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Camille Claudel 1915


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Publicado em 18 de Outubro de 2013

Camille Claudel 1915, de Bruno Dumont.

(Londres, Moviola) – Juliette Binoche interpreta a talentosa e lucidamente perturbada escultora Camille Claudel em seu último ano de vida, num asilo em Avignon. Parece-me um filme imperdível, verdade? O problema é que o filme se arrasta numa austeridade e falta de humor exaustivos. Nada a criticar da atuação de Binoche; pelo contrário, o filme é ela. Mas o diretor Bruno Dumont perdeu a mão em algum instante que não sei precisar.

Pincelar os traumas imaginários e reais de Camille com seu ex-amante, o tirânico Rodin, e com sua família, em comentários com o diretor da clínica me parece ser muito pouco cinematográfico e cerebral demais, para quem está são mas sofre. A impressão que ressalta é que a recitação sai apenas da garganta, e não do corpo, como se fora recital de poema sem incluir a plateia, ou na frente do espelho. Isso é estranho, ainda mais em se tratando de Dumont, o qual dirigiu, em 1999, o perturbador A Humanidade. Aqui a perturbação permanece no campo mental e não sai do roteiro, não invade a sala de cinema.

O fervor da Claudel de Isabelle Adjani, por exemplo, em filme de 1988, de Bruno Nuytten, não passa de um esboço mal traçado pelas tentativas frustradas desta Claudel de voltar à vida natural e ao convívio familiar. Adjani foi indicada ao Oscar de melhor atriz. Binoche merece o prêmio igualmente, mas para quem não está familiarizado com as circunstâncias da carreira e vida de Claudel, a intensidade da interpretação de Binoche se perde no vazio e não significa ou re-significa o que deveria operar.

Carregar na arquitetura do asilo, na aridez das montanhas, na fotografia do filme em si, torna-se aqui um detalhe físico de uma natureza-morta, inanimada mesmo. Ou você ficaria atraído em ver, lentamente, as batatas fervendo na cozinha do hospício?

Mas mais insustentável ainda é Paul Claudel (Jean-Luc Vincent). Há uma diferença muito grande em interpretar a frieza e a lógica e ser o ator frio e lógico em suas escolhas de interpretação. O personagem é que deve ser contido, jamais o ator. O ator deve doar, sempre.

Bem, as batatas continuam fervendo na panela, tenho certeza, mas aqui não há vencedor a recolhê-las como prêmio, não é, Machado?

Camille Claudel 1915, de Bruno Dumont (Camille Claudel 1915, 2013, França)

Trailer do Filme:

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Veja a cobertura completa do London Film Festival 2013



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