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Sacro GRA: Entrevista com Gianfranco Rosi


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Publicado em 14 de Outubro de 2013

Sacro GRA, de Gianfranco Rosi.

Sacro GRA é um filme “por encomenda”, por assim dizer, pois foi uma sugestão de Niccolò Bassetti. GRA é a sigla para Grande Raccordo Annulare, o complexo rodoviário que circunda Roma e o documentário é uma tentativa de comunicar sobre a ausência de Roma a partir de personagens que se encontram nesta estrada. Por isso, explica-me Rosi, “foi muito difícil entrar no filme. Fiz oito meses de pesquisas e o processo todo demorou dois anos, até que eu conquistasse a confiança daquelas pessoas e pudesse gravar. Por exemplo, a história do botânico é muito complicada de contar, porque ele criou um microambiente com as palmas africanas na Itália”. Saliento, então, que deve ter sido mesmo mais complicado conquistar a confiança de uma pessoa solitária como ele, determinada a destruir as larvas que roíam a palma, estudando seu comportamento e gravando os sons dos insetos. Quando, enfim, o botânico descobre uma possibilidade de atingir seu intento e nos apresenta a conclusão de sua amostra de sons das larvas, declara: “Escute isto: é o antipasto da vingança”.

O documentário não possui uma narrativa linear, não conta uma história com começo-meio-e-fim, mas a exemplo de outro filme de Rosi, Boatman, vai em busca de uma circularidade oriental. Rosi concorda comigo: “Sacro GRA é muito parecido com Boatman. Procurei a circularidade da estrada e em sequências como a do cemitério e dos túmulos, falo do sentido da morte e da precariedade da vida”.

Outro momento que quis em particular que Rosi me esclarecesse, talvez porque o tratamento da luz estourada me remetesse imediatamente a Deus e o Diabo na Terra do Sol, foi o êxtase religioso das devotas. São as faces das carolas voltadas para o alto e um diálogo absurdo querendo dar lógica e explicar a visão àqueles outros que não viam nitidamente o milagre da Madonna. Rosi, infelizmente, desconhece Glauber Rocha, mas fez questão de anotar.

A sutileza e a universalidade de Sacro GRA residem na transformação de um lugar, a estrada, que é apenas passagem. Esse lugar, Rosi enfatiza, “… dá forma a um sentido de abstração. Não conto uma história. Tento captar a verdade nessa percepção, no relacionamento que estabeleço com essas pessoas. Não as faço recitar um discurso pré-preparado. Chego até a verdade fazendo uma síntese total da experiência de todos os meses que passei com essas pessoas sem filmar. É uma ideia muito precisa”. Para tanto, naturalmente, o trabalho de edição junto a Jacomo Quadri chega a ser exaustivo, porque, por vezes, “uma escolha simples e infeliz pode fazer tudo a perder”.

Sacro GRA é também sobre uma relação do homem com a natureza, por mais antitético que isso possa parecer, já que é a intervenção humana que prevalece. O olhar na varanda, ficar ali fofocando a vida alheia, hábito tão arraigado dos italianos, torna-se, então, uma história dentro da história, pois aqueles seres dos quais se fala, a câmera não colhe e também não há muito a ser visto. Não se está diante de uma paisagem pitoresca e justamente por isso a imaginação pode se revelar numa progressão geométrica, exponencial. Os contos são mais criativos, porque algo sobre o outro deve ser dito, para que se conheça esse estranho vizinho e se possa defender dessa intervenção contra a natureza.

Sacro GRA, de Gianfranco Rosi (Sacro GRA, 2013, Itália / França)

Trailer do Filme:

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