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Alegoria social e política


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Publicado em 4 de Novembro de 2014

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Domingos de Oliveira tem 77 anos e mal de Parkinson há pelo menos quatorze. Bon vivant, contumaz bebedor de uísque e fumante inveteradoao menos no personagem que criou de si –, o ator, dramaturgo, escritor, cineasta e músico está preocupado com a morte. Não sei se é um medo do inevitável, mas é clara a sua presença no mais recente longa-metragem do diretor, “Infância”.

Em Infância, a morte é presença marcante pela sua quase que total exclusão. Ela se torna o tema central porque o filme a nega na busca do mais primordial viver, na vida antes dos dez anos, nas primeiras ideias sobre o sexo, no encantamento pela professora particular, na curiosidade acerca da malandragem do primo de mesma idade, em suma, em primeiras descobertas. Em uma das iniciais sequências do longa-metragem, o cachorro de estimação de Rodriguinho – o protagonista mirim – morre intoxicado por comer naftalinas. Preocupada com a reação da criança, a família esconde o fato, decerto na tentativa de protelar o primeiro contato de Rodriguinho com a finitude, essa coisa que move nossa vida e o filme.

Domingos de Oliveira, tão presente em muitos de seus filmes, demarcou sua figura de um modo um pouco mais distante em Infância. É um filme sobre ele, como deixa bem claro já nos primeiros frames, quando o próprio Oliveira observa fotos antigas, o que dá impulso ao flashback que contará a história. Domingos mente muito – como ele mesmo já disse em muitas entrevistas -, então não tenhamos a ingenuidade em observar seu último filme como uma cinebiografia de seu passado. Ele está ali, claro, mas o está de forma crítica e, sobretudo, poética.

 

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A partir da morte do animal de estimação, acompanharemos um longo dia no casarão onde Rodriguinho vive com sua mãe (Priscila Rozenbaum), seu pai (Paulo Betti) e a avó (Fernanda Montenegro). A residência é digna de uma aparição em núcleo rico de novela da rede Globo. Montenegro vive dona Mocinha, a matriarca que, bastante dominadora, mantém filhos, genro e neto sob seu total (ou quase) controle. Dona Mocinha é uma espécie de espelho da classe alta carioca, de ontem e hoje. Ela passa todo o dia à espera do momento em que Carlos Lacerda entrará ao vivo no rádio para fazer suas análises acerca da política e para, obviamente, desfiar toda a sorte de críticas ao governo de Getúlio Vargas, destacando o mar de lama em que o palácio do Catete (como era conhecido o palácio do governo, no Rio de Janeiro) havia afundado.  Carlos Lacerda e dona Mocinha estão no filme para nos lembrar que a história se repete como farsa, e para fazer um paralelo muito preciso com o nosso atual momento histórico. Em um dos numerosos diálogos, a personagem de Fernanda Montenegro fala sobre sua ascendência de classe e posses. Ao falar do avô, cita uma anedota familiar, de que “era um homem tão bom que ao final da escravidão, nenhum negro quis ir embora das suas terras”. Não é preciso muito esforço para traçar as linhas que ligam esse discurso às, hoje, incessantes críticas em torno da lei das domésticas e do Bolsa Família, para citar apenas dois exemplos.

Infância é concentrado em apenas um dia, talvez para acentuar o tom de alegoria política e social que o filme apresenta; talvez para marcar o ponto de transformação na vida de Rodriguinho. É como uma obra de formação às avessas, que ao invés de contemplar todo o crescimento intelectual do personagem, ao longo de anos, aponta a origem de tudo.

E por falar em formação, Domingos de Oliveira – como já dito – é um artista multifacetado. Mas é como dramaturgo, acredito, que está sua principal pulsão, pois – antes de tudo – ele é um escritor de falas. Em Infância, nota-se bem isso. Como de costume, Oliveira propõe um texto de grande riqueza, divertido e em alguns momentos até bem inspirado. Do ponto de vista imagético, acaba sendo um longa bem desleixado, com pouca proposição de linguagem. É curioso, aliás, como Domingos pode acreditar tão fortemente na palavra a ponto de deixar câmera e montagem renegados a uma função mais feijão com arroz.

Mesmo assim, há momentos que, no seu desleixo, o filme atinge pontos altos. Tais como a cena final, quando Rodriguinho conversa frente a frente com o próprio Domingos de Oliveira, numa liberdade poética atemporal. Em resumo, Rodriguinho cita alguns autores e artistas fundamentais para a formação de Domingos, tais como Dostoievski – presente em dez de dez de seus filmes. A cada citação, Domingos joga fora uma naftalina. A cada citação, parece que ele aceita mais o tempo, a velhice e a tal morte. E o faz com uma profunda alegria.

 



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