<p dir="ltr">*Fotos: cenas de Umberto D.</p>
<p><img src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/tracejado.jpg" alt="" width="500" height="5" /></p>
<p><em><strong>Luiz Rosemberg Filho</strong> é diretor de cinema, escritor e artista plástico carioca. Foi roteirista de Adyós General e Viva a Morte. Dirigiu Assuntina das Amérikas, Crônicas de um Industrial e O Santo e a Vedete – até hoje inédito nos cinemas brasileiros. Atualmente dirige curtas-metragens em formato digital “para não enlouquecer”.</em></p>
<p><em><strong>Sindoval Aguiar</strong> é mineiro, roteirista, ator e diretor. Ele co-dirigiu dois longas, ao lado de Braz Sediak: Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja.  Escreveu roteiros para filmes como Álbum de Família, Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende.</em></p>
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		<title>O Espelho de AnA</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 14:02:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa C. Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Documentário]]></category>
		<category><![CDATA[Média-metragem]]></category>
		<category><![CDATA[O Espelho de AnA]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma crítica afetiva “O poeta fala das coisas que são suas e de seu mundo, mesmo quando nos fala de outros mundos: as imagens noturnas são compostas de fragmentos das diurnas, recriadas conforme outra lei. O poeta não escapa à história, inclusive quanto a nega ou a ignora. Suas experiências mais secretas ou pessoais se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em>Uma crítica afetiva</em></strong></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-5171" title="O Espelho de Ana" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/12/espelho_ana.jpg" alt="" width="490" height="276" /></p>
<p>“O poeta fala das coisas que são suas e de seu mundo, mesmo quando nos fala de outros mundos: as imagens noturnas são compostas de fragmentos das diurnas, recriadas conforme outra lei. O poeta não escapa à história, inclusive quanto a nega ou a ignora. Suas experiências mais secretas ou pessoais se transformam em palavras sociais, históricas. Ao mesmo tempo, e com essas mesmas palavras, o poeta diz outra coisa: revela o homem.”  A citação é de <strong>Octavio Paz</strong>, vem de <strong><em>A consagração do instante</em></strong>, ensaio que integra o clássico <strong><em>Signos em rotação</em></strong>. Paz fala especificamente de literatura nesse ensaio, mas o trecho que destaquei me parece servir sem nenhum prejuízo ao gesto da cineasta <strong>Jessica Cadal</strong>, que lançou em Curitiba seu documentário em média-metragem<em> <a href="http://www.oespelhodeana.com.br">O espelho de AnA</a></em>.</p>
<p>Nos termos de<strong> Octavio Paz</strong>, estive diante do filme como se estivesse diante de um poema. Porque não se contou nele apenas uma história ou a história cotidiana e pessoal da própria Jessica. Antes, ela, Jessica, se apresentou diante de nós através de seu filme, fez-se imagem, montou um poema de si mesma, cerzindo a história única de sua intimidade à intimidade das mulheres com que convivera. E com isso, ao mesmo tempo em que nos convidou a assistir à história de sua casa, de sua família, portanto, de tudo aquilo que a estabelece num lugar e tempo específicos, Jessica tratou de temas largos, como a condição feminina, o relacionamento, a família, o amor. E é essa ambiguidade, ser “aquilo e isso”, estar no tempo e descolar-se dele simultaneamente, que aproximou, a meu ver, <strong><em>O espelho de AnA</em></strong> às construções poéticas.</p>
<p>O artista plástico francês <strong>Christian Boltanski</strong>,<a href="http://www.revistaenie.clarin.com/arte/christian-boltanski-artistas_0_590941108.html"> em entrevista ao periódico Clarín</a> , para justificar algumas escolhas estéticas que fez ao longo de sua carreira, disse que assim como para os santos, também para o artista a própria vida pode ser uma obra. Ele mesmo sempre usou sua vida, seus objetos e sua história como material para suas instalações. Mas ali, no espaço do museu, a vida reorganizada é ao mesmo tempo uma vida específica e reflexão da vida de quem a vê. No final, chega-se àquilo que é anterior à própria identidade, ao que<strong> Octavio Paz</strong> denomina, ao longo do livro citado, de “a condição humana”.</p>
<p>Da mesma forma, Jessica, pelo milagre do cinema, desmonta sua própria vida e a reorganiza. A câmera, que tem a acompanhado desde a adolescência — desde cedo se fez personagem, imagem — registra a repetição das tarefas domésticas, que se ressignificam, ou melhor, são atribuídas de significado no filme, através do filme. Sem precisar dizer (pois um poema é e não conta), concluímos que mais que o sobrenome, o que aproxima essa jovem cineasta, politizada, culta, à sua avó, duas gerações atrás e tudo aquilo que a impediu de construir uma vida só sua, é o papel que ocupam: o de mulher, palavra ambígua que denota sexo e maternidade, gênero e estado civil, que se confunde ainda nos nossos dias ao de esposa. A ambiguidade, sempre ela: a malícia de Eva, a inocência de Maria.</p>
<p>O parto do seu filho é similar em tudo a tantos outros partos.</p>
<p>Talvez pela minha idade, fertilíssima, pela constante notícia que tenho recebido de amigas que se casam, amigas que engravidam, amigas que me convidam para as festinhas de aniversário dos filhos. Talvez pela minha consciência em me reconhecer mulher adulta, que me tira dos movimentos contínuos enquanto dobro as camisetas que recolho do varal, enrolo as meias e cuecas do meu marido, em muita coisa eu me reconheci nesse excelente documentário de <strong>Jessica Candal</strong>.</p>
