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Rio, 40 Graus


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Publicado em 27 de Fevereiro de 2019

rio 40 graus

Ainda no primeiro ato de Rio, 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos, um morador de Copacabana vê um grupo de meninos carentes vendendo amendoins na praia e, com ar de superioridade, diz: “Como estão impossíveis, até parecem suburbanos”. É difícil ouvir esta frase e não lembrar de um caso que ocorreu em 2014 quando uma professora da PUC fotografou um homem despojado no aeroporto e sarcasticamente perguntou se aquilo havia virado uma rodoviária. Assim, é possível afirmar que Rio, 40 Graus, de certo modo, permanece atual até os dias de hoje – ao retratar preconceitos evidencia o “olhar’ do carioca de modo geral.

Roteirizado também por Nelson Pereira (ao lado de Arnaldo de Farias), o longa se concentra em diferentes núcleos que habitam na cidade do Rio de Janeiro, porém em condições sociais distintas. Na trama, acompanhamos uma partida de futebol com jogadores inseguros, meninos que vendem amendoins e pedem esmolas aos passantes, um coronel que chega de Minas Gerais com o desejo de tornar-se deputado e não apenas um, mas dois casamentos: um entre dois moradores de uma comunidade e outro entre o marinheiro e uma jovem que já está grávida.

Rio, 40 Graus gira entorno basicamente da cidade do Rio de Janeiro – uma metrópole dos anos 1950, situada ainda em um contexto no qual o Brasil não havia vivido o regime militar deflagrado em 1964. O filme retrata a malandragem, nela o carioca é identificado com leveza e ingenuidade, como se não houvesse um clima de hostilidade pairando naquela realidade. Não se faz referência, por exemplo, na tal “ameaça comunista” que muitos diziam que tomaria o Brasil nos anos seguintes (e que serviu de pretexto para a ditadura que se instalou a seguir), mesmo nos momentos mais dramáticos, a abordagem de Nelson Pereira dos Santos ainda soa tragicômica.

Misturando histórias elaboradas e imagens que podem ser descritas como semi-documentais, o cineasta inicia a projeção com várias tomadas aéreas que exaltam as paisagens emblemáticas da “Cidade Maravilhosa”, as praias de Copacabana, os palácios icônicos, o Cristo Redentor e o bonde do Pão de Açúcar. Apesar de exibir a beleza da cidade o filme traz a crueza da realidade de seus personagens, já que a maioria deles pertence às classes menos privilegiadas da pirâmide social. È bom observar que a cultura carioca está devidamente representada no longa o que se deve também à trilha sonora que inclui o samba, ritmo tão tipicamente associado ao Rio de Janeiro e a seus habitantes.

Rio, 40 Graus exibe ao espectador jovens privilegiados que enxergam com desprezo os moradores de comunidades carentes – e não deixa de ser sintomático quando em uma das cenas o personagem de um trabalhador, prestes a se casar, se declara feliz a um conhecido na rua, que em seu novo emprego “ tem salário mínimo e tudo” – . O racismo durante a narrativa surge de modo “velado” quando, logo no inicio do filme, um guarda expulsa um menino do parque unicamente por ele ser negro.
Rio, 40 Graus é um dos pontos de partida para o movimento do Cinema Novo, que se dedicou – entre outras coisas – a expor o Brasil como ele é de fato, o filme chegou a ser censurado na época do regime militar por ser considerado uma grande “mentira”. Hoje, no entanto, basta observar a realidade que cerca os habitantes do Rio de janeiro para perceber o quão dura é a realidade da maioria dos cariocas da “Cidade Maravilhosa”.

Nelson Pereira dos Santos fala disso de modo pertinente até mesmo quando usa a comicidade na narrativa e neste caso talvez, o dito popular se encaixe bem: “ só dói quando eu rio”.

Por Pedro Guedes e Rayssa Guenher

Aluno de Cinema da FACHA



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