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Let’s play jazz


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Publicado em 19 de Fevereiro de 2014

letsplayjazz

 

“Em arte agente precisa se jogar no abismo. é preferível fracassar duma vez a permanecer no cuidado da mediocridade.”
(Mario de Andrade)

 

Está bastante definido que a modernidade não é lugar para definição; seja na política ou na cultura. Postura é o que menos consta na manifestação das pessoas. Walter Benjamin percorreu o caminho mais longo e tortuoso, o da filosofia como experiência de vida. Outros mestres e pensadores escolheram o do surrealismo. Outros mais, o do desespero e da angustia: Kafka, Pavese e Clarice. Outros, o da poesia, na prosa e no romance. No cinema tudo isso fica difícil e complicadíssimo. Por quê? Porque, por mais que a tecnologia dirigida pelo consumismo e a sedução nos facilite, o mercado de que precisamos é parte desse consumismo, longe da inclusão de uma posição reflexiva sobre a modernidade. Marai, Ernest Bloch, Camus, comeram o angu que o diabo amassou. E mesmo assim quase morreram de fome.

Canetti, Musil, Svevo e tanta gente indispensável trabalharam e resistiram nas piores condições, quando as fontes de sobrevivência iam se esgotando. Brecht é um outro belo exemplo. E o trabalho como os deles não podem ser feitos com a união de grandeza e esperteza. Entre nós esse é um caminho muito aproveitado. Não nos cabe criticar ninguém isoladamente, quando se tem um projeto maior, uma crença maior, uma mitologia maior. Ésquilo é um grande exemplo, em todos os tempos. Ele pensou e fez a cultura dos gregos. Na velha Grécia quase todo mundo lia, estudava, convivia de certo modo com o saber. Ele trabalhou a origem, a cultura, a crença, a mitologia de seu povo. Em suas narrativas os heróis são apresentados e vividos como gente comum, do povo, assim como as crenças, a poesia e os deuses.

juanposadaIsso não acontece entre nós. E quando pessoas como Juan Posada faz um trabalho respeitando essa concepção em Let´s play jazz, passa a ser visto como radical, violento e perigoso. Essa é a razão dos centros culturais, das redes de televisão e das burocracias; afastar gente como Tonacci, Santeiro, Sette. Não deixar fazer. E se fizer, ficar longe do povo. Não o entender, multiplicando núcleos e grupos de pessoas nesse mesmo sentido, não movimentando a cultura. Basta ver os que vão dos governos para a cultura.

No Brasil, tudo cresce como atos isolados de interesses, sem uma visão maior do país e de nossas necessidades e de nossa formação. E nenhum trabalho é pequeno ou pode ser desprezado se está implícito, nele, essa visão. E isso incomoda porque os espaços existentes são os do fechamento e da exclusão, para pessoas que pensam assim. Essa guerrilha cultural é cansativa e mortal, quando o corpo e o psiquismo não se sustenta. Todo o resto, tudo aquilo que pode ser aclamado como vitória, é muito subjetivo, embora grande e estimulante. Mas a força e os exércitos contra os quais se combate são muito articulados e objetivos. Imediato às vezes. A resistência cede.

Eis-nos diante do avesso do espetáculo frágil e superficial que caracteriza o atual cinema brasileiro. Juan Posada nos faz pensar e acreditar numa história viva da filosofia, indo do jazz a representação de lindas jovens atrizes em formação. Que não se percam em sonhos televisivos menores. Que sejam triunfantes como pensadoras, e não como personagens deslumbradas com o sucesso fácil e artificial. No filme Let’s play jazz tematiza-se tudo: de Diógenes e sua filosofia libertária, a uma crítica bem fundamentada às academias, as que estabelecem limites para a vida e o saber. Ou seja, o acadêmico é só um transmissor de conceitos mortos. De um saber exato sem sonho algum. Uma experiência estética sem subjetividade alguma. A filosofia nas academias é uma anulação da liberdade, reproduzindo impossibilidades, medos e disciplinas fechadas.

Como dizia Heidegger: “A decadência da linguagem não é o fundamento, mas sim uma das consequências do fato de que a palavra, sob o domínio da metafísica da subjetividade, foi continuamente arrancada ao seu elemento”. Corretíssimo! Talvez então, um filme contra a corrente da inutilidade como fascinação. Pensar a filosofia é pensar a vida. Do mundo grego a Oswald de Andrade, uma caminhada profunda no tempo do saber. Saber para ser melhor como ser humano. Daí o jazz e a interpretação do mundo rural como avanço metafórico de encontros criativos onde a filosofia é exercitada na vida de todos. Então a terra, os animais, os movimentos, a bela esfinge do mundo grego, o homem, Oswald e Mario de Andrade.

Ora, que espécie de felicidade o homem pode praticar sem medo? Talvez o saber. Talvez a criação. Talvez o afeto. Talvez o prazer. Todo o discurso dos filósofos e sociólogos presentes é sério, ainda que, excepcionalmente, vivo num filme belo, inquietante e esperançoso. Se somos todos condenados a morrer um dia, o viver torna-se necessariamente solar. Palavras cheias de luz nos tornam mais sensíveis. Como cinema, penso em Glauber com seu genial Cabeças Cortadas e em Artaud. Juan Posada embeleza-os com num culto analítico a antropofagia e a visceralidade cênica da peste. A partir desta lucidez assumida, abrem-se conceitos e princípios.

