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Gozo/Gozar


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Publicado em 17 de Outubro de 2016

rosembergfilho

 

O cinema poético de Luiz Rosemberg Filho nos faz dar uma pausa à brutalidade contemporânea da velocidade. Seu novo curta-metragem, Gozo/Gozar (2016), nos leva à contemplação não apenas das imagens, mas, principalmente das palavras, de seus significantes e do desvelamento do conceito psicanalítico do gozo. O tempo da palavra em Rosemberg não nos paralisa nem nos deixa inertes, pelo contrário, ele reacende o nosso desejo por outras narrativas e nos torna atentos para o que Maria Rita Kehl elogia no seu livro O Tempo e o cão: a atualidade das depressões, o valor do tempo e da lentidão ou o tempo de cada um.

Seu curta dialoga com outros filmes que ele produziu. Rosemberg volta a pensar no uso das palavras em conflito com as imobilidades, traições e imagens fotográficas. A interpretação delicada e forte da atriz Luciana Fróes nos colocar face a face com a tristeza e a dor de viver e, simultaneamente, com o sentido ampliado do gozo. Com isso, nos tira da miséria do senso comum nos fazendo penetrar na ficção simbólica da imagem que pensa em voz alta. Creio que uma das buscas do diretor é não nos deixar reféns ou prisioneiros da mediocridade de narrativas repetitivas que nos impedem de pensar e refletir sobre a experiência do tempo e de nossas próprias vidas.

Este jogo entre o substantivo e o verbo, gozo-gozar, nos fala do prazer por meio de Sade e do saber num “tempo sôfrego do mundo capitalista” – termo que Maria Rita Kehl emprega para falar daqueles que são desajustados a velocidade e a urgência contemporânea, daqueles cujo gozo está perigosamente próximo ao domínio da pulsão de morte, dos que querem gozar à sua maneira. Na medida em que prestamos mais atenção à sutileza da interpretação de Luciana Fróes, nos deparamos não apenas com as táticas e as estratégias criativas do jogo armado por Rosemberg, mas também com a nossa aceleração ante as ações mais corriqueiras. Aquela pressa que empobrece a existência.

Os símbolos e imagens desse curta trazem uma questão cara ao diretor e que faz eco nos seus dois recentes longas-metragens, Dois Casamentos (2015) e Guerra do Paraguay (2016). A questão posta no jogo ‘rosemberguiano’ é sobre como é o gozo e o gozar além das manipulações da mídia e da imoralidade política e religiosa. Sua intenção é expor o apagamento da generosidade no discurso na mídia, na política e na religião. Estes espaços, para ele, foram transformados em negócios para poucos.

Sua reflexão sobre a transformação do ato libertário do gozo e do gozar busca elaborar os efeitos dos traumas em vez de apagá-los. Isto pode nos desviar da trama de repetições cotidianas e nos libertar para voltar a contemplar as palavras, as ideias e as imagens. Sem pressa.

 


Foto: Tito Rosemberg



1 Commentário sobre 'Gozo/Gozar'

  1.  
    Duda

    17 Outubro, 2016| 7:07 pm


     

    Mais gozos para combater este tempo sombrio.

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