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	<title>Revista Moviola - Revista de cinema e artes &#187; Sofia Helena</title>
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	<description>Revista sobre cinema e artes</description>
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		<title>Quem quer ser um mulherão?</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Oct 2009 14:51:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sofia Helena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Takai]]></category>
		<category><![CDATA[Luz Negra]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[MPB]]></category>
		<category><![CDATA[Nunca Subestime Uma Mulherzinha]]></category>
		<category><![CDATA[Pato Fu]]></category>

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		<description><![CDATA[Vocalista desde 1992 da banda mineira Pato Fu, Fernanda Takai lançou neste ano seu segundo trabalho solo, Luz Negra. O disco retrata a versatilidade da cantora que consegue dar coesão a um álbum com canções de Tom e Vinícius, Eurythmics, Nelson Cavaquinho e Michael Jackson. Takai está em turnê pelo país e vem divulgando a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vocalista desde 1992 da banda mineira <strong><em>Pato Fu</em></strong>, <strong>Fernanda Takai</strong> lançou neste ano seu segundo trabalho solo, <strong><em>Luz Negra</em></strong>. O disco retrata a versatilidade da cantora que consegue dar coesão a um álbum com canções de <strong><em>Tom e Vinícius</em></strong>, <strong><em>Eurythmics</em></strong>, <strong><em>Nelson Cavaquinho</em></strong> e <strong><em>Michael Jackson</em></strong>.</p>
<p><strong>Takai </strong>está em turnê pelo país e vem divulgando a publicação em livro de uma seleção de crônicas e contos que escreveu pros jornais <a href="http://www.correiobraziliense.com.br/" target="_blank">Correio Braziliense</a> e <a href="http://www.em.com.br/" target="_blank">O Estado de Minas</a>. Entitulado <strong><em>Nunca subestime uma mulherzinha</em></strong>, o livro traz reflexões sobre os modos de pensar e sentir femininos. As “confissões” da autora nos levam a questionar o que tomamos como típico de mulherzinha ou de mulherão.</p>
<p><strong>Fernanda Takai </strong>respondeu, por e-mail, perguntas sobre esses seus dois últimos trabalhos. Confira abaixo.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3065" title="Foto: Fabiana Figueiredo e Pierre Devin" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2009/10/takai_int.jpg" alt="Foto: Fabiana Figueiredo e Pierre Devin" width="490" height="487" /></p>
<p><strong>Revista Moviola</strong>: <em><strong>Nunca subestime uma mulherzinha</strong></em><strong> é um livro “extremamente confessional” como salientou a Zélia Duncan no prefácio. Parece que temos um <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Moleskine" target="_blank">Moleskine</a> seu nas mãos, no qual você foi anotando de tudo durante anos e guardando na bolsa. Textos que refletem um auto-escrutínio constante e necessário para estar bem e não ser sugada por tudo o que te cerca. Quais seriam as coisas que podemos fazer para que seja “tudo bem ser diferente”?</strong></p>
<p><strong>Fernanda Takai</strong>: Uma coisa que ajuda muito a gente a enfrentar o cotidiano e suas pedras, é a autoestima. Mas isso é algo que se constrói com o tempo, claro. Esse caminho até ganharmos uma certa segurança é que tem que ser o mais natural possível. Eu acho que o bom humor é algo imprescindível pra gente tentar ser feliz, aparar as arestas do mundo.</p>
<p><strong><a rel="lightbox" href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2009/10/takai_livG.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-3067" title="Nunca subestime uma mulherzinha, de Fernanda Takai" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2009/10/takai_livp.jpg" alt="Nunca subestime uma mulherzinha, de Fernanda Takai" width="150" height="229" /></a>RM</strong>: <strong>Na crônica</strong><em> <strong>Nunca subestime uma mulherzinha </strong></em><strong>você aponta para características femininas que fazem com que sejamos chamadas ou que nos fazem vestir a carapuça de “mulherzinhas”. Estamos constantemtente “comprando” tal rótulo. Por que é tão fácil para a mulher se depreciar, sentir que deveria/poderia estar fazendo mais e melhor e achar que há sempre alguém observando-a e julgando suas escolhas, atitudes e ações?</strong></p>
