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Excelentíssimos para refletir


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Publicado em 12 de Outubro de 2019

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Quatro momentos se sobressaem no documentário Excelentíssimos (2018), de Douglas Duarte. Eles ajudam a ampliar a reflexão sobre uma série de questões que seguem latentes em nosso cotidiano. Seu filme faz uma imersão nos bastidores do Congresso Nacional em 2016, antes da votação do impedimento da presidenta Dilma Rousseff (2011-2016). Os espaços no Congresso Nacional aos quais o diretor teve acesso apresentam um panorama que vai além do que foi mostrado no Senado Federal por Maria Augusta Ramos, em O Processo (2018). Entretanto, ambos se complementam e compõe uma trilogia sobre o golpe, junto com Democracia em vertigem (2019), de Petra Costa, apesar da narrativa mais subjetiva deste. Esse tipo de ruptura no regime democrático e na sexta república (estabelecida a partir de 1988) foi denominado pelo historiador Perry Anderson de golpe de Estado judicial e, para ele, acabou beneficiando à extrema direita. Mas outras denominações sugiram: golpe parlamentar-midiático ou parlamentar-midiático-judicial. O debate sobre os termos que caracterizam os golpes de Estado no Brasil é contínuo na historiografia sobre o tema.

Vamos, então, a primeira tomada (escolhida junto com as demais pela importância do tema e não pela ordem que aparece no filme). Ela se detém sobre trechos de uma conversa telefônica grampeada e vazada de forma controversa: “O que eles querem é a previdência!”. O efeito do vazamento foi como o das sementes da Conium maculatum (conhecida como cicuta) no corpo da frágil e jovem democracia brasileira. Essa estratégia foi apenas uma entre o arsenal de ações decisivas para o resultado das eleições de 2018.

A segunda registra uma reunião na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada contra Aristides Veras dos Santos, presidente da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais). Essa CPI, apesar das particularidades políticas do presente, remete à outra aberta contra as Ligas Camponesas, quando esta vivia uma crise interna no pré-1964 e os conflitos com os fazendeiros e usineiros aumentaram.

Aristides Santos, durante o “interrogatório”, recebeu ameaças diretas e foi chamado de “verme”, “carrapato”. Parlamentares da bancada ruralista e da bala o insultaram seguidamente, sem qualquer intervenção do presidente da mesa. Apenas uma parlamentar do Distrito Federal, entre os deputados presentes, interveio contra as performances violentas, as frases cruéis e o desrespeito generalizado. O mosaico verbal presente naquela CPI ganhou mais ressonância durante o processo eleitoral. Ele revelou uma linguagem esvaziada, como a descrita em 1984 por George Orwell. Em seu lugar há uma novafala tropical miserável. Ela é estridente e foi naturalizada. Seu objetivo, nítido: mudar o sentido das palavras e empobrecer o vocabulário, desumanizar o “inimigo”, deslegitimar ideias que não estejam em sintonia com uma ideologia única etc.

Na linguagem corrente predomina um português empobrecido e aparecem conceitos, termos e sentimentos violentados para estabelecer uma mentalidade, um hábito de pensar. Sobre este processo, o linguista Victor Klemperer recorda que, durante a onda nazista na Alemanha, viu em aulas e debates, jovens estudantes se apegarem ao modo nazista de pensar para suprir erros e lacunas de sua formação, que deixava muito a desejar.

