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O Anjo Exterminador expõe os fariseus


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Publicado em 28 de Abril de 2018

anjoexterminador

 

A herança que nos é legada pela operação Lava Jato é a de um séquito de fariseus. Eles não surgiram do nada. Estavam cotidianamente cumprindo seus rituais burocráticos, longe das turbas populares, em diversas instâncias do poder judiciário. De repente, ganharam os holofotes da mídia. Seus nomes passaram a ser evocados na liturgia dos grandes veículos de comunicação, onde se destacam práticas que inviabilizam a transparência e os debates plurais na esfera pública.
Mas o que vem a ser um fariseu? Como nos lembra Frei Betto, ele é o burocrata da religião. “Nas palavras de Jesus”, acrescenta Betto citando Lucas (12, 56): ‘amarra pesados fardos e coloca nas costas dos homens’, mas ele próprio ‘não os quer mover nem com o dedo’. Gosta de ser visto e admirado pelos outros e prega o que não é capaz de praticar. Insiste em viver com impecável rigor, embora transgredindo os pontos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. ‘Coa um mosquito e engole um camelo’. Por fora tem boa aparência, mas ‘por dentro está cheio de podridão, como sepulcro caiado’. É capaz de saber se vai haver chuva ou sol, mas ‘incapaz de ler os sinas dos tempos’.
Cada notícia tem como personagem seu próprio fariseu. O conjunto de machetes ao qual somos expostos dia-a-dia estraga nosso desjejum e entoa a oração que enaltece um “grande pacto nacional”. A mídia transformou o fariseu em arauto da corrupção e ampliou sua voz para além das repartições, dos restaurantes chiques e das viagens compartilhadas ao exterior – socializações comuns no universo das elites. Essa mídia busca nos fazer crê nas pregações públicas dos fariseus, mas não pode impedir as revelações sobre o modo de vida despótico, com regalias e acima da lei, com o suporte do orçamento público.
As máscaras de alguns começaram a despencar como as dos personagens do jantar luxuoso do filme O Anjo Exterminador (1962), de Luis Buñuel. A filósofa Marilena Chauí expôs o alinhamento de um juiz narcísico do interior a interesses norte-americanos. Ele mira-se no espelho da mídia e esta lhe mostra um Clark Kent. Não esqueçamos que um fariseu do judiciário é tão vaidoso, ou até mais, do que aquele religioso. Não esqueçamos que a filósofa da USP ao fazer aquela simples revelação foi taxada de “louca” e “delirante” à direita e à “esquerda”.
O jantar luxuoso ainda não acabou. Alguns fariseus tentam manter suas máscaras apegadas às tradições e aos costumes mais conservadores. Eles são incapazes de encarar o passado que carregam nas costas ou olhar para o futuro. Eles são também fantoches vestidos “à turca, com um narguilé na boca”. Resta saber se esses fantoches, que ousaram se mostrar, ganharão sempre nesse velho jogo do poder? Pois o futuro para o qual o anjo da história é impelido não tem espaço para os apegados ao poder, à prepotência e aos espelhos.

 

Referências

Benjamin, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, vol. 1. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

Francisco e os fariseus. Coluna Frei Betto. O Globo, 28/04/2018. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/francisco-os-fariseus-22636380.

Narcisse, mythologie. Encyclopaedia Universalis. Disponível em: https://www.universalis.fr/encyclopedie/narcisse-mythologie/.



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