<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Revista Moviola - Revista de cinema e artes &#187; Contos</title>
	<atom:link href="http://www.revistamoviola.com/category/contos/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.revistamoviola.com</link>
	<description>Revista sobre cinema e artes</description>
	<lastBuildDate>Thu, 02 Feb 2012 23:58:53 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-br</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.2.1</generator>
<xhtml:meta xmlns:xhtml="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex" />
		<item>
		<title>4&#215;4</title>
		<link>http://www.revistamoviola.com/2008/06/02/4x4/</link>
		<comments>http://www.revistamoviola.com/2008/06/02/4x4/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 02 Jun 2008 03:30:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Naomi Conte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Naomi]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.revistamoviola.com/2008/06/02/4x4/</guid>
		<description><![CDATA[Gotejava sobre o ar condicionado do lado de fora da janela, a cortina de um verde puído, Ana limpava as unhas esparramada entre travesseiros sobre a cama de solteiro. Chovia há seis horas, fazia quarenta graus dentro do quarto e no rádio tocava &#8220;o meu destino é ser star&#8230;&#8221;. Se tivesse dinheiro compraria um jipe, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><img src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/quatro.jpg" alt="quatro.jpg" /></p>
<p align="left">Gotejava sobre o ar condicionado do lado de fora da janela, a cortina de um verde puído, Ana limpava as unhas esparramada entre travesseiros sobre a cama de solteiro. Chovia há seis horas, fazia quarenta graus dentro do quarto e no rádio tocava &#8220;o meu destino é ser star&#8230;&#8221;. Se tivesse dinheiro compraria um jipe, um quatro por quatro, chegaria na loja calçando chinelos de dedo, com o dinheiro em cash uma vez na vida. Seria mal atendida por dois ou três vendedores, mascaria chicletes nesse dia, entraria na loja como quem tem um cartão de crédito, com esse ar de felicidade dos comerciais de televisão. Ignoraria os dois ou três atendentes mal educados e invejosos, faria um teste drive com um jipe de cabine aberta e outro, japonês, de cabine fechada, compacto. No balcão, em frente ao vendedor assustado, retiraria da bolsa aberta maços de notas. E com as mãos abarrotadas faria parte da sociedade como uma cidadã respeitável. Saiu à noite durante um mês para concretizar seu objetivo: o jipe. Seu amigo policial J. trataria pessoalmente dos detalhes evitando inconvenientes, um acerto de cinco por cento no final. Impossível, tinha seus brios, gritava Ana com J., um casal de evangélicos era um exagero e soubera disso apenas dois meses depois do contrato assinado. Ele pastor, ela pastora, dinheiro não seria um problema nessa família, mas Ana matara os homens de deus aos dezessete anos com um aborto.</p>
<p align="left">&nbsp;</p>
<p align="left">Frustrada a primeira tentativa, Ana foi relembrada por J. e pelas propagandas de acessórios que cor metálica e air bag são ítens opcionais e decidiu-se por um leilão. Foram muitos os interessados na mulher de boa saúde. Seguiu-se uma ficha a ser preenchida por possíveis compradores garantindo um mínimo de idoneidade. Enfim, definiu-se pelo casal na faixa dos quarenta, vegetarianos e ecologistas, trabalhavam numa grande empresa de computadores americana. Conheciam o Brasil de uma breve viagem ao Rio de Janeiro, haviam inclusive feito uma visita guiada às favelas. Via-se logo que tinham preocupações sociais, elocubrava Ana acariciando a barriga. Haviam lido Baumann e gostado muito. Planejavam comprar à prazo um terreno numa ilha artificial no Golfo Pérsico para ajudar a preservar o meio ambiente. Ela, operada de miomas, não podia mais engravidar. O contrato fechado por cinqüenta mil dólares incluía bancos de couro.</p>
