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Babás


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Publicado em 18 de Fevereiro de 2019

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O filme documentário Babás (2010), de Consuelo Lins, nasce do incômodo da diretora ao constatar, na relação com sua ex-babá, o tanto que ela se dedicara – ao longo do tempo – aos cuidados com sua família, abrindo mão de seus próprios familiares. O filme problematiza as relações hegemônicas do país entre a classe dominante, branca e abastada, e a classe de mulheres negras, nordestinas e pobres, que ao longo da história do Brasil deixaram de cuidar de seus próprios filhos para trabalhar em casas de família, se dedicando aos filhos de suas patroas.

Babás apodera-se de fotos e imagens de arquivo, como dispositivos para a reflexão sobre o tema. Uma foto antiga, datada de 1860, abre o documentário. Nela, a imagem de uma mulher negra, provavelmente escrava, ao lado de uma criança branca. Em voz off é dito que a mulher, possivelmente,  só esta na foto por ter sido ama de leite do menino, entre os dois percebe-se afeto.  Ainda em off  é citado o comentário de um historiador que diz: “quase todo o Brasil cabe nesta foto”.

O filme é narrado em primeira pessoa, na voz da produtora executiva do filme, Flávia Castro, como se fosse à memória de Lins, que em muitos momentos se coloca como participante efetiva do filme. O incômodo do tema leva a diretora a dizer que não teve coragem de entrevistar a atual babá, que cuida de seu filho, para não correr o risco de contaminar o depoimento, devido à relação patroa/empregada que ainda mantém na família.

Lins usa, em grande parte do filme, imagens de arquivo, algumas do próprio acervo pessoal e depoimento de mulheres, em sua maioria, negras e nordestinas que falam de suas relações com seus patrões. Apesar de Babás levar à tela as relações de afeto e carinho que estas mulheres mantêm com as crianças, a diretora não deixa revelar a violência emocional que estas profissionais sofrem por abandonarem seus filhos para se dedicarem aos filhos de suas patroas, e em muitas das vezes, transferindo o amor que dariam, se pudessem, aos seus próprios.

É interessante observar o modo como a relação patroa/empregada se perpetua ao longo dos séculos, desde a escravidão, em que as Sinhás mantinham por perto as negras, amas de leite, para cuidarem de seus filhos, a época atual.

O filme competiu em diversos festivais, ganhou o prêmio de Melhor Curta do ReCine (2010), foi também vencedor no festival internacional de curtas de São Paulo (2010) e eleito Melhor Filme na opinião da crítica em Gramado (2010). Consuelo Lins faz deste documentário uma espécie de retratação social e etimológica, assumindo a mea culpa, ao deixar claro que tanto sua família, quanto ela própria usaram os serviços destas profissionais e que, muito embora reconheçam sua importância,  não reduz o conflito entre elas – as patroas – e as mães substitutas.

O filme é o retrato histórico da realidade das babás no Brasil através dos tempos.

Por Roger Davill

Aluno de Cinema da FACHA

 



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