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Dois casamentos


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Publicado em 28 de Novembro de 2014

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“Eu amo o que quer criar algo melhor que si mesmo e dessa arte sucumbe.”

Nietzsche

“Alimentamos o coração com fantasias,/E nosso coração embruteceu com o alimento? Há mais substância em nossos ódios/Do que em nosso amor…”

W.B. Yeats

“Quando uma estória for compreendida, é porque, foi mal contada.”

Brechet

 

(Para Cavi Borges e Marcia Pitanga)

 

Como questão de hábito, os desastres nos casamentos já fazem parte do visível significado da especulação econômica no nosso empobrecido tempo. Significa dizer que de concessão em concessão chegamos a intraduzibilidade do horror real da suportabilidade no seu limite máximo. Só que em forma de espetáculo barato e repetitivo para mídia. Infindável em todas as épocas e ainda cultuado nas novelinhas da TV. E não mais adianta culpar A, B ou C, pois somos todos parte dos problemas e culpados pelo silêncio através do qual todos se escondem de algum modo. Acrescente-se a isso o abismo existente entre quem vende e quem compra casamentos, em geral desconfortáveis já no segundo ou terceiro movimento de convívio. O projeto arquitetônico visível do casamento burguês religioso não visa satisfazer a ninguém, e sim em criar múltiplas incompreensões e problemas a médio prazo. O casamento e seu espaço ocupado pela inutilidade dos nossos muitos medos e vazios, torna-se em muito pouco tempo angustiante e ininteligível ao ser humano sensível. E o que até poderia ser uma premissa de afetos, transgressões e subversões entre o espaço, o corpo e os seres humanos, acaba sendo apenas uma frágil compulsão especulativa a legitimar o domínio do dinheiro e da arrogância. Com um tornando-se sinônimo do outro.

Em geral o espaço do casamento moderno religioso é mesquinho, arrogante, competitivo, afirmativo e feio. E tanto ignora a alegria como o bem-estar dos seres humanos que pagam caro para vivê-lo mal. Mas… os especuladores dispõem de dinheiro e não da dimensão profunda dos sentimentos e afetos que tanto levam ao prazer como ao gozo, que dá a quem transgride as proibições e carolices religiosas uma dimensão de infinitos espaços, como no poema acima de Yeats. Prazer e gozo mais que necessários a qualquer casamento. E, em tempos da grande corrupção religiosa, o não-religioso é tido como pervertido ou demônio. Como se o demônio não fossem os homens, os templos e igrejas que tiram descaradamente o dinheiro do povo prometendo salvar-lhe na vida eterna de seus fracassos e misérias vividos na terra. E onde o vulgar torna-se invenção dos deuses abstratos e baratos produzidos artificialmente por discursos autoritários berrados na TV. A sociedade necessita dessa glorificação da culpa e do medo. Da culpa e do medo também como um bom negócio. E através do sofrimento, a humilhação e a estranheza como disciplina militar. “Rezem!” – dizem os homens fantasiados de santos, só que fundamentalistas. O casamento tudo pode suportar. Menos uma percepção da vida para se viver bem. “Ora, o homem só pode criar no amor, envolvido na ilusão amorosa, isto é, na crença absoluta na perfeição e na justiça.”

Como contraponto aos tantos e tantos fracassos: anúncios luminosos, lojas, carros, Bancos, religiões, moda, sinais, cosméticos, Hollywood, Partidos, festas, festivais, beleza, luxo, guerras, dinheiro, angústias, engarrafamentos, distâncias, fama, revistas, mercado, perfumes, sucesso, TV, “celebridades”, prostituição, espetáculo, pessoas contaminadas por estranhas doenças, árvores poluídas, velhos, bêbados, mendigos, suplicantes, pobres empoeirados… E, nas muitas imagens dos casamentos, o horror contido como o avesso do real, da poesia, do afeto e do gozo. Ou, o casamento como fuga! Ainda assim é o universo em que o homem se acha mais forte e até mata se necessário for embalado por um estado de ciúmes idiota, até mesmo para aparecer nos jornais do dia seguinte. Lágrimas e novelas e religiões na TV na baixa manipulação das ideias e dos afetos. A TV aberta é uma espécie de câmera funerária a serviço do mau gosto. Em todo está canto ligada, fabricando o nada conveniente à ideologia dominante na transformação do medíocre em produto de beleza para o mercado!

