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Une Nouvelle Amie


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Publicado em 2 de Novembro de 2014

Une Nouvelle Amie, de François Ozon.

Quanto mais a sociedade endurece, mais a arte martela a sua veia de protesto. Ironicamente o país que gerou o mote “Igualdade, fraternidade e liberdade” vive uma onda de manisfestações católicas contra a legalização do casamento gay e é debaixo desse guarda-chuva que o mais recente filme de François Ozon, Une Nouvelle Amie tentará se proteger, na estreia nacional em novembro. Baseado num conto, a adaptação livre prima por originalidade e humor já típicos de Ozon, nesse enredo que se inicia com a amizade forte entre duas meninas e se desenvolve com o relacionamento entre uma delas (Anaïs Demoustier) e o marido da outra (Romain Duris), que acabará por se transformar em Victoria, um trans.

Ozon vai na contramão de uma tradição francesa, a saber a verborrágica, e parte com uma sequência longa sem diálogos mostrando o passar dos anos na vida das duas amigas, Claire e Laura (Isilde Le Besco). Isso quem nos ensinou foi Hitchcock na sequência inicial de Janela indiscreta. Dizem que este Une Nouvelle Amie tem pitadas hitchcockianas, citações, por exemplo, na parte que o próprio diretor faz, ao entrar num cinema e bolinar Victoria; porém, discordo. Se devemos dialogar, que conversemos com o primeiro Almodóvar, aquele de “Labirinto das paixões”, ou mesmo os curtas de estreia do espanhol.

“Somos as vítimas e os culpados”, diz Victoria, e num melodrama atenuado em Paris, desejos reprimidos vêm à tona, transbordam as trincheiras, desafiam, divertem.

A trilha sonora de breguices francesas dos anos 70 e 80, mais uma nota de Philippe Rombi, colaborador de Ozon também em Swimming Pool – À Beira da Piscina (2003), semelhante à Philip Glass, preenche os espaços melodramáticos, tristes, trágicos, risíveis, ridículos. Lembra-se do quadro dos transformistas do “Programa do Bolinha”? Ozon dá uma requintada com Channel número 5 nele.

Em sua melhor forma desde Sob a Areia, Ozon me confessa no tapete vermelho em Leicester Square que ele não dá espaço à improvisação e que sua adaptação é livre, pois o texto original era pequeno. Quer dizer, resgatando o cinema de autor, imprimindo seu estilo inconfundível, esse é mais um daqueles casos em que se o sucesso vier, os louros serão apenas do diretor; mas se o fracasso bater à porta, idem. Não penso em fracasso: ou será que a reedição francesa da Marcha da Família com Deus pela Liberdade atravancará os artistas e os amantes da Pont Neuf?

Une Nouvelle Amie, de François Ozon (França, 2014)

Veja a cobertura completa do London Film Festival 2014



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