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O documentário da contemplação


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Publicado em 4 de Dezembro de 2014

sopro

 

Com uma trajetória de curtas-metragens premiados em festivais nacionais e internacionais, o mineiro Marcos Pimentel é um dos nomes mais promissores do documentário brasileiro atual. Podemos observar em sua obra um esmero poético de rara beleza e um olhar que contempla, sem muitas interferências, as pessoas e ambientes retratados nos filmes.

Entre os prêmios que seus documentários ganharam recentemente, destacam-se o de melhor curta-metragem no festival É Tudo Verdade de 2011 com A poeira e o vento e em 2013 o curta Sanã ganhou o grande prêmio do Curta Cinema. Em 2012, o documentarista lançou o média-metragem Horizontes Mínimos, escolhido como o representante brasileiro do Doctv Latinoamérica III para ser exibido em emissoras de televisão de dezesseis países da América Latina.

Agora é chegada a hora de Marcos lançar Sopro, seu primeiro longa-metragem, que nasceu por acaso e tomou forma aos poucos. O documentário foi filmado no interior de Minas Gerais, nas proximidades do Parque Estadual de Ibitipoca e entre junho de 2010 e novembro de 2011, ele e sua equipe visitaram a região por algumas vezes, registrando os poucos moradores do local em suas rotinas de silêncio e introspecção. Sopro teve sua estreia mundial em abril de 2013 no festival Visions du Réel, na Suíça, e agora vai estrear em 15 salas de cinema do país, após percorrer festivais de cinema no Brasil e no exterior. Confira a seguir a entrevista com Marcos Pimentel.
 

Como surge a ideia de fazer esse longa-metragem?

Sopro nasceu de uma forma muito espontânea e instintiva. Fui à região do filme para fazer um curta (A poeira e o vento) e chegando lá, me deparei com outros personagens e situações que não cabiam no filme que tínhamos que fazer. Realizamos A poeira e o vento e continuamos filmando no esquema de guerrilha, sem recurso nenhum e sem garantia de que um dia terminaríamos o documentário. Por sorte, o curta ganhou alguns prêmios em dinheiro, o mais expressivo deles foi no festival É Tudo Verdade. Depois fizemos um primeiro corte do filme e começamos a enviar para editais e fundos de finalização. O mais importante deles foi o Visions Sud Est, na Suíça, dedicado ao cinema autoral. Sopro é o primeiro filme brasileiro a receber aportes deste fundo e muitas portas se abriram para nós depois disso. Como dá para perceber, o documentário foi acontecendo aos pouquinhos. É um filme que só existe porque jamais foi imaginado. Ele simplesmente aconteceu diante de nós e soubemos enxergar que havia um filme ali.

Em seus documentários existe uma contemplação constante dos personagens e paisagens retratados, existindo pouca ou quase nenhuma presença da fala. Por que opta você por esse tipo de narrativa?

Sempre me pergunto qual é o lugar da palavra nos meus filmes. Comecei fazendo documentários que estavam muito presos à ela, seja pela questão da entrevista, do uso da voz em off (narração em primeira pessoa) ou pela aplicação de letreiros e cartelas de crédito que conduziam a história. A palavra era muito forte nesses meus primeiros filmes, era praticamente o alicerce de cada um deles. Aos poucos, fui abandonando esta certa “dependência” da expressão verbal e acho que isso se reflete também numa opção de vida. Ao longo da minha trajetória, fui me descobrindo uma pessoa cada vez mais observadora e silenciosa e, de alguma forma, isso se refletiu em meus filmes. Faço cinema observacional, mas que não é o cinema direto norte-americano dos anos 50 e 60 de Drew, Maysles, Leacock. Nem é o cinema sóbrio do Wiseman, nem o cinema veritè do Rouch, nem as experiências do cinema direto do Depardon. Meus filmes são narrados visualmente de uma forma bem sutil, mas dependem da montagem (ainda que discreta) para conferir sentido ao que está sendo narrado. O tempo é um elemento muito importante em tudo que construo. Filmo para tentar entender este conceito e como ele reverbera nas pessoas, como elas experimentam este elemento. Por outro lado, trabalho muito com o cotidiano, então intimidade é outro conceito que persigo sempre. Para tentar alcançar esta intimidade, precisei criar um método de trabalho que me aproxime disso respeitando também minhas escolhas pessoais. Como obter intimidade com pessoas sem conversar com elas? Como apresentar ao espectador peculiaridades de uma pessoa sem me fazer valer da forma como ela se expressa verbalmente? Como acessar a essência de personagens sem que isso se aflore através da fala? O Eduardo Coutinho escutava e interrogava com maestria seus entrevistados e nos presenteou momentos sublimes. Sem fazer nenhuma comparação, eu me propus buscar exatamente o mesmo, só que fazendo o caminho oposto: sem utilizar a expressão verbal.

