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Cinema sacana à brasileira


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Publicado em 3 de Maio de 2014

pornochanchada

 

O sexo no cinema nacional acumula há anos uma longa história de marginalidade construída por cineastas, produtores e pelo público que consumia esses filmes. Data de 1898 o primeiro registro de filmes de sexo explícito. Desde então tornou-se um negócio lucrativo. O sucesso foi total. Talvez, essa data seja a mais confiável porque é da primeira exibição de filme explicito no país. Gonçalo Jr., no livro Benício – um perfil do mestre das pin-ups e dos cartazes de cinema, diz: “A coisa era mais antiga do que se podia imaginar… o italiano Paschoal Segreto trouxe para o país o chamado ‘filme de sacanagem’. Envolvido em negócios ilícitos até a medula, Segreto conseguia sobreviver com agrados a políticos e ao chefe da polícia da época. Segreto era empresário do ramo de filmes e tinha uma atuação de destaque na indústria do entretenimento no Rio de Janeiro. Por causa da igreja, cinemas voltados para este tipo de filme só funcionaram até o final da década de 1910. A alegação era que este tipo de filme destruía os valores da família cristã”.

E o que acontece quando toma-se gosto pelo que é proibido? A clandestinidade, obviamente. Por esta razão, provavelmente, não há nada documentado em filme.  Com sutileza, o erotismo voltou a se infiltrar no circuito comercial na década de 1940. Com a chegada da censura, a “sacanagem” foi banida do cinema brasileiro. O máximo que podia exibir era o nu, mas tinha que ser rápido e incompleto – um seio de cada vez, por exemplo. No fim dos anos de 1950, Carlos Zéfiro promoveu uma revolução sexual e cultural com os seus quadrinhos, conhecidos popularmente como catecismos eróticos. Ainda no Rio, o empresário Osíris Parcifal de Figueroa começou a exibir filmes “picantes”.

Europa à Noite exibido em 1959, serviu de referência para desencadear uma onda de striptease no circuito marginal brasileiro. O modismo nacional não é somente um fenômeno atual, marca seu passado histórico e, como tudo, não demorou muito para que os cineastas começassem a produzir filmes com stripteases, o que acabou virando uma febre entre cineastas, produtores e para os espectadores.

A produção pioneira foi a chanchada Comendo de Colher de 1959, do carioca Alcebíades “Al” Ghiu, com a atriz e dançarina Luz Del Fuego (um ícone sexual). Em São Paulo, Ody Fraga estreia na direção com Vidas Nuas, mas o filme fica incompleto e é comprado por Antonio Polo Galante e Alfredo Palácios com o propósito de incluir cenas de strip. Lançado cinco anos depois, o filme levou mais de um milhão de pessoas ao cinema em 1967. O enxerto funcionou e deu sequência a uma série de ações deste tipo especialmente na Boca do Lixo de São Paulo e na cidade do Rio de Janeiro, com Nilo Machado, distribuidor independente que comprava filmes inacabados, enxertava cenas de striptease e os lançava como se fossem seus. Nilo reivindicava para si o título de precursor da técnica do enxerto de strip no Brasil. O distribuidor  se autoproclamava “o rei do striptease”. Com o sucesso, decidiu dirigir dois longas-metragens A Psicose de Laurindo e Aconteceu no Maracanã.

Esse tipo de cinema aguentou firme no cinema durante toda a década de 1960 – mesmo com o golpe empresarial-militar em 1964. O público ia assistir aos filmes na certeza de ver uma mulher pelada. Isso durou até 1973. Cineastas como Walter Hugo Khouri e Domingos de Oliveira dirigiram filmes em que o sexo começava a aparecer como tema de reflexão. Khouri fez Corpo Ardente, de 1966, e Domingos, Todas as Mulheres do Mundo, de 1967.

Em tempos sem internet, revistas masculinas mais tímidas do que as de culinária e pouca oferta de sexo na televisão, faz com que imaginemos o quando o público era ávido por cenas mais explícitas. Era uma catarse. Depois veio a liberação total dos costumes – nu frontal em fotografias e nos filmes. Daí uma série de produções que marcam a pornô chanchada nacional: O Mago Do Sexo, As Ninfetas do Sexo Ardente, Os Lobos do Sexo Explícito, O Jumento Gozador, Pic Nic do Sexo, Noite dos Bacanais, Euforia Sexual, Come Tudo, Meu Cachorro, Meu Amante, Aguenta Tesão, Duas Mulheres e Um Pônei, Boca Quente – Quando a Boca Engole Tudo, Quatro Noivas Para Sete Orgasmos, Turbilhão dos Prazeres, Gemidos & Sussurros. Estes são títulos que correspondem à época de ouro do cinema de sexo explícito. Esse período, 1982 a 1990, é o que faz repercutir, ainda hoje, o estigma de que filme brasileiro não é bom, é mal feito, é sacana.

Apesar de ainda não falarmos de nosso país e de seus personagens mais típicos como fazem os cineastas argentinos, o cinema brasileiro não está mais sob aquele velho estigma. Desde a década de 1990 houve uma retomada da produção e de novas narrativas, além de investimento na qualidade técnica das obras cinematográficas. O Brasil ainda não é o país do futuro, imaginado pelo austríaco Stefan Zweig, mas seu cinema contemporâneo enquadra nosso tempo presente.

 

#foto: cena de A super fêmea (1973), com Vera Fischer.



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