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Azul é a Cor Mais Quente


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Publicado em 12 de Outubro de 2013

lea-seydoux

(Londres, Moviola) – Festivais são uma maratona. Sento-me às 11h30 da manhã na sala um tanto fétida do cinema em Piccadilly e verifico a duração do filme francês, vencedor da Palma de Ouro em Cannes de 2013: são 3 horas de chá de cadeira. Que tour de force! Mas azul é cor que acalma e as horas transcorrem como as águas em rio de planície.

Polêmico por apresentar longas e intensas cenas de sexo entre duas mulheres – um dia, sexo e homossexualidade vão deixar de ser tabu? , Azul é a Cor Mais Quente é uma narrativa feita de muitos closes-up para destilar as primeiras relações de duas jovens francesas. A questão social em si, do lesbianismo, não se constitui densa demais para a trama. Há discussões aqui e ali, entre colegas de escola e os pais da personagem Adèle, mas isso não se estabelece verdadeiramente como um conflito social. Azul é a Cor mais Quente é um retrato vivo sobre a entrega e a fragilidade, o amor, a insegurança, a construção, com a arte francesa como pano de fundo. As 3 horas voam, porque o fio que costura a narrativa é a ternura, ou mesmo a força e a verdade do primeiro amor. É possível que nunca mais se creia e se entregue como a primeira vez. Tomara que não, para Adèle, mas o final não nos esclarece.

Trata-se da adaptação da graphic novel A Vida de Adèle, de Julie Maroh, e apesar de já ter distribuidor no Brasil, a data de estreia ainda não foi divulgada. A autora da HQ disse ter se sentido desconfortável com as cenas de sexo dirigidas por Abdellatif Kechiche. Entretanto, a naturalidade que é passada pela lente do cinema, como deveria ser na vida, está ainda longe de angariar muitos adeptos. Nosso crivo de censura está mesmo para lá de desequilibrado, pois repelimos o amor, e não nos indignamos mais com a violência, por ter se tornado banal e pública. O filme talvez seja uma provocação sutil do que é belo e natural na cabeça de cada um. Numa era em que tudo é fluido e o medo e a imediatez imperam nos relacionamentos afetivos, uma relação densa incomoda profundamente. Daí meu apoio à escolha de Cannes: arte é para provocar, para incomodar, do contrário continue consumindo as formas robóticas de pseudo-prazer frenético que a TV e a internet lhe oferecem.

Na mulher, na sua genitália, há algo de não-explícito, de misterioso, de escondido, que deve ser revelado mesmo minuto a minuto, a conta-gotas, num filme longo. Tanta fala ficou na garganta de Adèle, ou no olhar de Emma. Tanta tensão com a ruptura brusca. No entanto, repito, azul é cor que acalma.

Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche (La Vie d’Adèle, França, 2013)

Trailer do filme:

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Veja a cobertura completa do London Film Festival 2013



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