<p align="left">&nbsp;</p>
<p align="left">Seis meses depois, na sala da concessionária, Ana trocou seu bebê por um jipe tração nas quatro.</p>
<p><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/tracejado.jpg" title="tracejado.jpg"></a></p>
<p style="text-align: center" align="center"><img src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/tracejado.jpg" alt="tracejado.jpg" /></p>
<p><em>Naomi Conte é escritora. Publicou o livro de contos </em><em><strong>A livraria da esquina e outros contos de mulheres</strong>. A autora escreve no blog <strong><a href="http://www.contosinterditos.blogspot.com" target="_blank">Contos Interditos</a></strong></em>.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.revistamoviola.com/2008/06/02/4x4/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>&lt;/br&gt;</title>
		<link>http://www.revistamoviola.com/2008/06/02/br/</link>
		<comments>http://www.revistamoviola.com/2008/06/02/br/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 02 Jun 2008 03:26:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alex de Souza</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.revistamoviola.com/2008/06/02/br/</guid>
		<description><![CDATA[A espuma do champanhe molhava seu bigode. Era doce, mas só levemente, e recendia um discreto odor de uvas. Aquela safra fora excepcional. No salão, os lustres derramavam uma claridade amarelada que combinava com o vestido branco de Luana. Estava lotado. Enquanto atravessava a pista de dança para encontrá-la, sentia os diferentes tecidos que vestiam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/br.jpg" alt="br.jpg" /></p>
<p>A espuma do champanhe molhava seu bigode. Era doce, mas só levemente, e recendia um discreto odor de uvas. Aquela safra fora excepcional. No salão, os lustres derramavam uma claridade amarelada que combinava com o vestido branco de Luana. Estava lotado. Enquanto atravessava a pista de dança para encontrá-la, sentia os diferentes tecidos que vestiam os convidados roçarem sua pele, seu smoking. Seda, algodão, cetim. Uma loira, que dançava animada com seu par, encostou no braço dele. A pele parecia veludo. Teve um breve calafrio. Parou em frente a Luana. Encostou a mão na nuca dela, esfregou os dedos na delicada penugem. O hálito esquentou-lhe o rosto e um calor percorreu todo seu corpo, numa onda, até alojar-se em suas calças. Trouxe o corpo dela para junto do seu. Sorriu ao escutá-la suspirando. Ela gostava de estar em seus braços.<br />
&lt;/br&gt;<br />
A lancha cruzava a baía em alta velocidade. O vento trazia o acre dos sargaços e sol era quente. Sentia a pele grudenta pelo sal e a blusa, com os botões entreabertos, pinicava seu torso musculoso e bronzeado. Luana abraçou-o por trás e passou as mãos pelo ventre delineado. Tinha as mãos frias e ele ficou arrepiado. Sentaram-se. Ele pediu ao piloto que desligasse os motores. Abriu a caixa térmica, cheia de gelo. Comeram ostras, com sabor salgado de luxúria. Sentia que, cedo ou tarde, ela haveria de ceder. Não tardaria o momento em que a possuiria. Mas não naquele dia, nem naquele lugar. Levantou-se e, num sobressalto, pulou da lancha, mergulhando na água fria, que refrescou todo seu corpo. Os olhos ardiam quando retornou a bordo.<br />
&lt;/br&gt;<br />
