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Sophie Calle, Sem Título


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Publicado em 13 de Outubro de 2013

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“Qual real é o real?” A frase proferida no discurso de entrega do Hasselblad Award 2010 à Sophie Calle diz muito sobre a artista conceitual mais celebrada da França. E é ela que move o documentário Sophie Calle, Sem Título, no qual a diretora Victoria Clay Mendoza produz um retrato íntimo, descontraído e duvidoso de um dos grandes nomes da arte contemporânea mundial.

Com mais de 30 anos de carreira, Sophie Calle ficou muito conhecida no Brasil a partir da exposição Cuide de Você, que levou ao MAM-Rio releituras de um e-mail de rompimento amoroso desenvolvidas por 107 mulheres de diferentes ocupações. Sua obra mistura fotografia, vídeo, texto e dialoga com os significados únicos de ser e de existir, vividos de modo singular nos indivíduos. Privacidade, identidade e intimidade se mesclam na busca pelo registro de experiências e pelo abandono de rastros no mundo. A artista parisiense cria obras sob a condição de se impor situações e tarefas cujo processo de vivência/cumprimento é registrado em suporte multimídia, numa vaga proximidade com a performance. Enquanto a maioria dos artistas contemporâneos busca elementos e personagens para se inspirar (ou mesmo vivem momentaneamente esses personagens, como no caso de Cindy Sherman), Calle é a personagem e o mote da própria obra.

Sophie busca o insólito e usa a si própria como instrumento para encontrar a alteridade – sendo esta, usualmente, o público, um pouco voyeur de si mesmo ali também representado. A outridade buscada nos projetos da artista se encontra com Victoria Clay Mendoza no documentário Sophie Calle, Sem Título, no qual a própria reconstrói sua carreira através de depoimentos e imagens de arquivo. Quase todo em voice over, o média-metragem se apresenta como uma carta de Calle a Mendoza, com instruções, inclusive, de como a documentarista deve buscar material de pesquisa e realizar as filmagens.

A criadora de obras como Suíte Vénitienne parece completamente à vontade com Mendoza. Em uma das primeiras cenas do documentário, as duas surgem juntas na cama, aparentemente nuas, enquanto ouvem-se as condições de Sophie para que o filme fosse produzido mediante um ritual estabelecido por ela. A câmera da documentarista capta, assim, pequenos momentos de sua intimidade: o gato que dorme ao sol de sua casa, a Sophie dança solitariamente descontraída no seu ateliê em Malakoff e que “experimenta” um caixão numa feira de artigos funerários. Mas pouco disso parece mostrar de fato quem Calle é, ainda que nos ofereça pistas, como seu bom humor, a curiosidade quase infantil pelo incomum e a obsessão por colecionar objetos, tais quais todos os presentes de aniversário que ganhara desde os 13 anos de idade.

Em Sophie Calle, Sem Título, a protagonista divide com o público mais que uma simples reconstrução histórica de sua carreira, mas algumas de suas características enquanto artista. Apesar de Sophie se deixar usar como instrumento para a própria linguagem, o real forjado e condicionado de suas obras sempre deixa dúvidas sobre sua existência e essência autênticas. Essa é uma das questões centrais do documentário, que brinca com o espectador a respeito de sua própria verdade. Algumas situações absurdas registradas sob os olhos atentos de Mendoza ganham ar farsesco pela naturalidade com que são vividos pela artista. Com uma trajetória não usual, Calle parece tão íntima da câmera e do espectador como aparenta ser em suas obras, ainda que no próprio média-metragem negue que não seja possível para a sua arte e para o público apreender o que ela é em si – eis aí o tal intangível.

O clima dúbio do documentário, acentuado por uma trilha sonora vaga e de mau gosto, deixa dúvidas sobre a identidade de Sophie. Ainda que se conheça sua história, a superficialidade de Sophie Calle, Sem Título pouco mostra de fato quem ela é além de sua persona artística – se é que existe, de fato, outra Sophie apartada desta persona. Os trabalhos de Calle constituem uma espécie de arqueologia de si. Os restos de seu mundo, sejam eles representados por objetos que lhes são alheios ou impressões de relacionamentos, fundam uma obra que se pretende reveladora, mas tudo esconde. Ainda que vivamos tempos de reality shows e culto às celebridades, o filme de Victoria Clay Mendoza sobre a vida e a obra de Sophie Calle é discreto e econômico, mesmo frente a uma artista que parece ter nascido para fazer da própria vivência um instrumento de expressão artística.

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