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Clube de compras Dallas


Por

Publicado em 3 de Maio de 2014

Dallas_Buyers_Club

 

Life’s but a walking shadow, a poor player

That struts and frets his our upon the stage

And then is heard no more: it is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing.”

(Shakespeare, Macbeth, Act V, Scene V, Macbeth’s lines, p. 1053)

 
Dallas, Texas. Home of the brave. Corre o ano de 1985 e o adorável trapaceiro Ron Woodroof (em performance admirável de Matthew McConaughey) vive a vida como se não houvesse amanhã. Um cowboy contemporâneo e indomável, machista e politicamente incorreto. Acima de tudo, leal. A si mesmo e às suas convicções, além de aos amigos. Pleno de defeitos – e qualidades -, como só um ser humano pode ser. Um homem.

Mas aqueles eram tempos difíceis, em que o mundo se viu diante de uma nova epidemia, devastadora: o vírus HIV. A praga moral. Doentes desenganados, definhando até a morte. A transmissão por via sexual e por compartilhamento de seringas deu início a uma espécie de cruzada moralista. Homossexuais e promíscuos foram os primeiros a serem contaminados, além dos usuários de drogas injetáveis. Blame it on them, era o pensamento não confessado da maioria puritana.

O único tratamento disponível (autorizado pela Food and Drug Administration) era com AZT, uma nova droga, utilizada ainda em caráter experimental. Mas esse tratamento era potencialmente iatrogênico, uma vez que, na dose então protocolarmente administrada, destruía as células sãs juntamente com as contaminadas pelo vírus. Mas Ron Woodroof, apesar de desenganado pelo saber médico, não é homem de se deixar abater e sai em campo buscando outras – heterodoxas – formas de tratamento.

A morte, para ele, não é perspectiva a ser encarada com resignação. Ele deseja ardentemente a vida, e luta por e com ela. Sem trégua nem rendição. A batalha se trava longe da assepsia do ambiente médico-hospitalar e os fins parecem justificar os meios – assim acredita esse homem com pouca instrução e muita fibra. Mas o desejo sempre está para além do que é correto e/ou conforme.

Em seu afã pela sobrevivência, seus caminhos se cruzam com os do travesti Rayon (Jared Leto, em atuação memorável). Essa dupla improvável une esforços e funda um clube de adesões – se não têm autorização para comercializar novas drogas (de resto, contrabandeadas), ao menos podem cobrar uma mensalidade e dispensar medicamentos todavia não reconhecidos como legítimos. A decisão cabe ao cliente – estamos na América, berço do self-made man.

Ron Woodroof sai pelo mundo em busca de algo que traga alguma esperança e alento aos portadores do temível vírus HIV. Seu empreendimento se torna bem sucedido e ele sobrevive por sete anos, apesar do sombrio prognóstico inicial de apenas trinta dias de vida. Já Rayon não tem a mesma sorte e é consumido pela AIDS. Vai ao encontro da morte como se fosse ao do grande amor: tecendo um véu de frágil beleza – etérea, andrógina – em torno da face pétrea da morte, máscara eterna e fatal.

A sequência final do filme remete à primeira, com uma diferença substancial: se antes o nosso anti-herói era o apostador do rodeio, faturando – ou não – através do risco de outro, agora é ele que está no centro da arena. Sabe que só tem oito segundos. E aposta o que já está perdido.

Talvez o rodeio seja apenas uma metáfora para a vida: é preciso segurar firme, aguentar o tranco e aproveitar o tempo que nos é concedido. Trata-se de nada menos que domar a besta, a grande vencedora. A vida é xucra, só há repouso na sua ausência.

Dallas buyers club (EUA, 2013) não deixa de ser uma espécie ode arrevesada à vida. Ali mesmo onde esta encontra a sua fronteira, também faz valer a sua potência. Nem que seja por alguns – incontáveis – segundos. Enjoy the ride.

 

Trailer

 

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1 Commentário sobre 'Clube de compras Dallas'

  1.  
    Maysa

    3 Maio, 2014| 3:38 pm


     

    Boa crítica.

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