A lareira espalhava um gostoso bafejo morno na cabana. Lá fora, a neve se acumulava lentamente, em breve alcançaria a janela. Mas, não havia motivos para preocupação. Abraçados, próximo às chamas, trocavam também calor. Ela sussurrou uma brincadeira fútil ao seu ouvido e lhe ofereceu uma gole de chocolate quente. Era cremoso, mas muito doce. Ela lambeu um excesso que se alojou em seus lábios, próximo à bochecha. Sentiu cócegas. Ela continuou, lambendo seu queixo e descendo pelo seu pescoço, enquanto desabotoava-lhe a camisa. Sorveu profundamente o perfume do seu cangote, soltando pelas narinas um ar quente, agradável. Passeou com a ponta da língua pelos seus mamilos e, parando, fitou-o nos olhos. Duas poças verdes. Ele segurou-a firme, pelos ombros e a recostou na poltrona. Começou a despi-la, devagar, apreciando cada pequeno fragmento da paisagem em mármore que era o corpo dela. Os seios ainda em botão. Os pequenos pêlos que nasciam logo abaixo do umbigo e corriam em direção ao sexo dela, como se escapassem a um refúgio. Ela tremia a cada toque de sua mão. Não existia mais frio. Deitou-se sobre ela. Havia chegado o momento que aguardara tão ansiosamente. Antes de penetrá-la, beijou-a com ternura e perguntou: &#8220;Você me ama?&#8221;. &#8220;Sim&#8221;, ela respondeu. E seu hálito cheirava a urina.<br />
&lt;/br&gt;<br />
Urina?<br />
&lt;/br&gt;<br />
Engasgou-se com a sonda e golfou uma baba espessa, amarga e biliosa. O líquido subiu pela garganta, queimando tudo em seu caminho e saiu num longo jato, pela boca e pelo nariz. O tubo de látex caiu no chão e logo um outro desceu pelo terminal. Os neuroelétrodos parietais se desgrudaram de sua testa, como que por vontade própria, e se recolheram de volta à parede. Uma voz feminina e fria pedia que jogasse o material descartável na próxima lixeira. Caiu na calçada, sobre as calças úmidas e mal-cheirosas, enquanto um outro transeunte evitava encostar-se ou mesmo pisoteá-lo. Deve ser por isso que instalaram os terminais públicos, pensou, enquanto um esgar se infiltrava em sua face. Levantou-se, com as pernas trêmulas e tateou nos bolsos. Sempre andava com um creiom. Procurou, num beco próximo, um pedaço de papelão e, nele, desenhou a mensagem, em letras garrafais. Cofiou a barba suja e puxou um piolho. Foi até a rua e postou-se, com o papelão na mão, numa esquina: TRABALHO POR CRÉDITOS. &#8220;Hoje ela será minha&#8221;, pensou.<br />
&lt;/end&gt;</p>
<p><img src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/tracejado.jpg" alt="tracejado.jpg" /></p>
<p><em>A<strong>lex de Souza</strong> é jornalista e editor de conteúdo do site <a href="http://www.nominuto.com">Nominuto.com</a>. Também colabora com o e-zine <a href="http://www.disruptores.com.br" target="_blank">Disuptores</a>. </em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.revistamoviola.com/2008/06/02/br/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Maco desce o morro</title>
		<link>http://www.revistamoviola.com/2007/12/20/maco-desce-o-morro/</link>
		<comments>http://www.revistamoviola.com/2007/12/20/maco-desce-o-morro/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 20 Dec 2007 03:58:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Victoria Saramago</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.revistamoviola.com/2007/12/20/maco-desce-o-morro/</guid>
		<description><![CDATA[Teve um dia que eu subi o morro, como sempre fazia. Encostei o carro, ainda era início da noite, tinha muita água para rolar. A boca-de-fumo ainda estava bem vazia, como eu preferia mesmo. Um cara tinha me encomendado uma quantidade maneira de pó para ele e os amigos, acho que era um pessoal que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Teve um dia que eu subi o morro, como sempre fazia. Encostei o carro, ainda era início da noite, tinha muita água para rolar. A boca-de-fumo ainda estava bem vazia, como eu preferia mesmo. Um cara tinha me encomendado uma quantidade maneira de pó para ele e os amigos, acho que era um pessoal que ia viajar, algo do gênero. Sei que quando descesse para o EscoBar e os encontrasse, caralho, ia rolar uma grana preta. Comprei bem rápido, confiante: nego arregala os olhos com tanto dinheiro. O tal do chefezinho que devia estar ficando com a Luana não estava por ali, o que me deixou bem mais tranqüilo.</p>
