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Mãe!


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Publicado em 5 de Março de 2018

Reprodução/Internet. Cena do filme Mãe!

O filme, dirigido por Darren Aronofsky, se passa num clima de mistério e suspense. A paleta de cor tem tons lavados. Ambiente e figurino seguem o cinza. Não há cor, não há vida, não há amor na história do casal, interpretado por Javier Bardem e Jeniffer Lawrence. Os nomes dos personagens não são revelados. Javier Bardem é o poeta e Jeniffer Lawrence é a mulher do poeta, que é confundida, pelo médico visitante, com a filha dele. A narrativa é em primeira pessoa, através do ponto de vista da personagem de Jeniffer Lawrence. A câmera movimenta-se com ela e nos dá a impressão de que sente medo; a personagem, não. A câmera parece esconder-se atrás dela.

O filme se passa dentro da residência do casal, recém recuperada de um incêndio. O local é distante de tudo e de todos. Latas de tinta e móveis cobertos aparecem nos cômodos. A mulher testa cores nas paredes, quer dar vida ao ambiente e construir um lar. De personalidade doce e aparentemente submissa, a esposa quer impor uma vida de isolamento ao marido, que não consegue adaptar-se e acaba distanciando-se dela. Ele não consegue inspiração para escrever, fica entediado. Há incompatibilidade e estranhamento entre os dois. O poeta sente-se potente no convívio com as pessoas e abre a casa para os desconhecidos. Para aqueles que os visitam, a mulher do poeta é invisível. É para ele que os visitantes prestam homenagem.

Muito mais jovem que o poeta, ela não revela claramente o que sente nem o que quer, mas o desejo de ser mãe é forte, é orgânico. Ao longo da narrativa, ela sente-se mal e bebe, repetitivamente, um líquido amarelo. Sente no corpo as contrações do útero (a imagem construída é do sangue fluindo e um órgão se contraindo. Um reflexo do que ela sente no útero, quando está nervosa, aparece também – sangue fluindo – no chão do quarto dos hóspedes.

O poeta não tem desejo pela mulher nova e bonita. Vaidoso, precisa dos visitantes para ter inspiração e, assim, conseguir escrever. Em determinada sequência do filme, ele fala que está em busca da vida e que aquelas pessoas o alegram. A invasão e destruição da casa por desconhecidos é forte metafórica. A reação dos dois diverge em relação às invasões: ele sente prazer e ela sofre. Dor e prazer estão ali, polarizadas no casal, através da imagem da destruição.

O filme faz, de certo modo, uma crítica à vaidade masculina, à liderança levada ao fanatismo e à doutrinação que venera e cega. Na sequência em que o poeta, de posse do filho, passa a criança para as mãos da multidão mostra bem isso. Ele, como Cristo, distribui o pão para a multidão. O que pertence ao poeta, pertence a todos. A estética da cena, através da iluminação por lanternas, traz um clima religioso. As pessoas falando baixo e rezam, como num culto, fascinados pela imagem do líder.

A metáfora da MÃE NATUREZA também está presente, a que provém, abastece e sustenta, mas que os homens não cuidam. A destruição no filme é marcada pelo recomeço e o recomeço traz renovação e a possibilidade de algo novo. O objeto que o poeta tanto preza e cuida no filme é frágil, em forma de coração humano o qual ele resgata após cada incêndio na casa. A eterna busca do homem pela felicidade pode, segundo o diretor, se encontrar na experiência com o poder e/ou com o amor. Mãe! É um filme que surpreende, esteticamente, o espectador.

Por Renata Felippe

Aluna de cinema da FACHA



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