<p><strong>FT</strong>:  Porque as mulheres estão mesmo sempre sendo julgadas pelo dia a dia. Principalmente aquelas que cuidam da rotina do lar. Parece que qualquer pessoa (homem ou mulher) tem o direito de dar nota pela roupa passada, a comida na mesa, a limpeza da casa. E as meninas tem sempre que estar &#8220;arrumadinhas&#8221;, se saindo bem na escola, serem prendadas. Parece que um homem largadão está só sendo homem&#8230; e ninguém de casa fica avaliando o desempenho dele na firma quando ele cresce. Não temos esse acesso. A gente, mulherzinha, é mais visível e por causa disso fica com essa imagem anestesiada. Será?</p>
<p><strong>RM</strong>: <strong>Há assuntos que você prefira não abordar por receio do que a sua filha Nina possa pensar ao ler um texto seu no futuro? Os filhos podem ter esse poder sob uma mãe escritora? O de ser o maior dos críticos sem nem mesmo poder ler ainda?</strong></p>
<p><strong>FT: </strong>Não tenho essa preocupação. Aliás, só pensei sobre isso agora que você me perguntou. Quero que ela saiba que eu sou assim mesmo. Nesses textos eu estou com filtros mínimos. É tudo muito pessoal, e ao mesmo tempo, reservado, à minha maneira.</p>
<p><strong>RM</strong>: <strong>A crônica </strong><em><strong>Tudo que não me permiti sonhar </strong></em><strong>me trouxe às lágrimas. O que é mais difícil e o que é mais delicioso em ser mãe?</strong></p>
<p><strong>FT: </strong>Não tem essa separação, é tudo meio simultâneo. A mesma delícia tem lá suas dificuldades. Mãe é um ser engraçado que fica ensinando as coisas pro filho, mas quer mesmo é continuar a cuidar dele pra sempre. Eu gosto disso tudo e quero repetir a dose. Aliás, se não tivesse tido tanto trabalho como nos últimos dois anos, já teria um segundo bebê.</p>
<p><strong>RM</strong>: <strong>O poder (e necessidade) de prescrutação de si mesmo é ao mesmo tempo uma “benção” e uma “sina”. Você concorda com isso?</strong></p>
<p><strong>FT: </strong>Olha, eu nunca fui de ficar contando as minhas coisas pra ninguém. Sempre fui um ser mais ouvinte do que contadora de casos, problemas ou confissões. Mas a visibilidade artística me levou a escrever muito, dar inúmeras entrevistas e pensar ordenadamente sobre como me sinto em determinadas situações. Se pudesse, talvez eu fosse do tipo que não fica remexendo muito na minha cabeça com outras pessoas observando&#8230;</p>
<p><strong>RM</strong>: <strong>Na crônica</strong><em> <strong>Tosse pra cachorro</strong> </em><strong>você fala do “como se”, quando diz que sente “como se” o cachorro do vizinho tivesse pena de você doente. Quanta importância você dá para as interpretações que faz dos possíveis “sinais”, coincidências e “como ses” que perpassam várias crônicas do</strong><em> <strong>Nunca subestime uma mulherzinha</strong></em><strong>?</strong></p>
<p><strong>FT: </strong>Eu sou uma pessoa extremamente cética. Mas acredito que saiba olhar pro mundo que me cerca de um jeito diferente. Gosto de imaginar estórias. E a minha filha fica o tempo todo me pedindo pra desenhar e contar estórias novas. Tudo vira motivo pra ser protagonista de uma micro-narrativa. Aí eu me divirto com essas possibilidades sem pé nem cabeça que parecem coincidências. Ou quem sabe sejam mesmo&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><p><a href="http://www.revistamoviola.com/2009/10/13/quem-quer-ser-um-mulherao/"><em>Click here to view the embedded video.</em></a></p></p>
<p><strong>RM</strong>: <strong>Vejo uma conexão entre</strong><em> <strong>Luz Negra</strong> </em><strong>e</strong><em> <strong>Nunca subestime uma mulherzinha</strong></em><strong>. Ambos possuem um caráter intimista e expressam muito da sua personalidade, gosto e versatilidade. A conexão é essa mesma? Quais outros links existem entre a Fernanda Takai escritora e a musicista?</strong></p>
<p><strong>FT: </strong>Sim, há essa conexão até a partir do fato que é a mesma pessoa que fez o projeto gráfico do primeiro disco, do DVD, do livro, do cenário. Andrea é uma colega de faculdade com quem eu queria trabalhar faz tempo&#8230; Na minha carreira solo tomo bem as rédeas das escolhas, de quem faz parte da minha equipe, como são as coisas que saem com o meu nome. Na banda, sempre fica meio diluído pelos cinco integrantes, é normal.</p>