<p>Fui descendo o morro numa boa, aquela ladeirinha, as casinhas no entorno e tudo vazio, meio escuro. Quando a gente vai de carro parece que essas coisas meio que não existem, que é só um grande buraco que separa a boca do resto da cidade. Mas eu dirigia devagar, não tinha por que ter pressa, ia reparando no que passava pelo caminho. Ia ter baile naquela noite, volta e meia aparecia alguém subindo o morro a pé. Nem sei se iam para o baile ou para a boca, ou para nenhum dos dois. Tem gente que sobe a pé, assim, na maior. Que nem eu há um tempo, só que aí era sempre para comprar pouco. Imagina se hoje em dia eu ia ficar andando na rua com essa quantidade de pó. Mas aquele pessoal, sei lá, nego vai mesmo e não quer nem saber. Continuei olhando, era engraçado. Umas garotas com cara de classe média, sozinhas, deviam estar indo para o baile. Nem sabia quem eram, nunca as tinha visto. Pensei até em falar com elas, vai que conheciam a Luana. Porque vou te dizer, Nuno, eu tinha uma vontade filhadaputa de ver a Luana naquele dia, era capaz até de passar na casa dela, de perguntar para minha prima onde ela estaria. Às vezes é inútil tentar controlar.</p>
<p>Desci mais um pouco, sem pressa. Tinha tempo até a hora que eu marcara com a galera do EscoBar. Continuava escurecendo e agora só dava para ver pouca coisa, os vultos das pessoas passando meio indiferenciados pelo meu carro, ainda que eu próprio prestasse atenção, vendo a Luana em todos os cantos, procurando a Luana em cada um que cruzava o meu caminho, porque era só a Luana, porra, eu só queria saber da Luana, bem que ela podia topar comigo ali mesmo, subindo a pé como devia estar fazendo desde que eu parara de levá-la de carro nos bailes. A Luana sabe aproveitar as oportunidades, como talvez soubesse aproveitar a chance que eu, pensando comigo, estava disposto a lhe dar. Mas não aproveitou nada quando, dali a menos de três minutos, o que seja – e é tão engraçado como parece que a gente pode prever as coisas – quando ela passou pelo meu carro, subindo a pé um dos trechos mais desertos, exatamente do jeito que eu tinha imaginado, sozinha, aquela calça da Gang apertada com o início da bunda para fora, o tipo de coisa que eu sempre estranhava nela, como conseguia usar aquelas roupas ridículas e continuar linda, sei lá, porque não combinava nada com o jeito dela, por mais gostosa que ficasse e mesmo que eu nunca tivesse reclamado no tempo em que estivemos juntos, a garota naquela vulgaridade, naquelas roupas de piranha – que no fundo ela era isso mesmo – e ainda assim tão linda, tão com cara de minha menina que caralho, Nuno, eu não tinha conseguido esquecer. Porque foi só bater os olhos nela para me dar conta disso, de que eu era tão a fim dela, sabe, tão amarradão, que não dava para fazer outra coisa além de mandar um foda-se para todas as merdas que ela me falara, pedir desculpa, sei lá, pedir mais uma chance, Luana, fica comigo de novo pelo amor de Deus, Luana, você não vê que eu gosto tanto de você, garota, vai ganhar o que dando para o cara da boca de fumo? Mas ela subia apressada, sem olhar para os lados, o jeito de medrosa que sempre fazia quando se via sozinha. Passou reto por mim, eu sem saber se realmente não tinha reconhecido o carro ou se se fingia de distraída. Freei de repente, os pneus cantaram de leve, ela não pôde deixar de virar a cara para o meu lado, de me ver saltar do carro e correr em sua direção, “Luana, peraí, Luana, quero falar contigo!”, e eu não sabia se devia gritar daquele jeito, se estava botando tudo a perder, mas quer saber? A verdade é que pouco me importava a cara de constrangida que ela fez, como se quisesse acima de tudo se livrar de mim, ou que me ignorasse e continuasse seu caminho apertando o passo, como de fato fez, pouco me importava que ela se vestisse da maneira mais escrota para ficar rebolando na frente de outro, para um cara desconhecido passar a mão na bunda dela, eu só corria e implorava para ela me esperar um pouco, “Luana, Luana, espera por favor!”</p>
