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Ideias sobre príncipes


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Publicado em 14 de Agosto de 2017

roamor

O inverno está quase se despedindo. Mas antes, preparamos um café forte para iniciar uma conversa com o cineasta Luiz Rosemberg Filho sobre seu trabalho atual, Os príncipes,  e o contexto sombrio no qual o Brasil mergulhou. Aproveite o aroma, coloque uma trilha (sugerimos Elements, de Einaudi) e deguste este diálogo.

Moviola – Como foi pensar criativamente imagens e ideias sobre o universo batido como o da prostituição?

Luiz Rosemberg Filho – Parto dele mas vamos além, né? Não fiz uso da cafetinagem para lucrar com a exploração de corpos prostituídos pelo sucesso como na TV e nas revistinhas de sacanagem. Na verdade são corpos que se debatem erradamente, por algum sentido que não conseguem alcançar. Todos estão perdidos num continente de impossibilidades, novamente humilhado por golpes de Estado onde tudo é desprezível. Ou como bem diz Karl Kraus: “O Diabo é um otimista se acredita que pode tornar os seres humanos piores”. Acho que chegamos no limite da suportabilidade para com o país ou mesmo a vida. A classe dominante e seus fiéis cães de guarda na política fazem de tudo para que todo e qualquer espaço seja crepuscular e sofrido. “Gozam” com o aumento dos impostos, com a repressão, com um deus que nunca ninguém viu… mas como sendo um bom negócio, com seus velhos discursos em nome da Democracia, que deixou de existir… Ênfase a roubalheira de senhores vendidos como santos e sérios. Na verdade, foram ser políticos para isso: para um esvaziamento do humano! Uma real submissão as leis da Casa Grande e da Casa Branca!

Moviola – E onde você quis chegar?

R - Nunca se chega onde se quer. Mas fomos passando pelas areias movediças dessa ordem enlouquecida do poder. Eu queria uma espécie de embriaguez violenta não óbvia, ou declarada. Penso que o problema não é saber que a pólvora foi inventada, mas por quê? Ora, por que um filme escuro como esse Os príncipes? Digamos, é um trabalho sem compensação alguma sobre o desprazer de nada serem. Refiro-me as personagens. São sim a enferma obscuridade do mundo em que vivemos hoje nas grandes cidades. “Quanto a mim – usando Baudelaire, eu estaria sempre bem lá onde não estou, e a mudança é uma questão que estou sempre a discutir com a minha alma”.

Moviola – Você acha que o público precisa de um filme desse?

R - O público precisa de educação, de formação, encantamento e liberdade. Numa republiqueta novamente repressiva é preciso, sim, muitas vezes, recuar de Baudelaire a Mazzaroppi. É um pouco a linha adotada pelo filme, sem abrir mão da poesia. Ou seja, vagar no movimento dos muitos demônios internos numa inversão radical das certezas. Nos Príncipes, o reino é o da banalidade dos encontros sem beleza alguma. Reconheço uma certa falta de escrúpulos por parte de quase todos. Mas não é assim a ordem política que se vive hoje no país? País solar onde o deboche político necessita do horror como plataforma cintilante de negação da poesia e da beleza. Temos sim uma outra percepção da vida. Nossos caminhos passam por intensidades e não por cinismos e pobres referências. Ênfase a uma desavergonhada impureza e imoralidade criativa. Prazeres para honra grandiosa do gozo/gozar! E se somos apenas passagens, pouco no toca um estado de escravização a uma justiça divina. Nos interessa um mergulho profundo na riqueza demoníaca da imaginação, pois a imutabilidade só serve ao fascismo, não e nunca a poesia. E menos ainda ao cinema.

Moviola – Com relação aos dois longas anteriores, feitos quase com a mesma equipe e atores, não seria pelo estado latente de violência quase como personagem forte e principal, um passo atrás em relação a seus outros longas?

