Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Border

Border


Por

Publicado em 11 de Maio de 2019

border

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dedicado ao amigo Luiz Rosemberg Filho

 

Border (Gräns no original em sueco) é excepcional. Nos apresenta uma etnografia que toca pontos centrais e temas profundos do século XX e, sobretudo, dos dias atuais. Entretanto nada é posto gratuitamente. Nem dado com facilidade. É preciso pensar para expandir e conectar os fios de suas metáforas. O presente de Tina (Eva Melandrer) e Vore (Eero Milonoff), os dois personagens principais, está cheio de passado. Este traço do nosso presente é sempre lembrado pela historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz.

O filme de Ali Abbasi – que também dirigiu Shelley (2016) – embora seja classificado como de fantasia, é muito mais do que isso. Aborda vários temas incômodos como os espaços de tortura e a banalidade do mal, a pedofilia, as deformações cromossômicas, a construção sociocultural dos gêneros e o contrabando. O roteiro, inspirado num conto de John Ajvide Lindqvist, é cirúrgico ao mostrar como a banalidade do mal se propaga e pode se repetir e se repetir em diferentes épocas se nossa escolha for ficar apenas assistindo inertes os gestos – a começar pelos simbólicos – e as ações que destroem a dignidade da vida e violentam cada direito dos seres humanos, entre eles a liberdade de locomoção.

Pela fantasia, então sim, Abbasi desconstrói a noção binária de gênero. Pela realidade crua, mas ignorada na mesa de jantar das “famílias de bem”, nos traz uma questão levantada recentemente pela colunista da Folha de São Paulo, Tati Bernardi, sobre como desmascarar o número alarmante de casos de abuso infantil dentro de casa? Pela sutileza, revela como os espaços de tortura, normalmente, são institucionalizados e têm nomes que disfarçam a sua finalidade concreta. É assim que a barbárie é transformada em regra e passa a integrar os compêndios de leis e códigos. Pela mitologia dos trolls, criaturas antropomórficas do folclore escandinavo, disseca os processos de desumanização do outro e como nós, também, podemos nos deixar desumanizar levados por ondas de vingança, raiva, ressentimentos e justiçamentos baseados na irracionalidade bruta e na ignorância perversa sobre o universo do outro ou a própria bolha onde vivemos.

Se voltarmos o olhar para o Brasil, a partir do filme, traremos para o presente um passado que insiste em se repetir. Qual? O de centenas de milhares de histórias macabras de linchamentos públicos desde o período do Brasil colônia até os casos do índio Galdino, em Brasília, e, agora, o de um músico negro, no Rio de Janeiro, cuja vida foi ceifada por 88 tiros disparados por agentes de um necroestado – termo de Vladimir Saflate. Outros fatos tão devastadores quanto estes foram catalogados e analisados por Alberto Passos Guimarães e José de Souza Martins. Como mostram os dois autores, e nos alerta Border, não basta catalogar fatos e vendê-los como objetos plásticos do grotesco. É preciso refletir sobre o seu conjunto e as condições sócio-históricas que os geram e asseguram a sua permanência.

Nesse conjunto de questões, uma delas estrutura o filme e remete a uma passagem do livro Falta alguém em Nuremberg, quando alguns policiais escolheram dizer não ao serem instados por Filinto Müller – chefe da polícia política e um dos torturadores mais celerados da ditadura de Getúlio Vargas – a torturar presos políticos, seus pais, suas esposas e seus pequeninos filhos. A questão central em Border é sobre como se perde a Humanidade ou como se resiste e opta por não perdê-la, como fez esse pequeno grupo de policiais naquele Rio de Janeiro do passado.

 

Trailer

YouTube Preview Image

 

Referências

BERNARDI, Tati. Pessimismo. O verme agora é outro. Folha de São Paulo, 10 mai. 2019. Disponível em: https://tinyurl.com/y6gy5k8h.

CANOFRE, Fernanda. ‘É impressionante que um país de escravidão tão longa tenha a autoconcepção de que não é violento’. Entrevista de Lilia Schwarcz. Sul 21, 23 out. 2017. Disponível em: https://tinyurl.com/y2yndaf9.

GUIMARÃES, Alberto Passos. As classes perigosas: banditismo urbano e rural. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008.

MARTINS, José de Souza. Linchamentos: a justiça popular no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2015.

NASSER, David. Falta Alguém em Nuremberg. 4a ed. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1966.

SAFATLE, Vladimir. Bem-vindo ao porão. Folha de São Paulo, 10 mai. 2019. Disponível em: https://tinyurl.com/y45bkmhq.



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

22 de Março de 2019

Se7en (1995) é o segundo filme do diretor David Fincher, no elenco, Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey na pele de um serial killers dos mais interessantes do cinema. O filme conta a história de David Mills (Pitt) e sua mulher, Tracy (papel de Paltrow), o casal esta de mudança mudaça para […]

Por Revista Moviola

20 de Março de 2019

Nos arredores de Orlando, na Flórida, em hotéis e complexos de quinta categoria – com imitações plastificadas de atrações dos parques tão próximos da Disney – são oferecidas estadias para turistas que querem economizar, como também servem de moradia, não oficial, para famílias americanas de baixa renda. Projeto Flórida (2017) é povoado por estes personagens, […]

Por Revista Moviola

15 de Março de 2019

O filme Encantada (2007) conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que mora no reino de Andalasia. Certo dia, após cair em um poço, ela vai parar na cidade de Nova Iorque. Lá encontra Robert (Patrick Dempsey), um procurador e se hospeda no apartamento dele. Edward (James Marsden), o príncipe de Andalasia, também cai […]

Por Revista Moviola

26 de Fevereiro de 2019

Perigo Por Encomenda (2012), escrito e dirigido por David Koepp, traz ao público a cidade de Nova York como elemento determinante na narrativa e na estética do filme. O longa conta a história de um mensageiro que usa como transporte uma bicicleta (Wilee, interpretado por Joseph Gordon-Levitt) em Manhattan, o personagem precisa entregar, um envelope […]

Por Revista Moviola

21 de Fevereiro de 2019

Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014) é um filme baseado em um curta de terror, com roteiro e direção de Ana Lily Amirpour e vencedor do prêmio da Revelação Cartier no Festival de Deauville em 2014. Uma produção realizada por imigrantes iranianos nos Estados Unidos que traz um estilo mesclado entre o horror, a fantasia, […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.