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Adieu au Langage


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Publicado em 3 de Novembro de 2014

Adieu au Langage, de Jean-Luc Godard.

Por favor, me respondam: Quantos filmes em 3D vocês viram na última década? Me respondam também: Quantos filmes em 3D feitos por diretores que aprenderam a fazer cinema vendo cinema, e não TV ou desenho animado, vocês viram em todos os tempos? Bem, este é o cartão de visita de Godard, que volta às telas tão provocante, inquiridor e exuberante como nunca!

Adieu au Langage, vencedor de Cannes junto com Mommy, de Xavier Dolan, vem para dizer que o nosso tempo é agora e que o verdadeiro artista fala de um tempo atemporal, o antes, o agora e o depois. Para Godard é incomunicável a expressão “no meu tempo”… O seu tempo é hoje. É por isso que ele é meta-moderno, para além da pós-modernidade: Alphaville, A Chinesa, O Desprezo, Acossado, Je Vous Salue, Marie, Nossa Música.

Em 2014, Jean-Luc Godard se utiliza do 3D para mostrar ao espectador entontecido, com visão dupla, como funciona essa técnica. Não com linguagem, mas com movimento. Ele vai lá beber na fonte dos linguistas mais renomados, e não por acaso franceses. Dorme com Barthes e transforma seu filme em signo, em uma série de verbetes, como em “O grau zero da escritura”. Chicoteia Sausurre e os seus enjoativos conceitos de significado e significante e nomeia os atos (1, 2, 3, 1 novamente) do seu longa deste modo: “aHdieu!” au langage, etc.

Não é uma história de amor, nem uma história de desamor, apesar do casal central. É simplesmente uma não-história. Uma experimentação visual. Puro cinema.

A metáfora, qualquer que seja, se complica se a decodificamos. Ela persiste em ser metáfora na medida em que se multiplicam as suas interpretações. Por isso, escrever sobre Godard é absolutamente redutor ao que você for ver, ouvir, respirar, quase tocar na sala escura.

Cores eletricamente saturadas, ilusionismo, brincadeiras e jogos de luz, lanterna mágica experimental, o adeus de Godard é um preâmbulo. Foi assim que tudo começou para os nossos olhos, numa cena de um trem que invadia a casa de cinema. É assim que tudo está ciclicamente se repetindo há mais de cem anos.

Pode haver adeus a uma certa linguagem, se essa se resume a uma mensagem de texto do seu celular. No entanto é um adeus que se autodevora, se transforma em nova linguagem. Talvez hoje nunca tenhamos visto tão clara e urgentemente o poder da linguagem, e as deturpações ocasionadas quando não nos comunicamos, ou quando não somos lidos, respondidos. Godard fala a todos nós. Com “Adieu au Langage”, ele manda um mensagen geral: “alô, alô, aquele abraço”. Somos todos jovens e velhos; estamos a testemunhar as mesmas coisas simultaneamente. Leitor, passe esse link para adiante.

Adieu au Langage, de Jean-Luc Godard (França, 2014)

Veja a cobertura completa do London Film Festival 2014



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