<p>Alcancei-a uns dez metros depois. Mantinha o rosto baixo, parecia que não tinha coragem de me encarar.</p>
<p>- Vai para o baile?</p>
<p>- Vou.</p>
<p>Senti que tinha de ir direto ao ponto, que não adiantava ficar enrolando.</p>
<p>- O que aconteceu, Lu? Anda, me fala.</p>
<p>Mas ela permanecia inerte. Cheguei a pensar que estivesse chapada, quando afinal virou de frente para mim, o seu olhar perdido e eu sem a menor idéia do que fazer.</p>
<p>- Nada, Maco.</p>
<p>- Claro que tem coisa aí, qualquer idiota percebe. Me conta.</p>
<p>Ela silenciou, e me deu tanta raiva, Nuno, um nervoso dela ficar paradona desse jeito, caralho, segurei-a firme pelos braços.</p>
<p>- Anda, Luana, fala logo, não me faz perder a paciência contigo.</p>
<p>- Me solta, Maco! – ela se libertou das minhas mãos, não forcei a barra. – Deixa de ser escroto, cai fora daqui.</p>
<p>- Só saio quando você me der uma explicação. – a minha fala era dura.</p>
<p>Olhou à sua volta, como se buscasse alguém que lhe socorresse. Tudo deserto, tudo escuro. Eu continuava à sua frente, decidido a fazê-la me contar. Foi então que, como se checando de novo se não havia ninguém – e aí me pareceu que o que buscava não era exatamente ajuda – chegou bem perto de mim, quase como se quisesse me beijar, os olhos arregalados num sussurro:</p>
<p>- Me ferrei, Maco, saca? Estou fudida. Me entende por favor! – e tornando a se afastar – Não vou te falar mais nada, não precisa. E agora se manda daqui, é só o que eu te peço.</p>
<p>Ela então se virou novamente para o outro lado, suspirou e seguiu seu caminho. Continuei observando-a por algum tempo, como andava devagar e desesperançosa. A vontade que dava era de subir de novo na boca, entrar no baile, o que fosse, achar o maluco, enchê-lo de porrada, eu queria vingança mas era mais que isso, eu queria que a Luana voltasse a ser a minha Luana, que a gente voltasse a ir para os bailes todo fim de semana e se divertisse tanto quanto agora eu me desesperava de vê-la assim, melancólica, certamente indo para o baile do mesmo jeito que sempre fora, desde antes de eu conhecê-la, desde antes de tudo, as palavras reverberando na minha cabeça enquanto eu, na distância que me separava do carro, chutava as pedrinhas soltas do asfalto, Fudida, Maco, te peço, cai fora, se manda, me ferrei, e quando finalmente bati a porta e pus as mãos no volante, quase chorando, me ferrei, Maco, só o que eu te peço, caralho, tudo escuro já, foi quando olhei o relógio, e me dei conta do tempo que passara, da galera que dali a pouco me esperaria no EscoBar, a grana que ia rolar, ia ser muito vacilo furar com eles, daí eu percebi que estava tudo acabado.</p>
<p><em>* Victoria Saramago cursou Letras na UERJ e é autora do livro <strong>René Esfacelada</strong>. <strong>Maco desce o morro</strong> é um fragmento do romance inédito <strong>Meio-fio</strong>. Ela escreve também <strong>Memórias, sonhos e reflexões de um quarto de hotel</strong> em <a href="http://eusouumquartodehotel.blogspot.com" target="_blank">seu blog</a>.   </em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.revistamoviola.com/2007/12/20/maco-desce-o-morro/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Fodido, Fodidos</title>
		<link>http://www.revistamoviola.com/2007/12/20/fodido-fodidos/</link>
		<comments>http://www.revistamoviola.com/2007/12/20/fodido-fodidos/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 20 Dec 2007 03:55:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Davi Kolb</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.revistamoviola.com/2007/12/20/fodido-fodidos/</guid>
