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Pasolini


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Publicado em 16 de Outubro de 2014

Pasolini, de Abel Ferrara.

Não poderia ser de outro modo. O Pasolini de Abel Ferrara (Vício Frenético) aporta no Reino Unido, tendo vindo do Festival de Veneza, com o mesmo selo polêmico do escritor. Ame-me ou odeie-me. Não há meio-termo possível, não se pode ficar em cima do muro com relação a Pier Paolo Pasolini.

Ferrara conta os últimos dias de vida de Pasolini, quando estava sendo massacrado na Itália pelo seu Saló ou os 120 Dias de Sodoma, cujas cenas de orgia indignaram a cidade-sede da Igreja Católica, e ao mesmo tempo tinha conquistado um prestígio internacional por sua verve marxista e crença na revolução, na busca do verdadeiro, puro, ingênuo homem do campo, aquele único ser capaz de levar adiante as transformações necessárias à política e à sociedade. Voltando ao conto de Ferrara, porém, personificado por Willem Dafoe como o homem-título, a opção foi por fragmentar esteticamente a vida de Pasolini nos anos 70, evidenciando seu incansável trottoir entre a aristocracia italiana e os meninos da periferia.

Nesse trânsito confuso, repleto de sinais fechados, Ferrara desperta uma não-linearidade, um caminhar errante, que estranha aos espectadores mais comuns. Por onde seguir? Onde este atalho vai dar? E assim o espectador acaba vivendo mesmo a experiência intrínseca, boba e ao mesmo tempo sublime do verdadeiro cinema. Ou seja: ele vai cegamente por onde o diretor quer que ele caminhe. Ele só vê o que o diretor deseja, só sabe o que o diretor deseja, só reaje ao que o diretor deseja. O cinema é uma experiência que se vive às escuras, concreta e abstratamente.

Num certo sentido, sendo jogado ao sinestésico das relações sexuais cruas na tela e ao apolíneo jogo de palavras reconstruídas na última entrevista de Pasolini à TV, estamos à beira de um precipício, nesta recriação entre a arte e a política. Vertiginosamente, somos expostos aos closes e ver o todo, quer se trate de Andreotti ou das putas lésbicas, é no mínimo desorientador. Como toda húbris, há que se aceitar o curso veloz da história, o fluxo descendente da humanidade.

Este Pasolini é como toda anterior criação do escritor: há que se pagar o preço alto da consciência. E voltar, se for possível. Contar aos outros a experiência talvez seja inútil; vivê-la é essencial.

Pasolini, de Abel Ferrara (França / Bélgica / Itália, 2014)

Veja a cobertura completa do London Film Festival 2014



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