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White God


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Publicado em 22 de Outubro de 2014

White God, de Kornél Mundruczó.

Que tipo de filme é este, que conquistou o prêmio Un Certain Regard em Cannes e que tem no elenco mais de cem cachorros? Trata-se de uma história bizarra, ambientada em Budapeste, de uma menina e seu cão, Hagen. A sequência inicial, que será repetida num outro momento, é uma fantasmagórica imagem de uma menina correndo de bicicleta e sendo perseguida por centenas de cães. Lá para a frente, vamos reenquadrar essa cena ao lendário conto do flautista de Hamelin, só que em vez de ratos temos cães.

O diretor húngaro Kornél Mundruczó desenvolveu um thriler de vingança da natureza, que sofre maus-tratos, contra o homem. (Semelhanças com Os Pássaros também são válidas.) As filmagens duraram 60 dias, dos quais 45 foram gastos filmando cães. Disse-me o diretor que “eles eram as verdadeiras estrelas e que tudo era dimensionado para o tempo deles”. Então, houve longas pausas para o descanso e para alimentação dos animais. As sugestões de maus-tratos a eles foram todas forjadas, esclarece uma mensagem nos créditos iniciais e finais. O mecanismo de se filmar tantos animais juntos a uma criança baseou-se na cooperação e na separação deles em grupos menores. Cada grupo tinha um líder. E assim eles puderam filmar nas ruas, com uma equipe fantástica que cercava e vigiava o cenário incessantemente.

Na verdade, o título White God, que brinca com o terno “dog”, recai sob a perspectiva do cão, que age como se questionasse a supremacia humana e branca na face da Terra.

O roteiro teve de ser modificado inúmeras vezes à medida que a equipe se dava conta do que os cachorros poderiam ou não realizar, como truques e habilidades. E é notável a pesquisa de pré-produção, consultando vídeos sobre brigas entre cães, adestramentos e associações protetoras de animais.

Mas não são apenas os bichos que comovem o público; também a empática Lili, dona de Hagen e flautista, que de uma hora para a outra é obrigada a passar as férias com o pai, com quem parece ter uma relação distante. O pai não nutre nenhuma simpatia pelo animal doméstico e acaba abandonando-o no meio da estrada.

A metáfora de onipotência humana é o mote que conduzirá às cenas finais de horror e suspense. Creio que para os distribuidores internacionais divulgar White God seja um desafio, porque o roteiro é quase único. E na sua unicidade, surpreende.

White God, de Kornél Mundruczó (Fehér Isten, Hungria / Alemanha / Suécia, 2014)

Veja a cobertura completa do London Film Festival 2014



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