		<description><![CDATA[Ele estava fodido. Era feio. Era negro. A perna tinha um machucado um pouco abaixo do joelho direito. Enorme. Purulento. Quando estava próximo de cicatrizar ele pegava uma chave de fenda e voltava a abri-lo. Mancava por conta da ferida. Fazia questão de acentuar o movimento capenga. Vendia doces em ônibus da cidade. Chicletes, balas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ele estava fodido. Era feio. Era negro. A perna tinha um machucado um pouco abaixo do joelho direito. Enorme. Purulento. Quando estava próximo de cicatrizar ele pegava uma chave de fenda e voltava a abri-lo. Mancava por conta da ferida. Fazia questão de acentuar o movimento capenga. Vendia doces em ônibus da cidade. Chicletes, balas variadas, paçoca, amendoim e chocolate. Pegava carona nos coletivos. Entrava por trás. Caminhava com dificuldade até o trocador. Pendurava o gancho de ferro com suas mercadorias numa das barras de apoio aos passageiros. Sua tática era diferente dos concorrentes. Em vez de falar um texto tosco e mal decorado, fazia o contrário. Não falava. Só olhava. Encarava demoradamente cada passageiro. Olhava bem nos olhos. Um a um. Passava-se um minuto. Às vezes dois, até que o primeiro passageiro fazia sinal e pedia qualquer coisa. Um real. Outro chamado. Outro real. Mais um. Mais reais. Todos os passageiros compravam algo do ambulante. Todos queriam se livrar dele logo. Aquela figura causava desconforto, irritação, mal-estar generalizado. Todos internalizavam estes sentimentos. De algum modo o fodido sabia disso. Era, também, um sujeito astuto. Aproveitava-se da situação para ganhar quatro vezes mais que outros vendedores fodidos. Vendia e ia embora sem dizer nada. Após sua partida a sensação era de retorno à ordem. Então os passageiros abriam os seus saquinhos de doces. Comiam. Chupavam. Mastigavam. A vida era doce, novamente. Estavam todos fodidos.</p>
<p><em>* Davi Kolb é roteirista e curta-metragista. Tem no currículo os curtas <a href="http://http://www.youtube.com/watch?v=j1A9jhwu_9M" target="_blank">A Margaridinha</a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=94b5omoSjDo" target="_blank">Hora Extra</a> e <a href="http://www.youtube.com/watch?v=AKCFWHEK_n8" target="_blank">Universitário ou o sujeito que gostava de contemplar a vista</a>. </em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.revistamoviola.com/2007/12/20/fodido-fodidos/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>De dentro da alma mole das coisas</title>
		<link>http://www.revistamoviola.com/2007/09/26/de-dentro-da-alma-mole-das-coisas/</link>
		<comments>http://www.revistamoviola.com/2007/09/26/de-dentro-da-alma-mole-das-coisas/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 27 Sep 2007 06:54:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Natalia Sahlit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.revistamoviola.com/2007/09/26/de-dentro-da-alma-mole-das-coisas/</guid>
		<description><![CDATA[Tilintaram duendes e fadas enquanto a tarde escorregava indolente nas minhas janelas. Havia três grandes ventiladores, mas ainda assim o pouco oxigênio presente no ar se ocupava em bolinar com a ponta dos dedos as telhas antigas do casebre, que àquela hora faziam a sesta. Do chão, eu pressentia que se anunciava um grande acontecimento. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2007/09/pintura_conto_nat_gde.jpg" rel="lightbox" title="Ilustração: Aristeu Araújo"></p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2007/09/pintura_conto_nat_peq.jpg" /></p>
<p></a></p>
<p>Tilintaram duendes e fadas enquanto a tarde escorregava indolente nas minhas janelas. Havia três grandes ventiladores, mas ainda assim o pouco oxigênio presente no ar se ocupava em bolinar com a ponta dos dedos as telhas antigas do casebre, que àquela hora faziam a sesta.</p>
