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Os Cantos da Terra Verde


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Publicado em 3 de Maio de 2014

cantodaterraverde

“Em arte a gente precisa se jogar no abismo. É preferível fracassar duma vez a permanecer no cuidado da mediocridade.” 

Mário de Andrade

 

 

O olhar persistente na procura do belo, extravasa-se em sonhos, momentos, tempos, espaços, sons, ideias e imagens. Mas por que criar imagens complexas e profundas? Navega-se por mares nunca dantes navegados. O cinema pensado não afirma nada. Ao contrário perde-se numa infinidade de tempos complexos, e o seu coração é sim o nosso olhar. E entre transgressões e a poesia o seu lento movimento alimentando-se de sonhos. Ainda que sempre traído pelas leis do mercado, das burocracias, festivais e a política oficial, ele volta mais forte, ousado e profundo. Sua grande qualidade é a resistência à constante violência do capital. A sua história é um pouco a história de todos nós.

Ilimitado como invenção, vivência experiências e rituais. Ora, se “o desejo é a criação do mundo”, o cinema é sim uma nobre exigência da poesia. Refiro-me, então, ao encantamento necessário para se suportar o estilo das comédias televisivas levadas para as salas de cinema. E se a realidade é uma constante negação do prazer, é só o que deveria se procurar no mundo das imagens-pensadas. Digamos que o cinema são múltiplos caminhos em movimentos permanentes. Isso me parece interessante: o cinema como passagem do lixo para o belo e ousado.

Filmar é confrontar os tantos horrores sociais e políticos, para melhor entender o infantilismo político das nações. Aí então, o cinema se torna mais significativo porque não sabe fingir. Ou é descaradamente comercial ao lado do capital e sua ideologia, ou é o desejo de lapidação poética da alma humana. Permanentemente reconstruído por governos incompetentes, a nós só serve como significação poética. Sem nexo, longínquo, criativo, mágico… consegue nos fazer pensar. Sóbrio quando necessário aproxima-nos da morte. No seu desassossego está a nossa embriaguez.

Digamos que no mundo atual, o fazer imagens não é mais “isto ou aquilo”, mas uma multiplicidade de tendências de Sergio Santeiro a Ricardo Miranda passando por Gabriel Bilig, Andrea Prado, Renato Coelho, Leonardo Esteves, Cavi Borges, Isabel Lacerda. Numa sucessão de ideias o que nos interessa é o infinito aprendizado do experimental. Da depuração do risco de não ser entendido ou aceito, e do pobre raciocínio afirmativo do saber pelo saber. E na plenitude do não-sentido (televisivo ou jornalístico) estão as entranhas de muitas vidas iluminadas numa comunhão com a necessária violação do real. Ou seja, a nossa melhor expressão não é a unidade da bobagem da TV, mas as metáforas e fragmentos. A pluralidade real como meta.

No filme Os Cantos da Terra Verde, o tempo marca pelo que vai mostrando, mas também pelo que não mostra. É na sua fragmentação visível que o cinema se faz presente provocando diferenças e entendimentos complexos. Compreender o movimento de imagens-pensadas requer um certo saber. Entre o mercado e a criação, o cinema se debate entre  a estranheza de filmes blockbusters e a compreensibilidade de muitas das nossas contradições. Chegamos ao dilatado movimento poético de um velho trem cortando a cidade de Cataguases, terra do mestre Humberto Mauro.

O trem se movimenta na legitimidade de um tempo diferente e pessoal. Gabriel Bilig não o quis mostrar como sempre é visto no cinema: correndo! Suas imagens dilatadas são o resultado de uma investigação do realizador que aceita o lento movimento das imagens como substância narrativa. O espectador vive então as possibilidades de uma outra análise do tempo. E que talvez seja o tempo real de todos nós: a de se viver num país sem invenção alguma.

Os Cantos da Terra Verde aproxima-se do cinema de Marcelo Ikeda e Straub, convidando o espectador a uma interioridade estranha ainda que ousada e singular. Ora, o que é a imagem-tempo dilatada? Por que nos angustia tanto a sua presença assumida? Gabriel Bilig talvez seja sim, um novo olhar na linguagem do nosso documentário, pois ao não afirmar o que seja, deixa-se levar pelo lado invisível do visível. E não seria isso uma nova compreensão do cinema moderno? É o tempo. É o trem. Mas é também o espectador e suas tantas estranhezas frente ao que é, mas a presença da dilatação o incomoda. No Brasil, vivemos todos a dilatação política da mesmice. Não é a mesma coisa?

O filme Os Cantos da Terra Verde, de Gabriel Bilig, é sim uma presença e observação criativa do tempo, tornando-o significativo e estranho para nós espectadores condicionados pelo pobre espetáculo do Eu! O eu de Fátima Bernardes. O eu do senhor Datena. O eu do senhores Pastores Evangélicos e suas traquitandas verbais-religiosas. Eus familiarizados com impessoalidade de vidas comuns, manipuláveis pela culpa, pelo medo e pelo dinheiro. Ora, a TV não só trabalha o gigantismo histérico de tempo igual e congelado? Como explicar as tantas boçalidades de produções onde todos se parecem? Mas é a auto-exibição de corpos sarados que levará “atores” às futuras novelas e às revistinhas de celebridades. São décadas e décadas de despolitização real pelo olhar.

O trem que corta a cidade de Cataguases, vai por um outro registro como legitimação de um tempo dilatado: o tempo do entendimento do movimento e da vida. Tempo que nos remete a uma certa inquietação nos transmitindo as estranhezas de um espaço aparentemente pequeno e pobre: a cidade, as pessoas, o comércio, a pobreza e as casas. E, onde o trem que leva todo nosso minério, é o que coloca algum tipo de história e questionamento. Vai o minério, mas permanece o tempo in-finito da nossa alienação. Pena.



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