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Os últimos dias de Roger Ebert


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Publicado em 29 de Novembro de 2014

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(Moviola, Londres)  Quando Roger Ebert se foi ano passado, uma página do jornalismo e da história cinematográfica mundial ganhou seu epitáfio. Ebert fora o único crítico de cinema a ganhar um prêmio Pulitzer, o único representante da mídia escrita a ter uma estrelinha nas calçadas de Hollywood. Isso é um reconhecimento em vida do talento desse escritor cuja paixão maior fora o cinema – e por alguns anos a bebida. Life itself (EUA, 2014), documentário que acompanhou os últimos quatro meses de vida de Ebert, teve seu lançamento no Reino Unido neste mês de novembro. Nós conversamos com o documentarista de Chicago, Steve James, durante um passeio por Hampstead.

O passeio não fora mero acaso. Foi organizado pelo distribuidor do documentário na Inglaterra, Dogwoof, pois era um rito a que Ebert se submetia toda vez que vinha a Londres e está descrito em seu livro de memórias de mesmo nome do documentário. Observando a flora e a arquitetura do Norte de Londres, em lugares frequentados anteriormente por Keats e Shelley, James confessa que a parte mais delicada durante as filmagens foram as diversas internações hospitalares do crítico. Quando aceitou a encomenda do projeto, James não imaginou que o câncer estava em sua fase final, mas logo percebeu que o intuito de Ebert era mesmo se expor e deixar uma outra mensagem a quem talvez estivesse passando pelos mesmos problemas dele.

Entretanto, no documentário não aparecem cenas de verdadeira fragilidade do homem. Não passa perto, por exemplo, das escolhas dramáticas, exasperantes e agônicas feitas por Wim Wenders ao documentar os últimos dias de vida de seu amigo Nicholas Ray, em Nick’s film. Não há momentos de confronto e desespero diante da dor. Não sei se isso foi omitido durante a edição, ou se não chegou a ser gravado. Mas que importa? Parodiando o próprio Ebert: “Toda vez o crítico acha algo extraordinário em um filme. Não está lá, mas a gente acha”.

O documentário recolheu testemunhos de muitos amigos e cineastas que foram presenteados com a sagacidade de Ebert, tais como Scorsese e Herzog. Scorsese é inclusive um dos co-produtores e Herzog havia dedicado seu Caverna dos sonhos esquecidos ao crítico. Mais do que complacência ao testemunhar, tais amigos no fim fazem justiça aos comentários edificantes de Ebert de anos atrás. Por exemplo, já no primeiro longa de Scorsese, Look who’s knocking at my door, um filme de estudante, Ebert o diagnosticara como “o Fellini americano”. Muito apurado, pois já este filme é um verdadeiro microcosmo de tudo o que Scorsese viria a enfatizar obsessivamente em toda a sua obra.

Na verdade, não é preciso conhecer Ebert para ver Life itself, nem mesmo gostar das suas influências literárias, como O grande Gatsby.  Mas talvez se você tiver lido Fitzgerald possa perceber melhor “A vida como ela é”, na versão de Ebert, ou seja, foi a própria consumação do sonho americano até as lamúrias mesmo de uma morte dolorosa.

 

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