Como se dá a escolha de pessoas para retratar nos seus documentários e como é essa negociação de gravá-las sem entrevistas?

A atração por cada personagem surge da observação de suas rotinas. É o contato com as pequenas ações e os mínimos gestos que me permite identificar se existe história ali que renda um filme ou se esta pessoa poderia ser inserida em um filme que já estou construindo. Nunca me propus a seguir ou a estabelecer um método propriamente dito, tudo foi sendo construído por “ensaio e erro”. Nestas tentativas, descobri que preciso conviver com meus personagens, passar um bom tempo com eles, estabelecer vínculos que me permitam acesso a momentos de introspecção e solidão diária, estes momentos em que cada um está sozinho consigo refletindo sobre o dia, a vida, o futuro ou qualquer outra coisa. Com discrição, me aproximo de pessoas, comunidades, ambientes e situações, tentando flagrar – sem apuro nenhum – momentos de intimidade capazes de revelar a essência destes personagens para o espectador sem o uso da palavra. Conversamos pouco, mas interagimos muito. Então, acho que os personagens já nem esperam que alguma entrevista surgirá em determinado momento. Não há esta expectativa, porque todo o processo é muito silencioso. Então, a negociação nem precisa tocar este ponto, já é algo subentendido.

Percebemos um apuro estético muito harmonioso nos seus documentários, que contempla fotografia, montagem e desenho sonoro. Como é o trabalho com a equipe durante o processo criativo?

Trabalho sempre com uma equipe reduzida. Como persigo registros íntimos, acho que seria impossível alcançar qualquer intimidade com um grande número de pessoas envolvidas no processo de realização do filme. Acredito muito em um cinema artesanal, feito à mão, de pequenas dimensões. E, para conseguir realizá-lo, tive que encontrar pessoas que falassem a mesma língua e perseguissem o mesmo tipo de filme. Trabalho com uma mesma pequena equipe já há alguns anos. Fui encontrando parceiros que pudessem entender perfeitamente o tipo de filme que me proponho a realizar e que tivessem uma visão de mundo próxima da minha. Somos todos muito diferentes, mas acho que olhamos para o mundo de uma forma similar. Por isso, somos grandes amigos também fora do set, do escritório, do laboratório ou da ilha de edição.  Se você observar a ficha técnica dos meus filmes, vai encontrar sempre ali Luana Melgaço, Matheus Rocha, Ivan Morales Jr., Pedro Aspahan e David Machado. Tive a sorte de ter encontrado outros grandes colaboradores na vida, mas este grupo já me acompanha há muitos anos e dividimos muito todas as etapas do processo de feitura de um filme. Cada história nos mostra, de forma muito natural, onde cada um terá mais espaço para fazer seu “solo” ou onde cada um vai precisar ser praticamente “invisível”. Acho que, assim, conseguimos construir obras onde as diferentes partes de um filme se integram de forma orgânica e não competem entre si.

Sua trajetória nos remete a documentaristas que também usam narrativas poéticas, como Joris Ivens e Artavazd Pelechian. Quais suas influências estéticas enquanto documentarista?

Respiro cinema documentário 24 horas por dia. Quando não estou filmando, montando ou escrevendo projetos, estou vendo filmes, frequentando festivais de cinema, preparando aulas ou buscando novas descobertas no campo do documentário. Seguramente fui muito influenciado por Joris Ivens e Pelechian. “Chuva” e “O Sena encontra Paris” de Ivens e “As quatro estações” e “Fim” de Pelechian estão entre meus filmes favoritos. Agora, também bebi muito de Vertov, Flaherty, Jonas Mekas e toda a turma do cinema direto norte-americano (Irmãos Maysles, Robert Drew, Richard Leacock, D.A. Pennebacker). Tudo que tem a ver com documentário me interessa. Mesmo quando os filmes não têm nada a ver com o tipo de cinema que eu faço, tenho um grande interesse por assistir e dissecar a obra de documentaristas como Grierson, Jean Rouch, Frederick Wiseman, Raymond Depardon. Tenho uma predileção pelos clássicos, revisitando constantemente a obra de cineastas que foram cruciais para a história do cinema documentário. Entre os brasileiros, sinto que fui muito influenciado por filmes de Humberto Mauro, Joaquim Pedro de Andrade e Eduardo Coutinho. Suas obras me tocam profundamente e é um prazer enorme revisitá-los sempre que possível.

Citaria documentaristas da atualidade que você considera interessantes?

Tenho admirado muito filmes oriundos dos países que formavam a União Soviética, como Bielo-Rússia, Ucrânia, Lituânia, Letônia, Cazaquistão. Os primeiros documentários de Sergei Loznitsa e Sergei Dvortsevoy me chamam muito a atenção, principalmente na forma de observação que eles experimentaram ali. Também me interesso por toda a obra do Jia Zangh-Ke, alguém que trabalha com primor o tempo e o espaço cinematográfico.

