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Meus Pais, Minha Mãe e Eu


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Publicado em 21 de Outubro de 2013

Meus Pais, Minha Mãe e Eu, de Paul-Julien Robert.

(Londres, Moviola) – Ganhador do 57th London Film Festival na categoria documentário, Meus Pais, Minha Mãe e Eu (Meine Kleine Familie, Áustria, 2012) foi reconhecido como “um filme de importância cultural, excelência técnica, originalidade e integridade”. A presidente do júri, Kate Ogborn, declarou que, em nome dos membros do júri, “gostaríamos de reconhecer a coragem de Paul-Julien Robert, por ter-nos levado a uma jornada pessoal com Meus Pais, Minha Mãe e Eu”, um retrato de Friedrichshof, a maior comunidade alternativa europeia, fundada por Otto Mühl, da Viennese Actionist, nos anos 70. “E por ter-nos mostrado os efeitos emocionais devastantes em seus moradores. É um filme perturbador, provocativo e íntimo que levanta questões amplas sobre o poder, a responsabilidade dos pais com seus filhos e abuso sexual. Os incríveis filmes de arquivo somados à jornada pessoal de uma mãe e seu filho nos emocionaram e nos indignaram de tal forma que o filme merece ser visto por um número maior de pessoas.”

Pregando os princípios da liberdade sexual, propriedade comunitária e a dissolução do núcleo familiar, o líder da seita tinha por hábito documentar todos os dias as atividades que seus membros realizavam. Assim, o diretor Paul-Julien Robert, que nasceu em Friedrichshof e passou lá os 12 primeiros anos de sua formação, teve acesso a um arquivo numeroso da sociedade experimental. Mesclando essas imagens com depoimentos dos moradores anos depois, em especial o de sua própria mãe, estabelece-se o conto de atrocidades e despotismos de um líder cujo poder foi delegado e que, durante todos os anos em que manteve de pé a comunidade, nunca foi questionado. Pelo contrário, por omissão e submissão hierárquica, seus atos abusivos tiveram consequências desastrosas na vida daquelas pessoas, principalmente das crianças.

Dezenas delas nunca descobriram quem foram seus pais biológicos, já que, por princípio, a seita formulava que essa suposta ignorância encorajaria a sua criatividade e desenvolvimento pessoal. Tal criatividade artística, a que as crianças deveriam se submeter por prazer ou à força, originou inúmeras telas e obras artísticas que hoje fazem parte de um museu. Paul-Julien Robert perguntou à mãe se ela nunca suspeitara de que o núcleo da Viennese Actionist era na verdade uma macabra experiência manipuladora de personalidades com o intuito de negociar as obras e produtos no mercado das artes. Ingenuamente, sua mãe não percebera nada disso. E mesmo hoje sua expressão é de apática conformidade e impotência diante da indignação do filho.

Há, claro, momentos de conflito de gerações que foram adiados historicamente pelo líder da seita. Tudo aquilo que fora soterrado entre pais e filhos, e que não pudera ser resolvido em tempo certo, retorna como protesto e talvez psiquicamente irresoluta conclusão na vida adulta. O maior protesto é justamente Meus Pais, Minha Mãe e Eu. Prêmio merecidíssimo do júri. Espero que estreie no Brasil. Fica a dica para o É Tudo Verdade.

Meus Pais, Minha Mãe e Eu, de Paul-Julien Robert (Meine Kleine Familie, 2012, Áustria)

Trailer do Filme:

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Veja a cobertura completa do London Film Festival 2013



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