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Mr. Turner


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Publicado em 16 de Outubro de 2014

Mr. Turner, de Mike Leigh.

O último de Mike Leigh (Nu, O Segredo de Vera Drake), cineasta engajado à esquerda do Reino Unido, é uma biografia cansativa do pintor J. M. W. Turner, interpretado por Timothy Spall. Tendo estreiado em Cannes, o filme agora vem para o Reino Unido, já com distribuição internacional.

Leigh e seu diretor de arte, Dan Taylor, em suas primeiras tomadas, buscam um jogo de luz e sombra que persegue as telas de Turner. Entretanto, Leigh não é Greenaway e sua busca acaba se diluindo em cópia de imagem fixa a imagem em movimento. Vez por outra, porém, esse recurso engloba o que o cinema pode trazer de único e em oposição à pintura, que é a passagem de uma cena a outra, misturando e confundindo as paisagens. Por exemplo, num momento em que Turner pinta velozmente, salpicando a tela cinza de cuspe, e na cena seguinte a tela se transforma em paisagem real, um relevo de pedras cinzas.

O filme é marcado por momentos de humor tipicamente inglês que testemunham a inabilidade do pintor na arte da oratória, ao se atrever a cantar ao lado de uma pianista e aos seus repetitivos resmungos. Parece que Turner, como homem, é um ser inerte e impossível de se transformar; ele é apenas um ágil observador de paisagens e pássaros, mas pouco afeto aos retratos e às pessoas. O seu registro é a captura da distinção entre o nascer do sol e o poente. Como retratar essa diferença?

Timothy conquista por sua teimosia, sua insistência, reflexo da produção imensamente vasta do pintor. Assim, teimosamente insistindo em não se relacionar com sua primeira mulher e filhos, a contenção da teimosia escapa num movimento de mãos juntas às suas próprias costas. É um tormento que vai desaguar, cenas depois, num choro-gozo num quarto de prostituta.

Mr. Turner não se detém muito em fazer um retrato da época. As referências ao século passado se apoiam exclusivamente nas excentricidades dos personagens, na da criada-amante coxa e ignorante, na de seus contemporâneos colegas de Academia, nos habitantes do litoral. Creio isso baste, porque, como já ressaltamos, o que interessava a Turner eram as paisagens, não as pessoas.

Se você como eu é fã de Turner, vale a pena ir ao cinema. Não espere exasperações e achados incríveis no enredo. Aja como o próprio pintor, ao se fazer passar por Ulisses amarrado ao barco. Entregue-se à tempestade no mar de modo contido. Deixe passar as ondas mais furiosas e testemunhe a soberania da natureza.

Mr. Turner, de Mike Leigh (Reino Unido, 2014)

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