Flores artificiais colorem o velório no que foi transformado o estranho ritual do casamento. Todos obedecem ao evento da despedida de solteiro. Não muito longe já a fumaça da cremação. Vejo na entrada da igreja ou do templo, rostos muito enrugados com marcas profundas de desencanto para com a vida. Talvez sejam os convidados. Talvez sejam os fundamentalistas. Talvez sejam já os coveiros. Talvez… E sua única missão é enterrar os mortos que ainda acham que estão vivos. Muitos são os que apodrecem antes de partir. Os comunicadores, religiosos e políticos, por exemplo. E a pretexto da glorificação da inutilidade, o capitalismo se transcende sempre em atos baixos, sujos e demagógicos. Pois dar “respeitabilidade” a barbárie faz parte da crescente conexão com a linguagem do espetáculo barato e vulgar no que foi transformada a história das relações amorosas, onde o gozo deixou de ser referencial. E com isso vende-se a necessidade de uma não-compreensão de história alguma. Justificando-se, assim, a baixa manipulação religiosa da culpa e do medo. Medo de amar, medo de ser feliz e medo de gozar.

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Mas, enfatiza-se seguidamente o “sucesso” dos casamentos nas religiões e na TV. Dos maus “atores” às guerras ao vivo, tudo está a venda! Tudo vira mercadoria de segunda! O chique é ser pegador ou pegadora surtada, ou idiota deslumbrado. Dá-se valor ao não-talento. Comercializa-se as vedetinhas boas de bunda, a perua afetada, canastrões plastificados e o ridículo louro José. Isso também é político. Hollywood deixou na TV profundas marcas sujas significativas para o poder. É preciso sempre convencer o espectador de que ele só é um bom consumidor de inutilidades e asneiras da industria cultural. Dá-se expressão ao vazio. No mundo globalizado fertilidade é ser boçal. Bem-estar é se contentar em ser incapaz, passivo, estúpido e idiota como um bom marido ou empregado. Que uma vez reduzidos à condição de merdas, os almofadinhas de terno e gravata renunciam a toda e qualquer complexidade mais profunda do afeto dos corpos que se fundem e se melam de prazer! Será que ainda sabem o que é isso? Mas que em seu benefício, tem o poder a lhes sustentar. E bem alimentados pela boa ração lançam-se no permanente aperfeiçoamento da barbárie “amorosa”. É um herói sem paixão na não-história das nações.

Sob o véu da tirania dos papéis, adota o “relaxa e goza” da ministrinha arrogante e antipática. O povo é alimentado pelas tantas quinquilharias da TV e pelas muitas mentiras do poder. Sempre que se há revolta, o poder age com a sua truculência e representação. Pelo poder dos medíocres, a violência pode ser usada e até espetacularizada para a TV. E eles chamam isso de ordem e progresso. Ordem para nós e progresso para os ocupantes. No vasto silêncio dos palácios, os delírios golpistas dos que lá chegam: um número cada vez maior de contas a serem pagas, o aumento dos impostos, do custo de vida, das taxas e mais taxas. Daqui a pouco, pagaremos um novo imposto pelo ar que respiramos. Alguma diferença do passado recente? Fetichiza-se a humilhação assegurada à impotência dos escravos. A submissão é que dá satisfação ao poder de ontem e de hoje. E são todos cães-de-guarda na defesa do mal-estar político e matrimonial com a morte e com a vida. É onde goza o poder.

Foi a não-delicadeza dos tempos que matou Pasolini, Visconti, Antonioni, Glauber, Joaquim Pedro… Atualmente, Davi Neves, Paulo Cesar Saraceni, Gustavo Dahl, Jaime Rodrigues, Serginho Bernardes, Raulino, Coutinho, Eliseu Visconti, Ricardo Miranda e tantos outros. O mundo em que vivemos se tornou a mais longa sequência de um prolongamento de “Salo”, com a perversão atuando como linguagem oficial da política ao casamento. E quanto mais humilhação e horror, mais cresce o prazer dos que estão no poder. Dos que falam em seu nome. É a história regressando uma vez mais à barbárie. E que na dissolução de todo e qualquer entendimento o espaço-tempo torna-se um show de ódios, fracassos e medos.

