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O Filme da Minha Vida: a metalinguagem no cinema


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Publicado em 28 de Fevereiro de 2018

 

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Leve roteiro, fotografia de Walter Carvalho e Selton Mello. São ingredientes que fazem ‘O Filme da Minha Vida’ (2017) ser imperdível por si só! Apesar de certos equívocos aparentes; o mais recente filme dirigido por Selton Mello traz um tom apaixonado e até saudosista pela arte do cinema. O filme faz com que o espectador se deleite e saia quase voando no final da sessão, como a personagem de Bruna Linzmeyer no longa.

O roteiro de Selton Mello e Marcelo Vindicatto, com base no livro “Um Pai de Cinema” de Antonio Skarmeta, traz simplicidade e certamente mais pontos positivos do que negativos. A narrativa nos faz querer saber mais sobre o que se trata a trama de Tony Terranova, vivido esplendidamente por Johnny Massaro e sua relação com seu pai, Nicolas Terranova, vivido pelo magnifico e fluente em português, Vincent Cassel. O espectador torna-se curioso em tentar descobrir o que aconteceu para Nicolas ir embora do jeito que foi, seguir pistas que Tony tenta pegar com Paco, homem do interior, amigo próximo de Nicolas, vivido pelo diretor Selton Mello.

Há momentos de romance em que Tony e Luna Madeira, personagem de Bruna Linzmeyer começam a se apaixonar, momentos de comédia, com o estreante mirim João Pedro Prates, vivendo Augusto Madeira, irmão mais novo de Luna (muito bem no papel); momentos de maior sedução com Bia Arantes vivendo a irmã mais velha da família Madeira, Petra. Talvez, e infelizmente, a personagem que menos teve desenvolvimento foi a da mãe de Tony, Sofia Terranova, vivida por Ondina Clais Castilho, que acabou não tendo muito espaço na narrativa e parecia, às vezes, estar sobrando em cena, mesmo fazendo um trabalho competente na atuação.

O enredo do filme é basicamente a história de Tony e sua relação forte com o pai e com o cinema, o personagem experimenta experiências cruciais na vida de um homem, como o primeiro amor, a perda da virgindade, o amadurecimento e o autoconhecimento. Porém, mesmo sendo “simplista”, como um amante da sétima arte, o olhar sensível de Selton para o cinema é muito tocante. A metalinguagem em usar o cinema como personagem de um filme já é antiga, desde Cantando na Chuva (1952), Cinema Paradiso (1988), passando por O Artista (2011) e chegando no mais recente La La Land (2016).

Apesar de recorrente nos longa metragens, isso o torna mais proveitoso e interessante de assistir na abordagem de Selton. Já em seu terceiro longa assinando a direção, ele inegavelmente é bem-vindo nessa posição atrás das câmeras e cada vez mais aproveita e rende nesse lugar. Feliz Natal (2008) e O Palhaço (2011) já mostraram isso, mas dessa vez ele parece ter aumentado o nível e seu conhecimento em fazer cinema.

Junto a esse olhar, está um outro muito importante, o de Walter Carvalho na direção de fotografia. Um dos pontos mais altos do filme, sem dúvida! A fotografia de Walter já é inesquecível na história do cinema brasileiro, é só lembrar de Amarelo Manga (2002), A Febre do Rato (2011), Janela da Alma (2001), entre outros. Em “O Filme da Minha Vida” não é diferente! A leveza do roteiro é muito bem representada pela paleta de cores e tons do filme e no modo como a luz é usada e aproveitada. Junto a isso, está o modo como a câmera é colocada; os enquadramentos muito próximos, quase sempre com close e detalhes quando um personagem é mostrado e os planos abertos mostrando a beleza da serra gaúcha, muito bem escalada no filme!

Logo, estamos falando de um filme com uma fotografia linda, figurinos bem escolhidos, atores impecáveis e uma ótima direção! Mas porque muitas são as críticas que dizem “ser um filme bom pela fotografia e não pela historia”? Bom, podemos concordar que o modo como o filme termina nos deixa um pouco desapontados, esperávamos que Selton fugisse do “felizes para sempre” de cada dia. Ainda mais depois de assistir o desenvolvimento dos personagens e esperar que eles fossem ter um final diferente. Mas é nesse exato ponto que a escolha de Selton foi correta.

Estamos falando de um filme que é marcado pela leveza, nesse caso, o final se encaixa perfeitamente com o que foi proposto. Não é possível imaginar o espectador saindo triste com a vida ou sem um sorriso no rosto depois dessas 1 hora e 50 minutos. Não precisamos repetir a fórmula sempre, isso é um fato. Mas também, tem momentos que tudo o que se precisa é uma boa formula antiga, com uma pitada de novidade, para que tenhamos um resultado memorável.

Com isso, parabenizo a nova realização de Selton Mello nas telonas, junto com toda sua equipe técnica e de atores, e indico para todos os amantes da sétima arte como eu. E como disse nosso protagonista, Tony Terranova: “O resto, não posso contar.”

Por Beatriz Lira,

Aluna de Cinema da FACHA



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