Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Garota Sombria Caminha Pela Noite

Garota Sombria Caminha Pela Noite


Por

Publicado em 21 de Fevereiro de 2019

garota

Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014) é um filme baseado em um curta de terror, com roteiro e direção de Ana Lily Amirpour e vencedor do prêmio da Revelação Cartier no Festival de Deauville em 2014. Uma produção realizada por imigrantes iranianos nos Estados Unidos que traz um estilo mesclado entre o horror, a fantasia, o faroeste e o Noir. Com uma trilha sonora pautada no rock iraniano e no indie, a obra caminha em uma linha distante e mórbida, defendendo um discurso vampiresco e feminista nas telas em preto e branco.

A narrativa fala da vida de Arash (ArashMarandi), um jovem com um pai doente e que precisa lidar com as ameaças constantes do traficante do lugar para quem deve dinheiro. Em paralelo, uma vampira, vivida pela atriz Sheila Vand, vaga pelas ruas desertas da metrópole à noite amedrontando suas vítimas masculinas (uma espécie de inversão nas supostas relações de poder entre os gêneros). Neste contexto, os dois jovens se encontram na rua depois que Arash, sob o efeito de drogas e fantasiado de Drácula, retorna de uma festa. Ambos vão para a casa da moça e, lá, um interesse amoroso começa a florescer.

Uma trama simples com personagens blasées, onde a figura substancial acaba por ser a própria cidade, um espaço sem endereço. Muito similar ao texto de Win Wenders – A Paisagem Urbana escrito em 1994, é a cidade que fortifica a trama. A fictícia Bad City, na tradução literal “Cidade do Mal”,explicita um espaço urbano, sem uma localização geográfica precisa, rodeado de indústrias no horizonte, tráfico de drogas, prostituição e uma grande vala onde os corpos são depositados e ficam expostos aos olhos dos habitantes da cidade (nenhum deles parece se importar com esta imagem de horror).

As ruas vazias a falta de comércio, os prédios e casas simplistas, a cidade dá o tom impessoal ao abordar o tempo e o espaço em sua própria ausência no mundo. Trata-se de um local desolador e ameaçador, mas, ao mesmo tempo, anônimo, como a própria vampira sem nome.

Bad City acoberta os crimes da vampira, seduz para o vazio e influência as ações de seus habitantes, que lutam pela sobrevivência em uma terra sem lei. O que se torna evidente na cena em que uma prostituta exige seu pagamento e o rapaz a arrasta para fora do carro violentamente. Um faroeste comunal, sem grandes ligações pessoais; cada um por si, despertando deste modo o lado selvagem dos personagens, oprimindo-os neste paradoxo sutil de anonimato e comportamentos em ponto de ebulição, espelho e o reflexo de seus habitantes.

Garota Sombria Caminha pela Noite é uma obra que se distingue de um produto cinematográfico puramente comercial, em especial por trazer à tela uma imagem que se explica pelo que se deixa de fora. O filme aborda a fragilidade das relações sociais em uma singela fábula vampiresca, discutindo o atual com uma “pitada” do fantástico. Sua singularidade, como obra fílmica, habita na estranheza do comum.

Por Raquel Gollner Bonfante

Aluna de Cinema da FACHA



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

19 de Abril de 2018

  A mostra Corpos da Terra, cujas produções selecionadas refletem sobre a resistência indígena no Brasil atual, tem sua segunda edição entre os dias 20 e 23 de abril. O evento é realizado em parceria com o CineMosca e, além da exibição de filmes, terá mesas de discussão sobre a diversidade de mundos indígenas em […]

Por Revista Moviola

17 de Abril de 2018

  A dica de um precioso acervo para entender a situação indígena no Brasil atual é da jornalista Raquel Baster, mineira que vive atualmente no estado da Paraíba e colaborada com algumas atividades do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTN-NE), entre elas, a oficina de roteiro para o documentário Mulheres rurais em movimento (2016), filme […]

Por Revista Moviola

14 de Abril de 2018

O documentário O desmonte do Monte, dirigido por Sinal Sganzerla, aborda a história do Morro do Castelo, seu desmonte e arrastamento. O Morro do Castelo, conhecido como “Colina Sagrada”, foi escolhido pelos colonizadores portugueses para ser o local das primeiras moradias e fundação da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de sua importância histórica e […]

Por Revista Moviola

12 de Abril de 2018

  O documentário Auto de Resistência, dirigido por Natasha Neri e Lula Carvalho,  aborda os homicídios praticados pela polícia contra civis no estado do Rio de Janeiro. As mortes e as violações dos direitos humanos acontecem em casos conhecidos como “autos de resistência” – classificação usada para evitar que os policiais sejam responsabilizados pelos homicídios, […]

Por Revista Moviola

11 de Abril de 2018

O filme Livre Pensar – cinebiografia Maria da Conceição Tavares homenageia uma das economistas mais importantes do Brasil e, particularmente, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A sessão de exibição do documentário ocorrerá dia 24 de abril, às 18h, no Salão Pedro Calmon da UFRJ (Av. Pasteur, 250, 2º andar / Urca). A […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.