<p>O curioso é que nas canções eu geralmente faço a melodia e harmonia, não escrevo muito a letra, isso é uma coisa que o <strong>John </strong>faz melhor. Gosto de dar o tema, escrever um rascunho, mas entrego pra ele lapidar. Não sei como consigo há quatro anos e meio entregar a coluna toda semana.</p>
<p><strong>RM</strong>:<em> <strong>Luz Negra</strong> </em><strong>pode parecer à primeira vista um álbum desconexo por reunir, por exemplo, músicas de Chico Buarque, Michael Jackson e Duran Duran. No entanto, há uma coesão clara no disco e essa coesão me parece ser justamente a sua própria versatilidade e o toque intímo dos arranjos das músicas. Concorda? Como foi o processo de seleção das músicas? Que significados em especial elas possuem para você?</strong></p>
<p><strong>FT: </strong>Não foi difícil escolher as outras músicas fora do repertório da <strong>Nara </strong>porque são aquelas que eu gosto demais primeiro como simples ouvinte. Queria colocar no show além da MPB, o rock dos anos 80, baladas americanas, jovem guarda, carimbó&#8230; isso tudo que me faz gostar de música variada de todos os tempos e estilos. É um show de memórias musicais afetivas. Por isso soa tão natural.</p>
<p><strong>RM</strong>: <strong>Você poderia falar sobre o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Teremim" target="_blank">theremin</a>? Ele apareceu na música e videoclipe</strong><em> <strong>Eu</strong> </em><strong>do Pato Fu e reaparece no arranjo da música</strong><em> <strong>Luz Negra</strong>. </em><strong>Penso aqui na metáfora do theremin como instrumento que não “tocamos”&#8230;. O que te atrai no theremin?</strong></p>
<p><strong>FT: </strong>Ah, ele tem um timbre meio estranho e ao mesmo tempo curioso. Lembra um pouco ficção científica, fantasmas&#8230; Ele é o vovô dos instrumentos musicais eletrônicos, já foi muito usado nos anos 60, mas ficou meio de lado. É legal recuperar umas referências assim. Parece a moda que vai e vem. Alguns tecidos voltam, outras modelagens são tendência, cartela de cores que se usa no momento. A música tem disso: dependendo da época todas as músicas tem o mesmo timbre de guitarra, bumbo, teclados.</p>
<p><strong>RM</strong>:<em> </em><strong>Algo mais que gostaria de falar, comentar&#8230;</strong></p>
<p><strong>FT: </strong>Visitem sempre meu site: <a href="http://www.fernandatakai.com.br" target="_blank">www.fernandatakai.com.br</a> !<br />
Obrigada.<br />
:  D</p>
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		<title>Foi Apenas Um Sonho</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Mar 2009 01:20:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sofia Helena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Longas]]></category>
		<category><![CDATA[Kate Winslet]]></category>
		<category><![CDATA[Leonardo DiCaprio]]></category>
		<category><![CDATA[Revolutionary Road]]></category>
		<category><![CDATA[Richard Yates]]></category>
		<category><![CDATA[Sam Mendes]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;How do you break free without breaking apart?&#8221; Se você não foi ao cinema assistir Foi apenas um sonho porque o filme marca o reencontro nas telas dos atores Kate Winslet e Leonardo DiCaprio após Titanic (1997), poderia ter atentado para o fato de que o filme foi dirigido por Sam Mendes (o mesmo de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="size-full wp-image-1936 alignnone" title="Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2009/03/rr01.jpg" alt="Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes" width="490" height="276" /></p>
<p><strong>&#8220;How do you break free without breaking apart?&#8221;</strong></p>
<p>Se você não foi ao cinema assistir <strong><em>Foi apenas um sonho</em></strong> porque o filme marca o reencontro nas telas dos atores <strong>Kate Winslet</strong> e <strong>Leonardo DiCaprio</strong> após <strong><em>Titanic </em></strong>(1997), poderia ter atentado para o fato de que o filme foi dirigido por <strong>Sam Mendes</strong> (o mesmo de <strong><em>Soldado Anônimo</em></strong> e <strong><em>Beleza Americana</em></strong>) e não por <strong>James Cameron</strong>. Talvez tenha sido a péssima tradução do título do filme para o português (o original é <strong><em>Revolutionary Road</em></strong>) que o tenha desestimulado. Mas também aqui você cometeu o descuido de não conferir o título original e saber que o filme é baseado na obra homônima de <strong>Richard Yates, </strong>publicada em 1961.</p>