R - De modo algum. O soldado sai da Guerra do Paraguay e está hoje ao lado do seu amigo rico, violento e inteiramente insuportável. Falo do personagem, não do ator, que o fez brilhantemente com vontade de ir além de tudo e todos. As duas jovens atrizes abandonaram o teatro, e viraram prostitutas resmungonas entre o brilho do dinheiro e o sentimentalismo barato. Os Príncipes é um filme que nos fez andar para frente. Uma espécie de encadeador de encontros, paixões e transformações. Deixamos a porca imoralidade da ordem e nos jogamos no inferno das perversões, assumidamente num flerte aberto a Gregório de Mattos e ao Marquês de Sade.

Moviola – E por que os dois homens principais, justamente os Príncipes, são tão violentos e destrutivos?

R - Ora, a política do golpe de 2016 não é e segue sendo isso? A violência e a destrutividade fazem parte da festa do poder que se dedica a agiotagem mecânica do aumento dos impostos. Como ser diferente com um cinema pensado? Se o poder nos é insuportável com suas múmias de terno e gravatinha, decretando o fim dos sentimentos humanos, por que nos ufanaríamos de tal horror? O idiota do prefeitinho de São Paulo não foi jogar água fria nos sem-teto dormindo nas ruas no inverno? Esse prefeito lá é gente?  Essa imundice violenta chama-se poder! Um tipo baixo de poder que odeia o cheiro do povo, a alegria, a liberdade e o gozo. Mas esse filme já é velho.

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Set de filmagem de Os príncipes. Foto: Alisson Prodlik

Moviola – As duas atrizes com quem você já trabalhou anteriormente, não trariam em seus personagens uma concepção redutora da mulher que hoje tem mais espaço politicamente, pelo menos em colocar suas demandas ante a sociedade?

R - Seria uma concepção redutora se os homens fossem santificados e as mulheres só objetos decorativos. Na verdade todos são perdedores de um país menor que perdeu uma vez mais o bonde da história. Como bem diz com maestria o poeta Alberto Pucheu: – você vê fantasmas por aí, cadáveres adiados que procriam. Acho que é dele. Fizemos um filme impudico, sem humanidade ou beleza plástica. É a minha reverência a Sade de 120 Dias de Gomorra, filmado magistralmente por Pasolini. E perto de Pier Paolo somos anjos.

Moviola- Mas é um filme que na sua vasta obra avança ou recua em relação ao cinema?

R - Tentamos por parte de todos: Ana Abbott, Igor Cotrin, Patrícia Nidermeier, Alexandre Dacosta, Cris Viana, Jorge Caetano, Orã Figueiredo, Otávio III, Tonico Pereira dar o nosso melhor abusado. Não o melhor fácil das novelinhas da TV, mas o soberbo reflexivo. Um olhar de reconhecimento de nossas muitas dores e frustrações. Digamos, uma germinação poética de resistências ao horror como forma de poder. Como cinema queríamos a poesia e não a mesmice do cinema de mercado. Eu até diria que o filme avança mais uns passos. Talvez não tão grandes como gostaríamos. Mas passos foram dados.

Moviola – E quais foram as referências utilizadas por você num filme tão violento e estranho no teu trabalho como esse Os Príncipes?

R - Acho que ainda me falta um distanciamento necessário para que eu possa me encontrar criticamente em relação ao trabalho feito. Da época que foi escrito, no final dos anos 80, eu só me lembro do cinema do Kubrick. Hoje já encontro Os Cafajestes, O Jardim Das Espumas, O Rei da Vela, do Zé Celso e um pouco de Chaplin e Brecht na narrativa fragmentada e, por vezes, cômica e crítica. Possivelmente, a crítica encontrará outras, não? Mas verdadeiramente não faço um filme pensando no cinema, mas no nosso triste tempo. E se possível numa linguagem não envelhecida como este momento triste do país e do mundo.

Moviola – Uma pergunta técnica: como foi trabalhar a imagem com um fotografo com quem você nunca havia trabalhado?

