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Joaquim Pedro de Andrade


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Publicado em 13 de Fevereiro de 2019

 

joaquim

 

O cinema brasileiro viveu um sonho, um delírio, uma esperança que tentamos respirar ainda hoje, saudosismo contemporâneo de uma memória que perde seus protagonistas para o tempo, mas que nunca deixa de inflar os pulmões dos cinéfilos e realizadores. “Cinema Novo” (1967) do Joaquim Pedro de Andrade busca uma forma intimista e sincera de traduzir o espírito do movimento mais importante da história do nosso cinema.

Enquanto se discute ainda em torno do que foi sua ideologia ou sua representação, vimos Eryk Rocha, filho de Glauber, ressuscitar a memória política do período (década de 60 e 70) para a própria forma fílmica que se impusera a fazer. A própria linguagem contra ela mesma, remonta seu reflexo no quadro dialético histórico de um país violado pela sua própria bandeira, pela sua própria força. Ele se empenha a completar o retrato que Joaquim fez em 1967. Por ser do próprio movimento, logo, amigo de todos os que o compunham, o autor tinha a liberdade de filmar os encontros e procurar a realidade por dentro da realidade, não só sua representação. Digo isso, pois o realismo, como proposta estética, já dava lugar ao entendimento de Cinema Verdade.

No filme é evidente um olhar apaixonado pela resistência ideológica e intelectual deste círculo de amigos. Toda a aura mítica que o tempo, e as pessoas, criaram sobre essas figuras, ganha nova forma pela lente do diretor. O engajamento impulsivo que se têm no discurso antropológico é despido, vê-se apenas a poesia dos sorrisos, das conversas, dos encontros. Joaquim era um intelectual, mais literário que a maioria, não menos combativo. Seu raciocínio,vide filmografia e textos,era politizado e carregado de acidez e ironia. Por trás da voz mansa existia uma mente capaz de realizar “Macunaíma”, mas também “O Padre e a Moça”, a experiência com o documentário já existia, a paixão pela literatura rendeu “O Poeta do Castelo”, sua declaração de amor à Manuel Bandeira e “O Mestre de Apipucos” sua admiração por Gilberto Freyre. Além de seu estudo antropológico acerca do fenômeno “Garrincha”.

A realização de filmes sobre ídolos, pessoas sociais, permitiu que “Cinema Novo” fosse realizado com maestria. Tá certo que a produção era para a TV Alemã, assim, apresentações e contextualizações, são necessárias, porém, Joaquim nunca deixa sua autoria ser engolida por um possível distanciamento que poderia acontecer com o assunto. “Bethânia Bem de Perto” havia sido realizado um ano antes, por Eduardo Escorel e Júlio Bressane. Não há dúvidas que o projeto influenciou Joaquim, suas formas são distintas, assim como suas propostas, mas a alma do projeto nasce do mesmo espírito revolucionário que inundava esses artistas. Espírito esse que se modificou, mas permanece latente em Bressane, ainda hoje.

A forma como o filme dinamiza as diferentes personalidades dos autores e suas formas de trabalho, e dificuldades, é realizada através da montagem e do voiceover, mas principalmente pela forma do cinema-verdade, pela captação do som-direto e do exercício voyeurístico observacional. Vemos Domingos de Oliveira tentando captar dinheiro para a realização de “Todas as mulheres do mundo” e recebendo apenas 50% do que era esperado. A realização de “Terra em Transe” a forma de direção de Glauber. A montagem de “Opinião Pública” de Jabor. E Cacá Diegues lançando “A Grande Cidade” e indo nos cinemas para saber quantas pessoas assistiram ao filme. É verdadeiramente um filme sobre a ebulição da produção em massa de jovens cineastas, que cultivavam o sonho de poder mudar o Brasil através do cinema.

“Num país de conflitos, viver, significar agir, logo, Cinema”

Através desta frase, entendemos a ideologia do resgate histórico feito pelos realizadores para a idealização de um ativismo constante e combativo, sempre polêmico. A retomada ao cinema de Humberto Mauro, a divergência com o modo de produção e distribuição da Chanchada e a revitalização do Modernismo, tudo isso compõe o movimento, e a câmera do filme e seu texto, são capazes de sintetizar tudo isso para um público que desconhece o subdesenvolvimento, como nós conhecemos.

Por Victor Veloso

Aluno de Cinema da FACHA

 



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