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Ela


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Publicado em 7 de Março de 2014

Ela, de Spike Jonze.

 

(Londres, Moviola) – Quando penso na relação homem/máquina, entendendo por máquina computador, sou automaticamente remetida a duas referências: 2001, Uma Odisseia no Espaço, e o livro de Sherry Turkle, Life on the Screen. Tanto na época do HAL como no lançamento do livro, essa relação para mim ainda estava no abstrato campo da ficção científica. Mas Ela (no original, Her), de  Spike Jonze (Quero ser John Malkovich),  fez-me ver o absurdo em que vivemos hoje. O filme é um retrato assustador sobre a rendição humana à solidão e à incapacidade de amar o que seja humano – e falho.

Jonze  pode não ser tão inventivo na direção de fotografia, com suas tomadas de Los Angeles enevoada, mas o é na temática e no modo de pincelar o Estranho Amor do homem por uma voz feminina dentro de um computador. A voz é a de Scarlet Johansson (Samantha), a sexy Brigite Bardot atual; e o amante é Joaqhin Phoenix (Theodore Twonbly). Este Teo/a-doro vem naturalmente de uma crise existencial e de um casamento rompido. A sua inadequação se torna maiúscula quando elege para sua nova amante uma criação digital, uma programação alheia, uma secretária infalível e pró-ativa.

Se em 2001, Uma Odisseia no Espaço e em Life on the Screen ainda se questionava o ato deliberativo da máquina, aqui isso não entra em xeque. Samantha tem também vontades e iniciativas, mesmo se ainda duvidemos que sejam naturais tais iniciativas. Claramente seria mais difícil apaixonar-se por um “ser” sem iniciativa alguma. Bem, agora que escrevi isso, já não tenho certeza. Vou checar Bauman para esclarecer o amor nos tempos líquidos, ou a paixão liquefeita. O que vem gradualmente invadir essa narrativa fílmica é uma profunda inquisição dos Tempos Modernos.

Da nossa impaciência para o amor e para a perturbação do que isso provoca. Porque não sustentamos mais o Outro, nem a sua verdade, nem a sua máscara. Simples. Deletamos, ignoramos, não mandamos mensagem. Risivel é a reação da ex-mulher de Theodore ao saber que a sua nova namorada é uma inteligência artificial. Todas as suas críticas aos defeitos de Theodore poderão então ganhar o cunho de viabilidade da sua incapacidade de amar. Mas o incrível é que Theodore ama realmente Samantha.

Acompanhando o filme, nos damos conta de como vivemos hoje e do que somos dependentes. Da tecnologia, óbvio. Mas principalmente dependentes da incapacidade de sustentar a frustração, que é a inerente condição humana. Pode então neste buraco negro haver eco para um amor que independa da presença física? A distância romantiza o que a realidade escancara. Amar um morto ou um santo é fácil, não há mudança. É liso amar o Imutável e o Constante. O que diriamos de amar uma máquina? Phoenix está curiosamente normal em Theodore. Isso não impede, porém, que logisticamente reestabeleçamos nossa afeição por ele como ator. O papel de Amy Adams, por outro lado, não a exige tanto, como em Trapaça, mas os papéis menores são aqueles que mostram a evolução de um bom ator.

 

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