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Bobo da Corte


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Publicado em 28 de Maio de 2019

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Domingo (26/5), fomos ver Bobo da Corte, de Luiz Rosemberg Filho na cinemateca do MAM-Rio. Rô terminou o filme vivo, tendo visto o filme pronto. Achei um filme muito especial, que consegue unir o Rô dos últimos longas ao Rô dos curtas mais caseiros, preservando, entretanto, a elegância estética dos longas mais recentes. Nesse sentido, é muito bonito ver como seu último filme antes de morrer é ainda uma renovação. Trata-se de um monólogo de um bobo da corte, filmado em um teatro, em uma caixa preta.

A marca shakespeariana está ali, evidentemente deglutida, como sempre em Luiz Rosemberg Filho. Shakespeare e samba, ambos borrados, com seus ruídos. Temos aquilo que é muito comum em seus curtas, monólogos fortemente ensaísticos que implicam, longa e intensamente, política, afeto, erotismo, economia, poder etc. O Rô altamente crítico de nosso estado das coisas, o Rô indiganado, que nesse filme nos chega com a delicadeza e a melancolia de um bobo da corte.

Se o monólogo se passa numa caixa preta, o trabalho de edição de Lupércio Bogea é primoroso, levando o monólogo e a caixa preta do teatro para além deles mesmos, para as belíssimas imagens do cosmos, das lavas do vulcão, das ondas dos mares, bem como de guerras, dando ao monólogo não apenas sua dimensão política, mas também cósmica. É um primor. O mesmo é feito com o desenho sonoro de Alexandre Dacosta, que além de excelente ator, ainda assina o desenho sonoro que, com seus ruídos, sons, músicas, faz o mesmo que a montagem, arrastando o monólogo para fora dele mesmo. Talvez muito da força cinematográfica do filme tenha a ver com a tensão entre monólogo em ambiente fechado e sua extrusão, seu ir para fora. O trabalho de Alexandre Dacosta como ator também é primoroso. Em um filme cuja imagem é quase sempre a de seu rosto, nuanças conseguem nos dar um rosto sempre sutil em suas expressões faciais-textuais. E, com esse rosto, a cadeira e a moldura, que se confundem. A câmera de Renaud Leenhardt, que generosa e lindamente se disse ontem uma invenção do Rô, é igualmente muito bonita, muito precisa nos movimentos, na luz conseguida, nas fotos que consegue em meio a movimentos que, em muitos momentos, lembram Velasquez e Francis Bacon. Não vou dar spoiler, mas ao fim do filme tem uma listagem de palavras cujo modo é altamente poético.
Enfim, o que mais impressiona é que o Rô, obsessivo por cinema e em suas dezenas de filmes, morreu ainda se renovando.
Escrevo esse breve e simples texto para ele, como uma muito singela e improvisada homenagem a este amigo que, apesar de sempre procurá-lo no canto em que ele ficava, não mais encontro na Cobal, não mais o vejo por lá, que acabou não indo ao Socavão, apesar de nossos convites repetidos. Ele que adoraria ter estado no MAM ontem, com muitos de seus amigos aplaudindo seu filme longamente. Como ele gostaria de ter lido as muitas matérias que finalmente saíram nos grandes jornais após sua morte, os jornais que quase nunca falavam de seus filmes. Continuo com minha teoria, todos deveríamos morrer antes de morrer, para receber, em vida, os amores e homenagens que muitas vezes só chegam após a morte. Viva, Rosemberg! Viva o Rô!!



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