R - Bem, Alisson Prodelik é um novo Dib. Claro que tem lá a sua marca, mas talvez a mais profunda seja ser rápido, jovem, generoso, alegre, brincalhão, sério, vivo, feliz, disciplinado, autentico, sensato, ousado, humano e profundo na sua maneira de olhar o que lhe é pedido. Ou seja, sabe olhar e tem poesia na composição das imagens. O que você imagina ele faz e vai além deixando a sua marca. O Bidu vai longe se não for sugado pelo autoritarismo ou mesmo pelo mercado.

Moviola – Como foi o trabalho com um elenco já bem maior que seus filmes anteriores?

R - O recorde ainda é o do genial A$suntina Das Amérikas. E quanto aos Príncipes só foi o possível dentro do impossível. Foi um trabalho várias vezes adiado por problemas de produção. Ensaiamos algumas sequências bem antes de filmar, e na parte que cabe as interpretações cada um soltou o seu animal reprimido, nessa porca realidade em que vivemos todos. Todos deram a sua contribuição para que não ficasse um filme já visto, apesar do tema já muito batido. Ou seja, o comum foi transformado numa caminhada nas estrelas. Viraram constelações!

Moviola – Pelo roteiro ainda escrito em máquina, o filme não conduz a um certo desencanto com a vida?

R - Um desencanto com o Brasil atual, sim. O país que vinha andando aos trancos e barrancos de pé, voltou a andar de joelhos. Voltou a superfície da mediocridade política. A um fascismo porco e envelhecido, sem profundidade alguma. Tenho nojo da atual classe política onde só se vê ratazanas, porcos, falsos religiosos e urubus. Nessas circunstâncias de horror e deformação não poderíamos produzir encontros ternos e afetivos como em Gozo/Gozar. Nunca pensei que viveríamos esse lixão histórico outra vez. O Brasil é solar, convida à vida e ao gozo. Pena ter embarcado no discurso da velharia fazendo da política a ante-sala do cemitério.

Moviola – O que você definiria como especialmente notável num filme tão duro, sem esperança alguma?

R - A rica ousadia dos atores quase endemoniados. O risco profissional dos técnicos. A sensualidade linda e poética das mulheres. A imundice assumida dos personagens masculinos. A invasão da rica imoralidade como poesia. O mosaíco da fotografia como música. Os sentimentos mais baixos dos seres humanos, assumidos como representação e verdade. Um possível fim dos preconceitos com a alma, o olhar e o corpo. Quanto a mim… o não estar, ou não servir a esta ordem social porca de Cunhas, Meireles, Angoras.

Moviola – É para o grande público?

R - O grande público está todo minado por Hollywood e pela TV. Prefere muito mais acompanhar uma novelinha medíocre do que se jogar no inferno das suas tantas contradições. Perde todos os seus direito e pouco faz. Não acredita que vai adoecer e morrer sem ter vivido. A imoralidade política o chantageia e ele vota no Dória bundinha de seda e na múmia do Crivella. Se contenta em ser voyeur das mulheres objetos vendidas na TV – programadas para casa e ter filho em vez de se estabelecerem como profissionais, como cientistas, como pesquisadoras de campos “reservados” aos homens . O que sabemos nós do chamado grande público? Faço cinema de poesia e não de caixa registradora. Quero a imoralidade dos afetos. O gozo ainda que nos escombros da ordem. A entrega nos encontros proibidos. A impureza viva dos demônios da criação. O encontro paradisíaco de muitas bebedeiras. A excitação poética da linguagem. A harmonia cinzenta dos infernos. Vaginas como explosão de luzes, cores e infinitos. É por ai…

Moviola – E agora o que fazer?

R - Esperar pela preciosa montagem de Arthur Frazão e Mili Bursztyn. Fiz em muito pouco tempo, antes dos Príncipes, os curtas Gozo/Gozar, Jornal e Landscape. Todos ainda inéditos. Escrevi quatro roteiros difíceis sobre o olhar, a poesia, o corpo e o esquecimento – iniciado em 2013. Estou exausto, precisando de tempo! Tempo para pensar e tempo para amar. Voltar a tocar no corpo e na alma do Outro, pois ainda sou “humano, demasiadamente humano”.



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