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Ex-Pajé


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Publicado em 7 de Dezembro de 2018

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Em muitos aspectos, assistir ao documentário EX-PAJÉ (2018) se assemelha a ver um longa-metragem, isto porque não há narradores explicando a situação. A fotografia não tem câmera na mão, tremidos ou granulados, mas existe uma clara curva dramática, com divisão entre atos, clímax e desenlace. Principalmente por esta última característica, percebe-se a mão de alguém que, antes de ser diretor, é um roteirista: Luiz Bolognesi.

O filme narra a evangelização da igreja ao povo indígena Paiter Suruí e o impacto espiritual em seus habitantes, através do cotidiano do ex-pajé Perpera Suruí. A estrutura narrativa usada mistura documentário e ficção. Não se trata aqui da mesma velha discussão sobre os limites entre as duas formas, mas Bolognesi transforma deliberadamente as situações, interferindo de forma direta nas cenas como, por exemplo, quando escuta uma história que havia ocorrido há uma ou duas semanas e pede que os atores sociais a encenem, repitam o ocorrido como se estivesse acontecendo naquele exato momento.

A obra não está preocupada com a imparcialidade. Não se mostra “o outro lado”, seja com atores sociais que tragam uma visão diferente ou com entrevistas. Os fatos são mostrados como sob o olhar da observação, mas a intervenção da equipe algumas vezes fica bem nítida. Existe a intenção de convencimento do espectador, mas não há a voz over do modo expositivo ou tons experimentais do performático. O diretor parece voltado a questionar uma situação real – o domínio do cristianismo sobre outras culturas –, através de situações artificiais.

O ritmo é lento e pesado. As belíssimas imagens do espanhol Pedro J. Márquez ajudam a suavizar este ponto, assim como a mixagem de som. Impecável esteticamente, mas carente de autenticidade, o filme parece sempre caminhar pelas beiradas. Mostra outros conflitos vividos pelos indígenas, como contra madeireiras e com a entrada da tecnologia na tribo, mas sem se aprofundar nestas questões.

No final das contas, Luiz Bolognesi – unido novamente com a cineasta Laís Bodanzky – consegue causar um desconforto no espectador quanto à situação invasiva das missões evangélicas junto a aldeias indígenas. Entretanto, força sua visão sem um contraditório, sem alguém para contrabalancear sua opinião, assim como a igreja força sua religião aos Paiter Suruí. Além disso, introduz questões interessantes ao modo de vida contemporâneo indígena, mas sem seu aprofundamento. A armadilha dos filmes etnográficos parece estar na dificuldade em registrar determinado povo sem um olhar preconceituoso de quem vem de fora, o olhar do branco.

Ao não se debruçar exaustivamente sobre as próprias questões e por depender bastante das imagens em detrimento do ritmo, o diretor tirou o poder de convencimento do documentário e o fator entretenimento da ficção. Bolognesi mira ousadamente nas duas formas, mas não consegue um bom acerto em nenhuma delas.

Por Leonardo Polck

Aluno de Cinema da FACHA



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