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Feio, eu?


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Publicado em 27 de Fevereiro de 2014

 

filmehelena

“Acho horrível a ideia de que é preciso simplificar exageradamente as coisas para explicar aos trabalhadores.”

Julian Beck do Living Theatre

 

É embaraçoso dizer isso, mas só filma aqui hoje os que nada têm a dizer. Velhas múmias americanizadas, ou jovens já autoritários sem muito talento. Ênfase à força nociva da burocracia e da partidarização boçal da criação, edificando e solidificando no cinema, o tradicional terrorismo de Estado. Logo se ouvirá falar nos meios de comunicação: Vós, meu Fuhrer, nos salvastes do lado humano por demais humano do saber. Venceu a barbárie.

Feio,eu?  constitui um manifesto bem humorado a sobrevivência da utopia. Ou utopia tropical. Um possível e criativo investimento indireto nas múltiplas opções de uma poesia como: Para de completar, de Sindoval Aguiar, que diz: “Toda obra está incompleta/Como nossas impressões/As que inventamos verdadeiras/Ressonâncias/De crenças e asneiras/Na obra/O máximo a que se pode chegar/Além das crenças e asneiras/Do próprio leitor/E sem reclamar/Pois já somos devedor”. Um filme demasiadamente jovem feito com raro prazer, numa obcecada e terna revisão de afetos.
Ainda ontem Helena Ignez gritava contra os senhores da “cultura”, ultrapassados pela nossa própria história. Hoje, goza-os velhos, carecas e barbudos adormecidos em suas privadas entupidas. E ainda assim defensores de um cinema patronal. Para resumir a riqueza do seu novo trabalho, experimentalíssimo por ser uma reflexão filmada sobre um processo vivo de criação, está na sua total ocupação do conceito de liberdade. Não como padrão ou sistema a ser seguido, mas como discussão cônscia do seu valor como método e terapia, edificando revoltas estéticas com muitas significações poéticas.

No entanto, é preciso vê-lo também como um rico processo entre ambiguidades e contradições. E que de modo algum negam o cinema. Só que um cinema digno de ser pensado, estudado, vivido e transformado em nossas muitas dúvidas e dívidas. Então, talvez, um rico arco-íris em forma de imagens bêbadas. Talvez uma infinidade de significações subjetivas. Talvez a fecunda indisciplina da liberdade. Talvez a solidão do anarquismo. Talvez uma redramatização da história. Talvez consciências enlouquecidas. Talvez a sordidez do nosso tempo. Talvez a hipocrisia da civilização. Talvez o servilismo a burocracia. Talvez o teatro nas imagens. Talvez a rebeldia da juventude. Talvez uma nova consciência popular. Talvez os mais nobres valores da liberdade. Talvez sua excelência, o homem oprimido. Talvez encontros surrealistas. Talvez um apelo aos sonhos. Talvez a linguagem de um processo. Talvez a baixeza do sistema. Talvez a luz que faz ressaltar a formação de jovens atores. Talvez o feio como belo. Talvez uma comédia solar. Talvez.

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Seguramente um pequeno filme, que ao abdicar de muitas certezas, torna-se doce, efêmero e necessário. É sim uma passagem do real para a poesia. Um rico exagero demoníaco frente à mexicanização do nosso cinema de mercado. Helena com Feio, eu? torna-se a mais jovem navalha afiada do nosso cinema. Sinceramente é um filme de libertação afetiva dos nossos tantos bodes do poder à burocracia. Digamos, é um esboço feliz de uma humanização da linguagem que não se acovardou ao mercado. E claro que os velhos e “novos” obscurantistas não vão gostar, pois tudo é questionado, moído e devorado antropofagicamente. Faça o que faça Helena é uma catalisadora de sonhos, sons e afetos. Faz com Feio,eu? o seu melhor trabalho ao lado de Barbara Vida, Príncipe Harry, Célia Maracajá, a transformista Helô, Vinicius Nascimento, Artaud da Lapa e Ricardo Miranda… todos riquezas de um cinema de choque como queria Walter Benjamin.

Helena e seus atores não se preocupam em explicar as tantas referências que vão de Glauber de A Idade da Terra a Artaud, passando por Brecht que aparece numa sacola, ou mesmo Godard de Número Dois na montagem genial de Vinicius Nascimento. Entre sacos de plástico, roupas coloridas e bom humor o filme vai sendo levado por pedaços, tempos, fragmentos, encontros e desencontros. Feio, eu? é um criativo ato amoroso que ilustraria bem um pensamento de Buñuel que diz: “Amo todos os homens, não amo a sociedade que alguns deles fizeram!” E sempre com sorrisos nos lábios, todos se tornam sagrados, transgressores e se banqueteiam de acasos.

jardaindia

É isso: o filme se imortaliza em cada momento vivido. Hoje aqui. Amanhã na Índia. E depois em Paris. A velha cruz do Zé do Burro de ontem, é a penca de banana carregada nas costas de Helena pelas ruas atuais. E o que ontem era a obscenidade religiosa no poder, no contemporâneo é a paixão pela vida. Sketches de poetas reunidos numa reconstrução de sonhos justapostos, ou não. Pode até não ser um filme fácil.

Mas o que é o fácil numa relação maior com o prazer? Dá-se dignidade a uma fome de vida vivida por todos. Feio, eu? é um deslocamento linguístico do bode. Todos vão sendo levados por um enorme leque de indefinições e bom humor. Em essência o que importa é a emoção de cada momento. Um trabalho criativo na antivirtuose autoral do momento. E todos mergulham fundo oferecendo-nos um estado de pureza encantador: múltiplas imagens, múltiplos movimentos, múltiplas paixões, múltiplos olhares. O mistério do filme está em ser um brinde à vida! Eis, pois, o humano lado da criação quebrando o espelho do idiotismo da ordem. E ordem para quê? Que gozo pode ser possível na ordem? Ou o gozar deixou de ter importância?

 

Trailer

 

* Fotos: Divulgação e montagens Luiz Rosemberg Filho



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