Você sente dificuldades em fazer documentários autorais no Brasil?

Fazer documentário autoral no Brasil não é difícil. Difícil é conseguir viver disso. O acesso aos equipamentos e as possibilidades de produção de um filme mudaram radicalmente nos últimos anos. Hoje em dia, existe um grande número de editais, leis de incentivo, fundos e uma quantidade enorme de filmes de baixo orçamento ou sem orçamento algum realizados em todas as partes do país. Então, acho que o problema não é mais produzir, mas ainda temos outras questões a serem resolvidas: a sobrevivência financeira dos realizadores e o esquema de distribuição/exibição dos filmes que são realizados. Tenho tido a felicidade de conseguir dar continuidade ao meu esquema de produção. No entanto, não tenho certeza nenhuma se conseguirei realizar o próximo projeto, pois é uma área muito instável e sujeita a inúmeras intempéries. Neste período, intercalei momentos onde conseguia viver exclusivamente da minha produção autoral (isso era possibilitado pelo acúmulo de projetos pessoais) com momentos em que eu tive que fazer outras atividades dentro da área: dar aulas, fazer curadoria para festivais, escrever roteiros, dirigir projetos para TV. Assim, fui encontrando uma forma de equilibrar minha realização autoral com a sobrevivência financeira. Ambas são fundamentais para qualquer realizador. Você não é capaz de viver se não filmar, mas também não vive sem pagar contas. E tem a questão das distribuição dos filmes. O país produz um número absurdo de conteúdos audiovisuais, mas a parcela destes filmes que chega até a população é muito pequena. Acho que este é um dos maiores desafios que temos no setor.

Você estudou durante dois anos na prestigiada Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV) de San Antonio de los Banõs, em Cuba. De que maneira o fato de ter estudado lá influencia na sua obra?

A experiência da EICTV foi crucial para o tipo de cinema que faço hoje. Lá vivenciei um processo de imersão cinematográfica fundamental para a descoberta do tipo de filme que me atraía e o tipo de filme que eu quero fazer.  O caráter internacional da escola ajuda muito. Como os professores e os alunos vêm de todas as partes do mundo, não é só ter contato com um país e sua cinematografia, mas com as cinematografias de vários países do mundo, poder assistir e discutir filmes que dificilmente eu teria contato se não tivesse ido estudar lá. Também ajuda muito este processo de isolamento a que você se submete quando está lá, longe dos inúmeros ruídos a que estamos sujeitos no dia a dia: trabalho, família, amigos, aluguel, pagamento de contas, diversidade de programas de cultura e lazer. Lá, experimentei praticamente um exílio voluntário e, como em toda situação de exílio, você fica distante de todos e acaba por se aproximar de você mesmo. Saí de lá mais próximo de mim e com mais certezas sobre o cinema que pretendia realizar. Os filmes que faço hoje só são possíveis porque passei por aquele período na EICTV.


Serviço:

Sopro estreia em 04 de dezembro de 2014

Locais de exibição e informações sobre o filme: https://www.facebook.com/filmesopro

Distribuição: Lume Filmes

Trailer: https://vimeo.com/69324240

Sobre o filme: Sopro é um documentário sobre a existência humana e os mistérios da vida e da morte, mostrados no cotidiano de uma pequena vila rural no meio do nada, no interior do Brasil, onde algumas famílias vivem, há anos, isoladas de maiores contatos com o mundo exterior. O vento, a poeira, as montanhas, o silêncio, o tempo… Entre o inventário e o imaginário deste lugar, o homem e a natureza convivem – harmônica e conflituosamente, na imensidão de uma paisagem que parece esgotar o olhar.

Ficha Técnica:

Direção: Marcos Pimentel
Roteiro: Marcos Pimentel e Ivan Morales Jr.
Produção executiva: Luana Melgaço
Direção de produção: Cristiano Rodrigues
Fotografia: Matheus Rocha
Som direto: Pedro Aspahan
Montagem: Ivan Morales Jr.
Edição de som e mixagem: David Machado
Produtora associada: Tanya Valette
Pesquisa: Marcos Pimentel e Mariana Musse
Assistente de direção: Mariana Musse
Projeto gráfico: Heleno Polisseni


Prêmios:

– Melhor Documentário, Melhor Montagem, Melhor Som – Festival UNASUR (Argentina, 2014)

– Prêmio Lume – 3º Festival Internacional Lume de Cinema (São Luís/MA, 2013)

– Prêmio Nuestra America Primera Copia – Festival Del Nuevo Cine Latinoamericano de La Habana (Cuba)

– Prêmio Bolivia.Finaliza – Bolivia LAB  (Bolívia)

– Prêmio Visions Sud Est (Suíça)



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