<p>Não se culpe por esses equívocos inocentes, meu trabalho aqui será fazer o meu melhor para que você saia para o cinema mais próximo em que o filme estiver passando antes de terminar de ler este texto. São muitas as razões que me motivam a influenciá-lo a pagar um caro ingresso de cinema: as atuações impecáveis de Kate Winslet e <strong>Michael Shannon</strong>; um roteiro muito bem escrito por <strong>Justin Haythe</strong>; um filme bem dirigido e editado (apesar do uso constante de flashbacks); uma bela trilha sonora e, acima de tudo, o fato do filme tratar da eterna e essencial questão humana do que significa “viver bem”.</p>
<p><center><object width="353" height="132" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.goear.com/files/external.swf?file=c681c9d" /><param name="wmode" value="transparent" /><param name="quality" value="high" /><embed width="353" height="132" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.goear.com/files/external.swf?file=c681c9d" wmode="transparent" quality="high" /></object><br />
<small>Música tema do filme (<em><strong>The Gipsy</strong></em>, por Ink Spots),<br />
que retrata a personagem April Wheeler</small></center>Tema caro aos grandes filósofos, ocupou <strong>Platão</strong>, <strong>Aristóteles</strong>, <strong>Kant</strong>, <strong>Nietzsche </strong>e tantos outros. Pelo menos um elemento é comum à maioria deles: “Seja você mesmo!”. Esta frase de Nietzsche resume em uma sentença e com palavras simples as teorias de &#8220;vocação&#8221; de Platão, de <em>Eudaimonia</em> de Aristóteles, de <em>dever para consigo mesmo</em> de Kant e, de certo modo, toda filosofia do próprio Nietzsche. O verdadeiramente importante aqui é que não houve filósofo na história do pensamento ocidental e oriental que não &#8220;implorou&#8221; aos seres humanos que se conscientizassem da escassez de tempo na urgente tarefa (e não só tarefa, mas até mesmo exigência para poder se considerar um ser humano) de constantemente contemplar a si próprio (suas condições, personalidade, caráter, capacidades, habilidades, talentos, padrões de ação e pensamento) e ser sinceramente quem se é ou <em>tornar-se quem se é</em>, para parafrasear Nietzsche novamente. Não vou entrar aqui na questão de se há um “eu” que deve ser descoberto ou construído (há teorias que defendem maravilhosamente as duas opções), cabe a você refletir sobre o que faz mais sentido<em> para você </em>e continuar a partir daí.</p>
<p>April Wheeler (Kate Winslet) reflete sobre isso no filme e percebe que ela e o marido caíram na arapuca que casar e ter filhos pode se tornar. <em>Somos como todos os outros, </em>ela diz<em>, estamos igualmente iludidos. Nossa existência nesse lugar se baseia na premissa de que somos especiais, mas nunca fomos especiais ou destinados a nada. Não somos superiores aos que nos cercam. Caímos na ridícula ilusão de que devemos desistir da vida no momento em que temos filhos e viemos nos punindo mutuamente por isso.</em></p>
<p><a href="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2009/03/rr02.jpg" rel="lightbox"><img class="alignleft size-full wp-image-1966" title="Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2009/03/rr02_pq1.jpg" alt="Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes" width="200" height="129" /></a>Ela sugere a seu marido, Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio), uma mudança drástica: tirar o dinheiro do banco, vender a casa e o carro e ir morar em Paris. Frank largaria o emprego que detesta e April trabalharia para sustentá-los e dar a chance ao marido de ter o tempo e a liberdade de descobrir seus talentos e desejos para então exercê-los e viver a vida que quer. Frank primeiramente acha a ideia irrealista, mas depois é convencido pelo argumento da esposa de que irrealista é um homem inteligente trabalhar anos a fio em um emprego que não suporta, morando numa cidade que não aguenta, com uma mulher que também odeia essas mesmas coisas.</p>
<p>O casal compartilha seus planos com amigos e colegas que dão gargalhadas e acham a ideia insana. E assim, é justamente o personagem “não são” do filme que irá compreender e admirar a mudança dos Wheeler. John Givings (<strong>Michael Shannon</strong>), filho dos vizinhos do casal, é PhD em Matemática e um intelectual viajado que foi internado numa instituição psiquiátrica. John é a voz da razão entre aqueles que moram na <em>Revolutionary Road</em> e clama pelo fim da hipocrisia que o cerca, sem medo ou demora sabe fazer uso dessa voz em alto e bom som e reivindicar que as máscaras de cada um caiam.</p>