<p>Reconhecer-se na estranheza do espelho de outra, essa foi a experiência.</p>
<p style="text-align: center;"><p><a href="http://www.revistamoviola.com/2011/12/12/o-espelho-de-ana/"><em>Click here to view the embedded video.</em></a></p></p>
<p><img src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/tracejado.jpg" alt="" width="500" height="5" /></p>
<p>&#8220;O Espelho de AnA&#8221;, dirigido por Jessica Candal, relata a investigação da diretora-personagem a respeito da sua condição enquanto mulher. Através do espelhamento em pessoas íntimas, como a avó, mãe, marido, amigas e a filha de uma delas, sua própria identidade é ao mesmo tempo forjada e revelada.</p>
<p>Documentário, 43 minutos, MiniDV, VHS e Super-8</p>
<p><img src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/tracejado.jpg" alt="" width="500" height="5" /></p>
<p>Vanessa C. Rodrigues é formada em letras pela UFPR e trabalha como editora, copidesque e revisora de livros. Também é escritora.</p>
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		<title>Quem desejou Norma Jean</title>
		<link>http://www.revistamoviola.com/2011/11/04/poemas-de-rosane-carneiro/</link>
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		<pubDate>Fri, 04 Nov 2011 17:32:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rosane Carneiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Versos]]></category>
		<category><![CDATA[Abjeta]]></category>
		<category><![CDATA[outros poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poesia brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Rosane Carneiro]]></category>
		<category><![CDATA[travessia]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Abjeta &#160; Quem desejou Norma Jean encontrou sob a seda da pele cicatriz de estopa &#160; A moça nunca esteve Sob o manto da carne nenhuma diva se mantém encanto &#160; Óleo ou acrílico e desbotada aquarela preenchem os sulcos da musa-mulher empalada &#160; Os pregos nos poros estendem seu território: Ela grita mitificada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/11/Schiele_-_Liegende_-_1918.jpg"><img class="size-full wp-image-5138 aligncenter" title="Schiele_-_Liegende_-_1918" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2011/11/Schiele_-_Liegende_-_1918.jpg" alt="" width="490" height="276" /></a> </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Abjeta</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quem desejou</p>
<p>Norma Jean</p>
<p>encontrou</p>
<p>sob a seda da pele</p>
<p>cicatriz de estopa</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A moça nunca esteve</p>
<p>Sob o manto da carne</p>
<p>nenhuma diva</p>
<p>se mantém</p>
<p>encanto</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Óleo ou acrílico</p>
<p>e desbotada aquarela</p>
<p>preenchem os sulcos</p>
<p>da musa-mulher</p>
<p>empalada</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os pregos nos poros</p>
<p>estendem seu território:</p>
<p>Ela grita</p>
<p>mitificada</p>
<p>de <em>glamour</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>* * *</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Travessia</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Acordei para lavar a calçada</p>
<p>O sol me chamou para atravessar</p>
<p>a esquina</p>
<p>Andei andei andei</p>
<p>Até não tocar o chão</p>
<p>e não tocar em mais nada</p>
<p>Até passar por dentro das pessoas</p>
<p>das coisas, das armas</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Atravessei</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Só o sol encostava em mim</p>
<p>enquanto eu ventava</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>* * *</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A manhã, a manhã, a manhã. Embriaguez da luz sobre o eixo da Terra. Reflexo em toda pupila de flor, caminho do ar mais límpido, tépido viajante. Clarão sobre os muros, vela da esperança içada em direção ao alto. Contemplação. Susto prismático, cabalístico, caleidoscópico sobre o início de todas as cores, aromas, pensamentos. Gênesis diário, página eterna, espiral, poliedro, paralela infinda. Bom dia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>* * *</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>corpo e catedral</strong></p>
<p><em> para Gaudí</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>corpo catedral</p>
<p>catedral corpo</p>
<p>sonhos erigem</p>
<p>partes no todo</p>
<p>salva a religião</p>
<p>dos que professam</p>
<p>edificar em si</p>
<p>um cosmos</p>
<p>um tudo</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>abertas naves de abrigo</p>
<p>vontades, histórias e percursos</p>
<p>escolhas</p>
<p>corpo para ser pedra</p>
<p>catedral para ser olho</p>
<p>para ser água, crença</p>
<p>criança ou método</p>
<p>missa rito tiro</p>
<p>ao já composto</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>corpos catedrais</p>
<p>organismos de valores</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>ofícios em ossos</p>
<p>desejos pelas veias</p>
<p>órgãos do sagrado</p>
<p>em todo humano</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/tracejado.jpg" alt="" width="500" height="5" /></p>
<p><em>Rosane Carneiro</em><em> </em><em>é autora de Excesso (1999, edição da autora), Prova (2004, Ibis Libris) e Corpo estranho (2009, Editora da Palavra). Participou de diversas antologias. É também editora, redatora, e mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.</em></p>
<p>*Desenho do pintor austríaco Egon Schiele.</p>
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