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Pessoas-Pássaro


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Publicado em 29 de Setembro de 2014

Pessoas-Pássaro, de Pascale Ferran.

“Personne”, em francês, significa tanto “pessoa”, quanto “ninguém”. Audreuy e Gary Newman aludem ao duplo sentido da palavra, opostos entre si, quando saem do elevador, já próximo ao fim de Pessoas-Pássaro. E qual seria o contrário do contrário, pergunta Gary? Andrey responde “igual” ou “semelhante”: pois o filme de Pascale Ferran trata justamente da possibilidade do encontro entre semelhantes tão diferentes.

Pessoas-Pássaro na sequência em que perscruta os passageiros do metrô. O quê uma diz ao celular, o quê outro escuta no fone de ouvido, a discussão de um grupo de jovens sobre a Revolução Cubana, os pensamentos de uma mulher sobre a noite de amor que teve. O procedimento remete aos anjos de Wim Wenders em Asas do Desejo, que “ouviam” os anseios e os desejos mais íntimos dos humanos que observavam. A jornada de Ferran termina em Audrey, que raciocina quanto tempo de viagem gasta por semana até o hotel Hilton, onde trabalha de camareira.

O Hilton fica ao lado do aeroporto Charles de Gaulle, de onde Gary observa os aviões decolarem da janela de seu quarto. Ele veio a Paris por apenas um dia, pois está de viagem marcada para Dubai. No entanto, como anuncia o narrador que Pascale Ferran introduz para nos lembrar que estamos diante de uma narrativa cinematográfica, Gary tomou uma decisão que mudará sua vida: ele larga o emprego, a esposa, os filhos, vende suas ações na companhia e permanece na Europa. Um norte-americano perdido em uma cultura estranha, imerso em um quarto de hotel, são os únicos pontos de contato que Pessoas-Pássaro mantêm com Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, já que Pascale Ferran não procura o exótico. Há o tédio, sim, Gary está cansado e não aguenta mais, contudo o filme recusa explicações fáceis para a decisão súbita do personagem. Ele somente achou por bem deixar tudo para trás.

Pessoas-Pássaro se divide em duas partes. Na primeira, acompanha a decisão de Gary que, longe de resolver seus problemas, cria um sem-número de outros. Pascale Ferran segue na contramão e, ao invés de mostrar os prazeres da recém-conquistada liberdade, concentra-se nas dificuldades do personagem em simplesmente largar tudo. Ele tem que ligar para os sócios, para o advogado, para a esposa. Seus atos geram consequências indesejáveis a ele e aos outros. Seja no telefone do hotel, no celular ou no laptop, Gary está sempre conectado com aqueles a quem deseja abandonar.

Na segunda parte, Pessoas-Pássaro segue Audrey que, embora trabalhe no Hilton, quase não mantém contato social. Ela largou a faculdade, rompeu com o namorado, conversa esporadicamente com o pai, e quando a única amiga a convida para festas, Audrey prefere dobrar no serviço. Preocupada com o tempo, sempre a olhar para os relógios, os pássaros a fascinam: a liberdade do voo, o “deixar tudo para trás” de Gary.

Em momento de rara ousadia no cinema, Audrey efetivamente se transforma em pardal (o “devir-pássaro” de Audrey, segundo Gilles Deleuze). No início, a Audrey-Pardal “experimenta” seus novos poderes como nos filmes de super-heróis: ela voa por fora do Hilton e sobre o aeroporto Charles de Gaulle, observa os conhecidos anonimamente, é desenhada. Os novos ângulos com que vê o mundo lhe parecem bizarros. Ela, contudo, não se transforma de volta a princípio, e perde aos poucos o contato com o humano que restava, até esquecer a linguagem e se unir aos outros pardais na natureza. A revoada de pássaros é o primeiro momento em que Audrey não está solitária.

Mas Audrey retorna à forma humana e encontra Gary Newman. Eles são contrários, mas iguais, em suas procuras por liberdade e companhia.

Pessoas-Pássaro, de Pascale Ferran (Bird People, França, 2014)

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2014



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