A violência e o horror da comunicação de massas tornaram-se círculos de realizações de um poder exibicionista especialista na tragédia moderna do casamento de Sade a Strindberg, passando por Tchekov. Sem a grandeza da velha sempre nova Grécia. Como não pensar em “Medeia”? Apropriadamente falando sobre Sade, Raoul Veneigem afirmava: “(…) os libertinos de Cento e Vinte Dias de Sodoma só gozam realmente levando à morte, com horríveis torturas o objeto da sua sedução… (e que homenagem mais conveniente para um objeto do que fazê-lo sofrer)”. Ora, o que fazem os soldados brasileiros no Haiti ou os americanos no Iraque? Claro que só é vendida e reconhecida a ordem de uma democracia duvidosa como vontade do poder. Mas que tipo de ordem buscam as forças repressivas pelo mundo? Dizia o poeta: “A vontade de morte instala-se onde a vontade de viver fracassa.” E não é só isso que se vive no dia a dia do país e da criação? Falo de Criadores, não de oportunistas sem talento algum que empurram o cinema para as imbecilidades “vazias”, na verdade ideológicas da televisão aberta. Ora, é preciso também ver no cinema o lixo que é feito em nome da ideologia de mercado? Uma câmera na mão, a TV no cinema e nada na cabeça.

Talvez os casamentos em geral sejam grandes cemitérios com vermes insepultos já que o humano deixou de pensar, olhar, falar, criar, gozar e se revoltar. Trazemos em nós o confesso cinismo na formação de monstros para ódios privados e guerras públicas. E se se quisesse ter uma religião referencial para o casamento, esta religião chamar-se-ia Dinheiro! Deus de todas as coisas. Assim parece que o mundo está cheio de soldados na defesa da barbárie. O fanático militante partidário também usa o seu fanatismo como virtude. É um imbecil, um fantoche que transformou sua máscara no seu rosto. E que uma vez transformado em personalidade política trairá muitas e muitas vezes, ostentando a sua conversão definitiva a vocação de dejeto humano. E como bem diz o cineminha americano de hoje: sua missão é matar! E não é o que Hollywood nos ensinou nos anos 1980 com Rambo a Robocop? A mensagem nos filmes contemporâneos ambientados no Afeganistão tampouco mudou.

Cabendo ao casamento burguês-conservador-religioso de “celebridades” e jogadores de futebol a desnaturalização humana do espaço do afeto. Então aqui um Banco de investimento. Ali uma vitrine colorida. Mais adiante um câncer. Ao fundo um shopping ao lado da igreja. E daí? A população todos os dias passa pelas mesmas referências para ser explorada no trabalho como escrava. Só se libertando no Carnaval onde tudo é permitido. Mas não seria tragicômico representar nas ruas das cidades peças teatrais sobre o universo bufônico do casamento e do trabalho? Mas para que serve o trabalho que nunca enriquece a quem trabalha verdadeiramente? Que reflexão profunda provoca o trabalho fora a infinita repetição da mesmice humana indo e vindo todos os dias, por anos e anos, até a doença, a loucura ou a morte? E o casamento não se tornou igual?

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Abandonamos nossas paixões por um desprezo a nós mesmos como fazem Carminha e Jandira no nosso delicado Dois Casamentos (Brasil, 2014). Tudo isso se assemelhando a vidas sem expressão alguma. É onde a rigidez se firma como imoralidade, ainda que essencial para o poder. Em suma, todo movimento da terna, linda e criativa Ana Abbott e da fogosa e talentosa Patrícia Niedermeier dentro das imagens do filme, opera-se em invenções complexas desequilibrando nossas tantas e tantas certezas. Substituindo o comercial clichê da novelinha da TV por um ato de ideias imperceptível que rejeita a desossada da comunicação moderna e abrem novos caminhos para o olhar e a poesia. Ou para um melhor entendimento da história do pensamento amoroso. Pouco importa se excêntrico, experimental ou até mesmo conservador detonado pela fecunda imoralidade necessária aos afetos. Afeto sem imoralidade é babaquice da moral conservadora sustentada pela religião e pelas famílias idiotizadas. É preciso definitivamente substituir a costumeira carnificina dos golpes afetivos e das guerras para uma nova arquitetura dos múltiplos movimentos obscenos do desejo, mais que necessários aos verdadeiros encontros amorosos. O de desejar e ser desejado. Desejar ser feliz, transgredir e gozar muuuuito! Isso os padrecos e fundamentalistas não falam. Não gozar como obrigação ou culpa, mas por direito e libertação do bode da moral-religiosa conservadora e reacionária. Apesar disso, na polidez da nossa má formação educacional e sexual, a frieza contundente de nossos sentimentos mais profundos. Olhamos sem saber o que estamos vendo. A mulher e o homem nus sãos as mais belas formas arquitetônicas a serem vividas como uma festa de fusões proibitivas. Talvez as mais belas sobre a Terra.

