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O Desconhecido Conhecido


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Publicado em 7 de Abril de 2014

O Desconhecido Conhecido, de Errol Morris.

(Londres, Moviola) – Enquanto no Brasil correm soltos os protestos contra a Copa do Mundo e os inúmeros posts nas mídia sociais sobre o direito de ser mulher e de usufruir de seu próprio corpo sem provocar os estupradores, em Londres acontece o Human Rights Watch Film Festival. Foram 10 dias em março, em que se discutiram temas como direitos dos imigrantes, direitos da comunidade LGBT e conflitos armados nos países árabes. Um dos destaques do festival, no entanto, parece não tocar diretamente nesses temas, mas é apenas impressão. Trata-se do documentário O Desconhecido Conhecido, de Errol Morris, com o ex-secretário da Defesa norte-americana, Donald Rumsfeld.

Rumsfeld teve o trunfo de participar da política norte-americana, desde os tempos de congressista, durante o governo Nixon, até a administração George W. Bush e a Segunda Guerra do Iraque. Errol me esclarece em entrevista: “Para mim, a pergunta era: ‘ele está mentindo?’. E para se chegar a uma conclusão deve-se considerar que, para mentir, você tem de saber a verdade”. Partindo desse pressuposto e levando em conta que num documentário surgem momentos inesperados em que algo pode ser revelado, Errol fez questão de não pré-julgar o uso capcioso de linguagem do político. É óbvio que em determinados instantes, como quando se põe em cheque se a política de tortura do presídio de Guantánamo Bay vazou para os soldados enviados ao Iraque, a reação de Rumsfeld é, no mínimo, cínica, ao negar. Mas se Errol o “atacasse” perderia a chance de terminar o filme, e veria o seu personagem se levantar e sair de cena indignado diante da acusação. E com isso Errol indubitavelmente não teria mais o controle editorial do filme.

Quem é que está brincando com quem? O Desconhecido Conhecido pode ser considerado um filme frustrante, e o é, em parte, admite Errol, “porque é frustrante que não se tenha tido até agora um Julgamento de Nuremberg dentro dos Estados Unidos. Rumsfeld é um criminoso de guerra”. Todavia, para além das questões de justiça que o documentário ainda não é capaz de provocar – e nem é para isto que serve a arte –, o que se torna evidente aqui é como a linguagem pode subverter o pensamento.

Por exemplo, questionado sobre a Guerra do Vietnã, Rumsfeld diz, simplesmente: “Algumas coisas funcionam; outras não”. O que gera uma exclamação do documentarista: “Você está dizendo que merdas acontecem?!”. “Eu vivi muito a história”, continua o secretário, em novo diálogo, “eu me preocupo. Pearl Harbour foi uma falha de imaginação.”

O propósito da dialética de Rumsfeld/Errol não é a ridicularização, mas ilustrar a falta de consciência sobre a sua (do congressista) falta de conhecimento. Então, torna-se complexa a arte de concluir que um sorriso pode ser revelador de mentira. Em Rumsfeld, o sorriso é “uma satisfação suprema, como a dizer, ‘olha como eu sou foda!’, e isso é sinceridade no sorriso”, emenda o jornalista.

Voltar para esclarecer definições como “vitória” e “terrorismo” constitui em si um exercício orwelliano-maquiavélico-cartesiano, justificado, infelizmente, pelo “exercício de democracia”. O título do filme é referência ao que se sabia ou se desconhecia sobre o uso de armas químicas pelo Exército do Iraque. Logo, a falta de provas – a constatação de que indo ao território inimigo não se encontraram armas químicas – se evidencia, obviamente, em uma prova evidente.

Mas talvez exatamente por isso ainda se possa dizer que os Estados Unidos são uma democracia. Por que Errol pôde completar seu filme e não foi censurado? Sinceramente, não sei. Mas comparo-o a Jafar Panahi, por exemplo. Errol está viajando por todo o Reino Unido, que apoiou a Guerra do Iraque, e está trazendo a merda ao ventilador, acumulando as evidências que o próprio governo norte-americano produziu em papelada. E tudo está lá (ou boa parte) em arquivo. Fico imaginando se em criança Rumsfeld brincava de pega-pega. Será que ele dizia ao oponente, “você não é de nada, só come marmelada”, e saía em disparada para os porões antibomba?

O Desconhecido Conhecido, de Errol Morris (The Unknown Known, EUA< 2013).



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