Fala-se muito. Rompem-se fronteiras. Ultrapassa-se aos tantos erros de comediazinhas. E ao invés de uma historinha com princípio, meio e fim – Nietzsche e Oswald de Andrade nas veias de todos nós. Não como idealismo, mas como um esforço para evocar contradições transgressoras. Este delicado filme de Juan Posada, diz-nos respeito a todos que ainda pensam. Ora, como não pensar? Como não amar? Como não criar? Como não ser feliz? Não mais queremos a enfermidade baixa da política que nada faz. Nada transforma. Nada muda. E muda apesar de estar sempre falando, sem dizer nada.

Let’s play jazz edifica em nós a revolta com algum saber. O pouco ou muito que se conseguir entender nos fará avançar na sensibilidade do olhar. Por não ser um filme fácil, precisamos voltar muitas vezes a ele, mas com leveza e alegria solar. Trata-se do real confronto do ser, com o mal-estar do país. Um retorno musical-poético à tragédia da perda da sensibilidade. Na prática, o fantasma do fascismo. E como bem dizia Baudelaire ainda em 1846: “É verdade que a grande tradição se perdeu e que a nova não está criada.” É preciso salientar que o que veio depois foi ainda pior: duas guerras mundiais e nazi-fascismos, que hoje se afirmam como neo movimentos.

No seu existencialismo gritante, o cinema se realiza no desconhecimento real de cada plano-momento. Escolher uma imagem precisa é vagar no infinito das possibilidades entre a esperança e o desespero. Entre a história e o afeto. Entre os desejos e os sentimentos possíveis. Por vezes vaga-se entre certezas e oscilações. No caso, os personagens falam com a imagem se movimentando como se estivesse procurando ou despindo a pureza do real. Não é como o cinema rigoroso de Eduardo Coutinho, mas performático na maneira de apresentar o outro. Let’s play jazz deixa fluir a imagem das palavras e a música das ideias. São múltiplas transcendências como sensibilidades e afetos. Encontros como transmutações contínuas de superação do real.

Como afirma Vicente Ferreira da Silva em Dialéticas das Consciências: “O artista é o homem que não sucumbe ao ditado impositivo do mundo próximo e pequeno, mas demonstra a sua vida caudalosa, criando em gestos, formas, palavras, o espaço próprio do seu coração.” Juan está, em Let’s play jazz, expõe a irracionalidade (ou o acaso) da elaboração dos seus plano perfeitos, e também imperfeitos, porém belos. Para o espectador, uma assimilação infinita do mundo das idrias que são elaboradas e pensadas. O ser como uma ideia criativa e dinâmica. O ser-música como fantasia do poeta das imagens.

Benjamin é que apropriadamente diz: “A câmera nos introduz ao inconsciente ótico como a psicanálise aos impulsos inconscientes”. Portanto, o novo filme de Juan Posada rediscute o valor da performance como abordagem tanto da filosofia, como da música e da criação. Um filme-ensaio contra o status quo da mesmice acadêmica. Assim o jazz, por exemplo, passa a ser pensado como uma nudez artística, como continuação de muitas verdades performáticas enfatizando a solaridade da vida. Um happening de projeções de improvisos do mundo grego as inovações artísticas e educacionais dos nossos dias.

Foi Novalis quem afirmou que a poesia é o real absoluto. “Esse é o fundamento da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro.” E é por onde flui Let’s play jazz: pela poesia visceral, pela liberdade e espontaneidade. Também uma homenagem terna a seus amigos professores de filosofia e sociologia. E então, um filme de essência fundamental à criação de momentos, análises e utopias. Com todos ladeados de ninfas belas e silenciosas a nos afeiçoar poeticamente ao mundo das imagens. Mulher e imagem numa procura de uma espécie de totalidade da própria existência, que só a música e o afeto poderiam representar sonhos vividos. De ir além dos limites do mundo, como tenta Terence Malik no seu delicado Amor Pleno.

Filmes absolutos um pouco além do mero divertissement. Filmes que nos obrigam a romper com o banal, e que através das palavras e silêncios sintetizarem caminhos, contradições e metáforas sem abrir mão da subjetividade valorizada pela criação plena. Ousaria também dizer que Let’s play jazz é sim uma espécie de “consciência temática” da indefinição de uma multiplicidade de sonhos e posturas antiacadêmicos. Um exercício poético de liberdade plena onde se tenta assumir profundamente a vida, a criação e a finitude dos sonhos. A música sempre acaba. Assim como todos nós, um dia. Juan, seus amigos e ninfas nos levam ao infinito ponto das nossas muitas possibilidades. Tanto no ato da criação, como na finitude dos nossos afetos.

Seu filme nos transpassa para nos fixar em algum ponto do universo, passando a existir a dimensão do ser para o outro. O filme passa a ser de todos. Um pouco como deveria ser o discurso amoroso, nos servindo da beleza e da música como alimento não reduzido ao espetáculo de e para boçais. Para concluir com Sartre: “Pelo contrário, aquele que quer ser amado, não deseja a servidão do ser amado, não aspira ser o objeto de uma paixão transbordante e mecânica. Ele não quer possuir um automatismo e se quer humilhá-lo, basta representar-lhe a paixão do amado como o resultado de um determinismo psicológico: o amante se sentirá desvalorizado no seu amor e no seu ser.” A liberdade dos afetos é ser dialeticamente livre. É por onde todos avançam nesse filme delicadamente amoroso e vivo. Um trabalho imprescindível.



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