Da minha parte tentei atravessar a cidade das imagens. Fui criança doente e envelheci sobrecarregado pelo fardo do país real, e não inventado. O país real é grande por fora, e pequeno por dentro. Os negócios, a cidade, a política, as brigas necessárias, o país como um todo… Enrijecidos na luta pela sobrevivência, fechamo-nos para o afeto. E sem uma só substância humana, contextualizamos o Estado-patrão capitalista: “Eis a estetização da política, como a prática do fascismo. O comunismo responde com a politização da arte.” Sábio Benjamin! Mas onde existe hoje a crença na inteligência política dos Partidos, a maior parte deles podres, iguais e vergonhosos? E todos sempre coniventes com toda e qualquer aberração do poder. O criminoso ato do confisco do dinheiro pelo governo Collor, não nos quis dizer alguma coisa? E Partido algum se levantou?

No apreço pelo humano, olho e me deixo olhar através de imagens poéticas imaginadas num só espaço tomado pela escuridão e docemente fotografado por Vinícius Brum. Faço das nossas imagens uma amarga invenção sem explicação alguma. Explicar o quê? Sirvo-me da minha intimidade para me esquecer do que de poético deixamos de fazer aos seres humanos e a criatividade. Uma total inaptidão para possíveis abstrações. E entre a desumanização e a descontinuidade vago pelos espaços da história deformada pela exploração dos que têm contra os que não têm. Do branco sobre o negro. Do homem sobre a mulher. Do adulto sobre a criança, jovens e velhos. Faz-se dos muitos fracassos um eterno recomeçar para nada. Evidencia-se hábitos, e a propriedade privada preenchendo o espetáculo em forma de vigilância organizada pelos “podres poderes” da República. Dá-se uma fórmula duradoura e eficaz ao regime. Ao regime dos privilégios para poucos. E basta trair para ser defendido. É da traição que se alimenta e sobrevive o país.

Mallarmé dizia que toda alma é uma melodia que convém renovar. Ora, é tudo que nunca interessou ao poder que se alimenta da traição e do lixo. Devem pensar:  — Mudar para quê? O tempo nunca foi regulado pelo compasso musical de um Satie, mas sim pela destrutividade de golpes e guerras infindáveis na triste história das civilizações. E “se o nosso amor se revela por vezes sem força, é quase sempre porque somos vítimas do realismo da nossa paixão.” Usa-se então a velha traição como constatação da nossa indiferença pela vida. E nosso único esforço consiste em formular desarmonias. Seja lá onde for, investe-se no desprazer do coletivo.

Confesso-lhes as “minhas obscuras conexões, inalcançáveis para o intelecto”. Mas exteriormente, sou reflexo dessa cidade, desse não-tempo, dessa dança sem música alguma… Dizem os pilantras religiosos: “Bem aventurados os pobres de espírito pois deles será o reino dos céus”. Mas e o aqui e agora? Como bem diz o amigo e poeta Ademir Assunção: “vou olhando olho a olho corpo a corpo/ olho ilhas/ olho dentro de você”. Ora, sem luz imagem alguma é imprimida. Minha peregrinação afetiva nos Dois Casamentos começa na beleza musical e poética de Ana Abbott e Patrícia Niedermeier, e termina em você espectador. Nada deve passar desapercebido. Foi preciso dominar a técnica na reconstrução das palavras, ainda que a política as empobreça como plataforma na sua banalização cotidiana. E foi sempre assim desde a descoberta. Descobriu-se o espaço, mas não o rico movimento musical do ser humano. Porque hoje seria diferente? Basta olhar a triste imagem de todo e qualquer políticos e suas palavras vazias na TV. Pode até não mostrar muito. Mas fede. E tudo que fede nos remete a podridão e a morte. E repetindo: “a vontade de morte instala-se onde a vontade de viver fracassa”.