<p>Do chão, eu pressentia que se anunciava um grande acontecimento. E então chegava a mulher e perguntava por “antiqüidades”; vinha o homem e investigava os relógios de parede; o ourives do outro lado da rua tentava puxar conversa para, como sempre, fracassar.</p>
<p>Eu pensava em entregadores de pizza, comerciantes, comerciários, lavadeiras, secretárias, motoristas de ônibus, feirantes e, por fim, me distraía com a lembrança de um vestido de bolinhas à venda em uma loja fajuta da Ouvidor. As fadas azuis da estante três me repreendiam, mas eu me perdoava, porque este era um dia realmente quente.<br />
De repente, um paralelepípedo se soltou da calçada em frente. As mesas Luís XIV, estupefatas, permaneceram imóveis, e os duendes, em sua habitual reserva, olharam de soslaio. Uma mulher caiu, alguns correram para acudi-la. E fim.</p>
<p>Já não eram seis horas? Não, não eram. Quatro da tarde. Quatro da tarde. Quatro da tarde. Quatro e um. Escorri azeda atrás da mesa de mármore rosado. Deitei nela a cabeça e vasculhei a lembrança do garoto novo que tinha entrado em um ônibus em que eu viajara havia já muito tempo. Foi com preguiça e desânimo que me entreguei a ela por alguns minutos e, quando chegou a velha para buscar o lustre de vidro, eu estava no fundo da loja, crescendo e diminuindo sem grandes propósitos. O garoto se foi e a velha também, ambos sem respostas. Levantei do chão sujo do banheirinho três por quatro.</p>
<p>Tocou logo o telefone, e a frase que ele pronunciou soou tão rouca e longínqua, que pensei em vendê-la separadamente. Deixei o aparelho falar, pedir, implorar e até engasgar – neste momento, sádica, peguei o gancho: sim, temos móveis do século XIX, um montão deles; não, não alugamos nada para festas, nem as fadas; não, não estamos precisando de importadores; sim, dependendo do lugar, podemos até entregar, mas daí tem o frete; não, não somos um hospital; não, não aceitamos cheque pré; não, não negociamos preços; não, minha senhora, não negociamos preços – e comecei a achar estranho falar no plural, quando estava eu ali sozinha naquela loja havia&#8230; quantos anos?</p>
<p>O tempo, este grande sacana. Curioso querer que ele passe tão devagar ao longo da vida e tão rápido ao longo de um dia. Falar nisso, já não deu seis horas?</p>
<p>Veio entrando em foco, a partir do outro lado da rua, um homem de seus quase quarenta, bem-vestido, terno e gravata, jeito de executivo. Olhou a fachada da loja e continuou caminhando, em direção à minha porta. Bonito?&#8230; Bonito, bonito, sim. Permaneci atrás da mesa de mármore, esperando o encontro, sem respirar. Mas que mundo!, difícil não se verter a tantos abrilhantamentos, e o homem se deteve na minha calçada para pechinchar com os camelôs uma nova bateria para o celular.</p>
<p>Ai, que vontade de fumar, que vontade de fumar, mas eu parei, eu pelo menos estava parando, com direito a estratégia terrorista: a foto do meu pulmão cansado na porta da geladeira. Sabendo, no entanto, que só se cura um vício com outro, fui até a cafeteira junto à caixa registradora e coloquei mais pó no filtro. Derramada a água, o aparelho começou a ronronar baixinho e fumegar. Passados alguns segundos, espalhou-se o cheiro do café fresco por toda a loja – o que me deu, cada vez mais, vontade de fumar.</p>
<p>Tornei ao banheirinho imundo à procura do maço de cigarros, que não encontrei. Pensei em fazer uma faxina, mas esta não era a idéia de uma entusiasta. Voltei dos fundos da loja e vi que as coisas pareciam estranhamente ocupar cada qual seu lugar, como em um soturno jogo de sete erros: mesas, cadeiras, abajures, divãs, fadas e duendes. As sombras dos outros casebres haviam se esticado sem cerimônia sobre os velhos paralelepípedos. Seis horas.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.revistamoviola.com/2007/09/26/de-dentro-da-alma-mole-das-coisas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

