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Repulsa ao Sexo


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Publicado em 26 de Setembro de 2019

Repulsa ao Sexo

Repulsa ao Sexo (1965), primeiro filme da trilogia do apartamento de Roman Polanski, traz à luz um assunto que se estende até hoje e, a bem da verdade, somente nos últimos anos tem sido explorado e debatido com afinco pelo movimento feminista: a cultura do estupro.

No filme, Carol Ledoux (Catherine Deneuve) é manicure e vive com sua irmã em um apartamento alugado. Sua interação com homens é sempre marcada por uma certa esquiva, seja com um desconhecido, com o namorado da irmã Helen (Yvonne Furneaux) ou com Colin (John Fraser), seu pretendente indesejado. Esse estado reprimido e tímido de Carol começa a se tornar um estado psicótico e perturbador quando sua irmã sai de férias e a deixa sozinha.

O filme conta com dois ambientes principais, o salão de beleza onde Carol trabalha e o apartamento onde mora. É interessante perceber como o salão é um espaço importante para que os episódios de transtorno aconteçam. Esse ambiente feminino, onde se trata da estética, é uma das alegorias que levantam questões sobre como, antologicamente, as mulheres foram induzidas a se arrumar para os homens. Isso é evidenciado em todas as cenas no salão em menor ou maior grau. É perceptível como Carol é afetada por comentários ou situações que ali ocorrem e, com o decorrer da narrativa a jovem fica cada vez menos preocupada com sua aparência, fazendo com que haja um contraste entre as demais funcionárias, as clientes e ela. Além disso, o comportamento machista, advindos de todos os personagens masculinos, serve como gatilho para que Carol retraia-se cada vez mais, ficando em um estado de paranóia constante.

Polanski utiliza-se de muitos mecanismos para dar o tom de suspense à obra. A trilha sonora, com sons distorcidos e misturados, o barulho do relógio e do telefone forma um elemento chave para essa construção. Ademais, há dois elementos alegóricos que ficam em maior evidência ao longo do filme. O primeiro e mais enigmático são as rachaduras nas paredes do apartamento, que ficam maiores quando a irmã de Carol viaja. Essas rachaduras podem, de certo modo, ser interpretadas como um rompimento do estado reprimido para o estado paranóico. O segundo elemento é uma carcaça de coelho que seria feita para o jantar, porém é deixada de lado. Carol a tira da geladeira e a esquece em cima da mesa do telefone. Com o passar do tempo, ela apodrece. O apodrecer dessa figura do coelho, que normalmente representa fertilidade, abundância e juventude, é simbólico, e compara-se a personagem nesse sentido. Para além disso o coelho apodrecido juntamente com a bagunça que toma todo o apartamento, enquanto a irmã está fora, também são componentes que intensificam a sensação de repulsa no espectador.

Todos esses elementos quando justapostos às imposições e aos assédios sofridos por Carol dão força às alucinações e aos medos da jovem. O filme representa de forma brilhante o psicológico feminino dentro de uma sociedade historicamente machista e patriarcal. Sendo assim, a repulsa ao sexo (masculino), vivenciada por Carol é elevada à seu último nível nessa obra, que impacta verdadeiramente por ser algo vivido pela maioria das mulheres até os dias atuais.

*Caroline Lima é aluna do curso de Cinema da FACHA



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