Ouso dizer que o exibicionismo desagregador do casamento tornou-se o único compromisso frágil com a felicidade. Ontem com o fascismo, hoje com o mal-estar em forma de espetáculo barato. Pena. Dissemina-se humilhações e grosserias na manutenção da empobrecida ordem religiosa. Partido político algum confronta tais aberrações, pois amanhã podem mudar de religião ou Partido. Ou seja, nada é por acaso. O ignóbil uso do sofrimento faz parte da metodologia dos que chegam ao poder. Stalin, Hitler, Pinochet, Médici, Bushão, Bushino, Obama seguem sendo hoje as únicas e pobres referências da política. E muitos cães de guarda ainda os defendem. E o que foi que fizemos da potencialidade amorosa real? Nos habituaram a triste paisagem da mesmice entre o casamento, o dinheiro, a pornografia e a TV. É onde se vai gozar hoje. Não mais o homem com homem, a mulher com a mulher ou o homem com a mulher.

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Me permito louvar aqueles que são poetas, bêbados, marginais, homossexuais, lésbicas, sonhadores ou drogados. Pois bem! Estes sem reputação alguma para os “puristas” da classe dominante é que ainda dão algum sentido respeitável a embriaguez do prazer. O prazer como sonho, vontade e potência. O fim do pudor reacionário. Já a fraqueza dos que traem pouco serve ao amor e ao humor. Sem a arte viveríamos sempre na escuridão, divididos entre a religião embrutecedora e a política dos ladrões que vão para o poder falar em nome do povo. E é preciso contradizer sim, todo tipo de poder. A poesia em forma de orgia purifica muuuuuito mais. Na verdade só a orgia tangencia o corpo indócil do saber profundo. A orgia como revolta criativa e pedagógica. Muito por isso dedicamos nosso trabalho a montagem inovadora e revolucionária de Os Sertões, de José Celso Martinez Corrêa, que fez com Euclides da Cunha o mais belo teatro-filme-ópera dos últimos vinte anos no país.

Para concluir, utilizo as palavras de René Char: “O poema é o amor realizado do desejo que permaneceu desejo.” E é onde a inspiração torna-se sonho. E muitos são os sonhos não realizados. Não tanto por culpa nossa, mas pela pobreza intelectual e a mediocridade fast food que tomou conta das escolas, universidades, sindicatos, Partidos, repartições, dos ministérios e secretarias ligados à cultura. São muitos, e para nada. Fez-se da responsabilidade da criação a harmoniosa essência do fracasso. É onde vai “gozar” a árida pobreza da burocracia. E ainda assim se perpetuam no poder. São os penetras do vazio. E ostentam suas preferências no fedor oficial. Até, de quando em vez, escrevem uns livrinhos para vender uma imagem de que ainda existem. E são uma fonte inesgotável de reafirmação de um fascismo dominante. Nada mais patético que um burocrata querendo ser esperto e expondo verbalmente o seu pobre conceito de cultura. E é só um papelote sujo, malhado.

E na triste comédia dos burocratas. Na minha doce imaginação, o povo os persegue com pedradas como se fossem bestas, porcos ou ratos. Mas realmente, pertencem a uma raça que parece não ter passado pela evolução das espécies. Nada como eliminá-los, pelo menos na nossa imaginação, em movimentos ritmados de paz, gozos e alegria. Deixo-me acalmar embelezado por sonhos proibidos. O coveiro-chefe inicia a escavação do fosso onde todos serão enterrados com os presentes divididos entre a tristeza dos escravos e a indiferença justa dos que ainda pensam. Devo confessar-lhes a minha fogosa alegria em confrontá-los com poesia, estranhezas e afetos. Pois como abutres vivem insensíveis diante da fome, da guerra e do saber. E para eles, a fome e a guerra sempre lhes parece um bom negócio.