 

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A terceira tomada nos coloca dentro de uma sala de reunião do Congresso Nacional, na qual ocorre uma das orações da manhã com a presença de vários deputados evangélicos. Sim, orações passaram a fazer parte da rotina em espaços do aparato do “Estado laico”. O deputado evangélico, que conduz o encontro, para enfatizar a necessidade de união do grupo, ou de grupos políticos, apresenta uma analogia com cordas e a forma de unificação ideal. O que remete diretamente à união fascista cuja simbologia é representada, também, por meio de raízes que formam uma árvore, única e coesa. E estas raízes, geralmente, são invisíveis. Analogia similar é feita pelo deputado com os feixes de cordas. Tudo começou com uma canção religiosa, depois veio a “ilustração” da mensagem do dia – como no roteiro dos cultos nas igrejas. O deputado, com as cordas guardadas dentro do seu paletó, pede para outro parlamentar quebrar um “barbantinho”. A cordinha de algodão é, então, rompida com as mãos:

— Oh, tá falso (risos), diz o primeiro deputado. A seguir passa para um terceiro parlamentar uma corda pequena que, apesar de ter uma circunferência pequena é forte.

— Vê se consegue quebrar. Por que que não quebra? Essa cordinha aqui é feita com várias fibras. Só que elas são individuais… só que aqui, Pastor Paulo, ela está unida. Está unificada! Só que uma corda não é feita só com isso, tem mais duas. Tem mais três… Uma corda é feita assim. Mas só que assim (mostrando os três pedaços de cordas separados) ela fica insegura”.

Ele puxa do bolso uma corda mais grossa na qual os feixes estão entrançados:

— Uma corda boa é feita assim, ó. Mas aí tem um probleminha, Pastor. E se a corda for maior, e se for assim – risos (pega outra corda maior). Mas pode ser que a ovelha seja mais forte, então tem que ter uma corda assim (empunha uma corda mais grossa e forte do que as anteriores).

Todos gargalham e ele explica:

— Trouxe essa ilustração para mostrar para os irmãos que não adianta você dar uma de forte. Não adianta você falar que você é forte. ‘Ah, mais eu tive mais de 300 mil votos lá no estado’. Meu irmão, você sabia que o mais forte é o mais visado pelo diabo? Ele não quer que nenhum de nós brilhe. Ele não quer que nenhum de nós transmite (sic) o nosso brilho, a nossa mensagem de esperança para os outros. Então, irmãos, a melhor forma de estarmos protegidos é estarmos unidos.

Além da cena em si ser surpreendente, nos atordoa o fato de uma deputada evangélica parecer não se dar conta do que é invisível ou explícito na narrativa do deputado e na analogia que ele faz. A próxima sequência traz mais um ritual religioso-político. A câmera acompanha um grupo no qual um delegado evangélico, deputado por Goiás, faz um discurso-oração moralista no padrão de Gilead. Em nome de Jesus, ele defende que o país não seja o da pornografia, da promiscuidade e do aborto.

Finalmente, a quarta tomada mostra uma reunião, também no Congresso Nacional, na qual já estava definido e em campanha, antes da votação do impeachment, o candidato à Presidência da República. Seu slogan de campanha também começa a ser espalhado e a inspiração do mesmo é o lema nazista de viés nacionalista: “Alemanha acima de tudo” (Deutschland uber alles). Esta expressão que foi readaptada, no final de 1968, para “Brasil acima de tudo” pelo grupo de extrema-direita fascista Centelha Nativista – criado na Bahia por oficiais paraquedistas do Exército e professores do Colégio Militar de Salvador. A partir daí, com a transferência de alguns deles para quartéis em outros estados brasileiros, suas ideias se capilarizaram.

O candidato à Presidência, naquele encontro em 2016, encerrou sua fala com o slogan da Centelha Nativista. Mas à expressão nazista foi adicionada uma “nova” frase: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. O apelo aos distintos seguimentos religiosos é explicito.

Nos quatro momentos observa-se que um roteiro foi seguido, rituais com a gramática religiosa forjaram uma identidade, cuja bandeira traz a pátria e deus, e muitos feixes foram entrelaçados. Resta saber até quando a corda se manterá unificada.

 

Referências

 

George Orwell. 1984, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Maud Chirio. A política nos quartéis: revoltas e protestos na ditadura militar brasileira, Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

Margaret Atwood. O conto da aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

Perry Anderson. No Brasil, mistérios de um golpe de Estado judicial, Le Monde Brasil, 2 set. 2019.

 

O documentário

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