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Adeus Rosemberg


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Publicado em 19 de Maio de 2019

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Conheci Luiz Rosemberg Filho – o Rô – no café do Cinema Arteplex, que agora tem nome de um banco privado. Depois daquele primeiro encontro nunca mais paramos de conversar e descobri, através do Rô, uma série de filmes brasileiros simples, mas geniais. O primeiro deles foi O Caso dos Irmãos Naves (1967), de Luis Sérgio Person, inspirado no livro do advogado de Sebastião e Joaquim Naves, que foram presos durante a ditadura de Getúlio Vargas e, sob tortura, confessaram um crime que nunca cometeram. O filme de Person nos ajuda a compreender e a refletir sobre a sistemática do funcionamento das instituições policiais e jurídicas no Brasil. Era este tipo de cinema que encantava Rosemberg. Foi a este tipo de cinema que ele dedicou sua vida e fez sua própria voz repercutir por meio de curtas e longas metragens.

Além de ter vivido sob o signo da criatividade e a partilha do gozo e da potência, Rosemberg trabalhava sistematicamente com a memória através da arte. Este foi o meio que utilizou para trazer sua luta individual para o coletivo. Como lembra a historiadora Maud Chirio, no Brasil, nunca foi feito um trabalho sistemático de memória e verdade sobre nossa história, principalmente, os longos períodos de ditadura durante o século XX. Rosemberg buscava fortalecer, através de suas narrativas, um discurso coletivo sobre o que tinha acontecido em nosso passado e que ameaçava se repetir no presente e futuro com outra roupagem e táticas, mas justificados por velhos argumentos e delírios obsoletos promovidos no âmbito público.

 

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Rosemberg entre amigos (2013)

 

O cinema de Rosemberg estava cheio de referências de campos do saber que ele valorizava: a literatura, a filosofia, a sociologia, a história, o teatro brechtiano e a construção de outra estética que não aquela analisada por Walter Benjamin, um dos seus filósofos de cabeceira. O que também aparecia nos textos que escreveu para a revista Moviola, a partir de 2011, sobre os filmes que o impressionavam. Rosemberg mantinha a disciplina para iluminar termos, assuntos e questões longe dos modismos acadêmicos. Ao pensar no uso de uma imagem já tinha se preocupado antes com as palavras à maneira de Pierre Clastres. Este colocou a seguinte questão sobre os modismos de termos novos: “Mas pode a difusão acelerada de uma palavra garantir a coerência e o vigor desejáveis da ideia que ela tem a missão de veicular?” A pergunta de Clastres estava relacionada a um termo que não existia antes e que ganhou corpo: etnocídio. Rosemberg compartilhava com o autor a preocupação com a violência e a historicidade da barbárie e, nos últimos anos, com o que ele próprio poderia nomear de culturocídio, memoricídio, politicídio, economicídio, artecídio e outros tantos etnocídios à brasileira.

Resgato Clastres porque, entre os vários bons livros que Rosemberg me presentou, um dos últimos foi justamente o Arqueologia da violência. Este livro, presente dele para Luciane e para mim, trazia uma dedicatória de despedida e o registro do seu amor por cada um daqueles que ele elegeu como Amigx. A forma de dar adeus a Rosemberg, neste 19 de maio de 2019, é mantendo viva a sua memória dando, outra vez, claridade às suas palavras naquela dedicatória:

 

“Elis e Lu,

Dizem ser um livro fundamental pra entendermos essa bosta de tempo, onde o fascismo volta a dominar republiquetas como o nosso país, e também as nações desenvolvidas, né? E não adianta só culparmos as chamadas oposições, pois somos sim TODOS culpados, né? Claro que uns mais, outros menos. Eu sempre soube que isso aconteceria, e exatamente com esse tipo baixo de violência e horror. Desde o dia que o Lula foi eleito, as oposições se botaram a trabalhar organizadamente. Coisa que o PT não quis ver. Mas fascista é fascista até na hora de morrer! Agora todos nós vamos pagar a conta que é cara. Muito cara! Pena voltarmos à estaca zero. Mas é daí que devemos partir uma vez mais. E vamos em frente, né? Eu velho, doente e exausto. Perdi a fé num Brasil melhor. Pena. Legal tê-las como amigas. Vocês são o futuro, e que ele seja melhor que esse presente feio e triste.”

Muitos beijos, Luiz Rosemberg Filho (2017).

 

 



2 Commentários sobre 'Adeus Rosemberg'

  1.  
    Lu

    19 Maio, 2019| 3:44 pm


     

    Um belo adeus ao Rō, um homem que apreciava e cultivava as amizades, um homem que amava as mulheres. Dele ficam boas lembranças das conversas e filmes, um libertário que nunca desistiu de lutar por uma país melhor e mais justo.

  2.  
    Liv A.

    19 Maio, 2019| 8:40 pm


     

    Rosemberg vibra. Flores e saudades.

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