Como li uma vez num poema: “Sabemos que a música consumida pelas massas não tem nada a ver com a esfera da arte.” E nem é uma questão de rejeição ao obsceno baixo uso da criação por empresários, políticos, religiosos, Partidos e meios de comunicação. Apenas é preciso admitir que ela é hoje apenas um subproduto como a propaganda ou o papel higiênico. Sua desumanização foi sempre uma questão de interesse político para o poder. Pode-se dizer que o cinema de mercado tipo Crô, A Eguinha Pocotó e Fátima Bernardes, “Alemão”, Xuxa, Edir Macedo, Datena, Daniel Filho e a televisão como um todo são devotos de uma arte humana e criativa? Nem aqui, nem na China. São comerciantes que poderiam estar vendendo qualquer coisa, de banana aos ridículos babilaques anunciados nos programinhas religiosos. Menos conteúdo, pois pertencem a classe de autômatos da reprodutibilidade da ideologia dominante.

Ou seja, voltando a refletir sobre o espaço do casamento e o nosso tempo em Dois Casamentos, não satisfaço uma só necessidade humana palpável neste pequeno e delicado filme. Daí a importância do rico trabalho de Ana Abbott e Patrícia Niedermeier que se permitiram ir com leveza e humor, além do patético ritual da festa, num desempenho raro e invejável de ambas as partes. Brincaram encantatóriamente com seus personagens. Deram muitas expressões poéticas próprias aos anseios das personagens de Carminha e Jandira. E é indizível esse nosso encontro. Uma dádiva, um presente, talvez uma bem aventurança mágica que não precisa ser explicado. Aconteceu! E entre silêncios, conversas e ensaios uma espécie de construção instintiva das palavras do roteiro ao afeto. Patrícia uma leoa faminta de liberdade sem uma causa necessária precisa para mudar. Ana uma espécie de meditação melancólica da vida com o que resolvemos substanciar a sua personagem. Sem medo algum, ambas se deixaram levar por delicadezas e movimentos originais e transgressores. Se Patrícia é a ação sem horizontes, Ana é a graça de uma experimentação suave e melancólica construída na estranheza dos tantos e tantos silêncios de vidas comuns. Mas isso não implica que sejam assim. São referências das suas personagens. E como são solares se proporcionaram atuar com leveza, nos escombros do ritual do casamento. E se é verdade que deus não existe, então somos todos deuses. Ana e Patrícia desencadeiam suas fantasias para não morrerem ante a verdade. Como diz Nietzsche: “O que importa não é a vida eterna, e sim a eterna vivacidade.” E aí as duas são exemplares. Efêmeras certezas solares. Um prêmio afetivo para qualquer filme, peça ou encontro amoroso profundo. Como não amá-las como as cores de um arco-íris passando diante do nosso olhar? Estão anos-luz de distância da televisão que se faz hoje no país. E televisão que poderia também servir a uma melhor formação do nosso povo. De que nos adianta só o espetáculo vazio e a prosperidade econômica? Em que lugar fica o pensar, a sensibilidade e o afeto?

Entre o não-saber, o casamento e lojas vendendo inutilidades, observo a rigidez do aço no rosto das pessoas. Todos se parecem. Nas cidades modernas não se vê mais as estrelas nem se ouve mais o silêncio. E o casamento é só um fenômeno do horror espetacularizado pela moral conservadora da religião, pelo cinema e pela TV. A julgar por essa espiral de desgraças, onde se quis chegar? Décadas e décadas de mau gosto na sifilização-aidética do conforto. Queria explicar melhor o meu desconforto. O nosso desconforto. De minha janela vejo um pássaro num voo oblíquo para morte ao colidir-se com um prédio alto, escuro e feio. Exala um espesso sopro de morte e na pequenez do homem a geometria do gigantismo arquitetônico da culpa e do medo. Tantas são as nossas imperfeições que o belo se tornou inacessível. Tentem ver, mas não se encontrar em Dois Casamentos. Eis tudo com muito amor, respeito pela criação e por você leitor-espectador.

 

Teaser do filme

 

*Fotos: Divulgação/Dois casamentos



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