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Casa Grande


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Publicado em 15 de Outubro de 2014

Casa Grande, de Fellipe Gamarano Barbosa.

Bem, não é todo dia que se sai de uma sala de cinema e animadamente começa-se a conversar sobre as questões socioculturais brasileiras à luz de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, com estrangeiros que estiveram uma só vez no Brasil. Só por ter incitado esse debate, Felipe Barbosa merece meus cumprimentos.

Bem-recebido, portanto, pela crítica em Londres, Casa Grande não se restringe ao gênero classificado na revistinha do Festival, a saber, “Amor”, mas sobretudo almeja borrifar um estado de coisas que compõem a complexa sociedade contemporânea brasileira. Não é um documentário; antes, tem laivos de comédia. É um filme que discute as heranças do sistema escravagista por medidas como a instalação do sistema de quotas na universidade, sem tomar partido, mas apenas ressoando as vozes contraditórias de personagens como o pai de família de classe média falido (Marcello Novaes) e a namoradinha de seu filho (Bruna Amaya).

Se é para nós brasileiros complicada a auto-análise inserida nesta sociedade contraditória, onde ainda existem os elevadores de serviço e social para separar as classes no condomínio, imagine para um estrangeiro, acostumado às imagens neo-libertárias do Carnaval do Rio.

De quebra, o diretor-roteirista ainda insere na trama o nosso grande ritual para a vida adulta: o vestibular. Sim, comparo o nosso vestibular aos rituais indígenas de passagem da adolescência para a vida adulta, pois se sabe que ao jovem que negligenciar essa imposição lhe serão feitas cobranças.

Rebatendo na práxis de mesclar atores profissionais – até globais – com não-atores, tradição que vem de 5 Vezes Favela e angaria louros com Cidade de Deus, o longa abre espaço à improvisação. A meu ver, é sempre melhor deixar a porta aberta do estúdio e se surpreender do que dirigir com mão-de-ferro. Há belezas que só entram se inadvertidas.

Não se pode, porém, esquecer que esse é o filme de estreia de Barbosa, o que gera mais curiosidade do que cobrança. Ainda lhe falta uma prática da estética do cinema, onde nada que surge na tela deve ser por acaso, que seja insistente. Aqui apenas vi em algumas cenas, como na primeira vez que a câmera apreende a placa do motel ao lado da casa grande, ou mesmo na cena inicial, que revela o casal de empregados chegando para trabalhar juntos.

Um capítulo à parte eu poderia dedicar à filha de classe média, Nathalie (Alice Melo), a verdadeira infante da história, pois que sem voz. Então, ocorre ainda em certas famílias que a filha mulher, não primogênita, lhe seja encarregado o papel de indiferença. Naquela mesa de café-da-manhã, o que importam são os passos do filho, Jean (Thales Cavalcanti), sejam esses referentes ao seu desempenho escolar ou às aventuras românticas. O pai lhe questiona sobre as “pegadas na balada”; a empregada mais velha lhe argúe com o olhar sobre as suas escapadas ao quarto da mulata.

Vida longa a essa nova geração de cineastas brasileiros!

Casa Grande, de Fellipe Gamarano Barbosa (Brasil, 2014)

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2014

Veja a cobertura completa do London Film Festival 2014



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