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O Duque de Burgundy


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Publicado em 2 de Novembro de 2014

The Duke of Burgundy, de Peter Strickland.

O novo longa de Peter Strickland (Berberian Sound System) explora um mundo romântico absolutamente feminino com nuanças de sado-masoquismo. Expressando assim, pode dar a entender que se trata de um filme violento, composto de saltos-altos, chicotes e algemas, mas não. As texturas e sutilezas da trama são singelamente emaranhadas e repetidas, dando um certo trabalho ao cinematógrafo inglês Nic Knowland, com quem bati um papo depois de uma sessão na London Film School.

Cynthia (Sidse Babett Knudsen) entra no jogo SM da amante, Evelyn (Chiara d’Anna) como a rainha de gelo, a Dominatrix, que submete a criada aos mais baixos caprichos e olhares desprezíveis. Entre as variáveis de fetichismo e voyeurismo, a câmera vai fazendo um passeio na intimidade dessas mulheres como a inquirir onde está o obscuro ponto G. De fato, há uma cena, descrita por Nic, cujas rubricas eram exatamente estas: “A câmera desaparece entre as pernas”, para então se abrir numa série de dinâmicas mais alegres, mais iluminadas, entre as duas.
Certamente que para as interpretações notáveis e o roteiro minucioso, filmado em Budapeste, foi necessário um cuidado atentíssimo para a cinematografia. Nic diz que é avesso aos storyboards e que cria muito durante os ensaios. Para compor “The duke of Burgundy”, ele rejeitou o digital e criou tudo com lentes e espelhos, abusando dos zooms, porque era necessário uma velocidade mais lenta, mais penetrante no universo escondido e nada óbvio da feminilidade. Ele ressalta que desse modo o filme pode ser mais orgânico e mostrar de perto os detalhes das atrizes, as texturas das lingeries envolvidas em sabão, as cores dos azulejos do banheiro, as franginhas da colcha na cama.

O Duque de Burgundy se torna mesmo uma aula aos cinéfilos, aos obcecados pela luz ideal, natural (ou não), que será cúmplice dessa história de amor cujo limite é um código que libertará (ou não) as personagens de suas taras. À medida que os jogos de role play vão se intensificando e repetindo, o espectador pode acompanhar o que não vai bem nessa dinâmica, o que está super-saturado. E aí então estará no campo da vida pública dessas personagens, que são biólogas especializadas em borboletas. Numa das conferências a que as duas comparecem, há apenas mulheres entre a plateia. Minto: mulheres e manequins, bonecas mesmo. É uma referência a outro filme sem dúvida, do qual Nic não se lembrou, mas também a contos como “O homem de areia” de E.T.A. Hoffmann. A boneca, ou mais modernamente, o avatar, é a segunda pele dessa borboleta, que é toda mulher em sua mais íntima sexualidade. Para isso, então, Nic pensou numa câmera mais subjetiva e aproveitou a luz natural das janelas.

Peter trabalha dando certa liberdade e tempo aos atores. O primeiro corte, por exemplo, foi após 20 minutos. Isso gera para nós uma agonia mais apaixonada, intensa e verdadeira do que ele quer nos contar de um modo mundanamente universal.

O Duque de Burgundy (The Duke of Burgundy, Reino Unido, 2014)

Veja a cobertura completa do London Film Festival 2014



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