<p>E as máscaras caem. “A máscara é tão bonita que tenho medo do rosto”, disse Alfred de Musset. Cai a máscara de Frank, que dizia querer “sentir verdadeiramente as coisas”, e o tempo e a liberdade oferecidos pela sua companheira são substituídos pelo medo. Medo de fracassar frente ao projeto de viver “bem”, medo de viver como se deseja. Medo de tornar-se quem se é. Compreensível seu medo. Humano. Frank veste a máscara novamente e escolhe “the road most travelled by” (para brincar com as palavras de Robert Frost).</p>
<p>April, um nome americano comum que significa “Abril” – o mês da primavera – quer renascer e não aceitará fazê-lo através de mais um filho ou uma outra casa, maior. Ela diz ter visto um outro futuro e agora não consegue mais parar de vê-lo. Ela quer a verdade, quer viver de verdade, quer que seu marido e seus filhos se desvencilhem da ilusão em que vivem. Ela relembra a Frank que um dia eles já viveram de verdade, e afirma que mesmo após tantos anos de mentira, ninguém esquece a verdade, apenas aprende a mentir melhor.</p>
<p><strong>Como libertar-se sem se despedaçar?</strong> (<em>How do you break free without breaking apart?</em>) é a pergunta que serve de subtítulo ao filme. Desconstruir as ilusões que nos acompanharam por tantos anos e livrar-nos de hábitos (que muitas vezes nem mesmo nos dão real prazer), mas que são seguidos por todos ao nosso redor, não é nada fácil. Frank desiste e April, ao seu modo, desiste com ele&#8230; e dele. Casamentos terminam por muito pouco, mas este talvez seja o melhor motivo para separar-se (<em>break apart</em>): o modo de pensar e a visão de mundo do casal tornaram-se incompatíveis.</p>
<p><img class="size-full wp-image-1943 alignleft" title="Capa do livro Revolutionary Road" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2009/03/rr3_book.jpg" alt="Capa do livro Revolutionary Road" width="200" height="316" />Ao ser questionado sobre o título do seu livro (no qual o filme é baseado), Richard Yates disse: “&#8230;durante os anos cinquenta havia um desejo geral por conformidade por todo este país – de maneira nenhuma apenas nos subúrbios – um tipo de apego cego e desesperado à segurança e à proteção a qualquer custo. Isso foi politicamente exemplificado pela administração <strong>Einsenhower</strong> e pela caça às bruxas de <strong>Joe McCarthy</strong>. De qualquer modo, um grande número de americanos estava profundamente perturbado com tudo isso – eles sentiam que era uma traição absoluta do nosso melhor e mais corajoso espírito revolucionário – e foi esse espírito que tentei incorporar na personagem de April Wheeler. Eu queria que o título sugerisse que a <em>via revolucionária</em> de 1776 chegou muito perto de algo como a morte no final dos anos cinquenta.”</p>
<p>“..chegou muito perto&#8230;” – o espírito revolucionário chega muito perto da morte diariamente, por toda parte e para cada um de nós. Isso não diminui em nada, no entanto, a citada exigência urgente de libertar-se e de tentar não se despedaçar no processo, ainda que tal tentativa possa estar fadada ao fracasso.</p>
<p style="text-align: center;"><p><a href="http://www.revistamoviola.com/2009/03/25/foi-apenas-um-sonho/"><em>Click here to view the embedded video.</em></a></p></p>
<p><small><em>*<a href="http://www.revistamoviola.com/author/sofiahelena/">Sofia Helena</a> é estudante de Filosofia e iniciante na redação de ensaios cinematográficos.</em></small></p>
<p><img class="alignnone" src="http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2008/05/tracejado.jpg" alt="" width="500" height="5" /></p>
<p><strong>Veja também</strong></p>
<p class="MsoNormal"><a href="http://www.richardyates.org/" target="_blank"><span>Site oficial</span></a><span><a href="http://www.richardyates.org/" target="_blank"> de Richard Yates</a></span></p>
<p><span><a href="http://www.objetiva.com.br/objetiva/cs/?q=node/1726" target="_blank">Trechos do livro em Português</a></span><em></em></p>
<p class="MsoNormal">
<p><span><a href="http://www.vantageguilds.com/downloads/Final_RR_With_Cover.pdf" target="_blank">Roteiro do filme</a> </span><em><span>(em inglês)</span></em></p>
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