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A Farra do Circo


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Publicado em 8 de Outubro de 2013

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Chacal era figurinha carimbada lá. O Asdrúbal Trouxe O Trombone, de Hamilton Vaz Pereira, só vivia lá. Caetano Veloso aparecia por lá. Gil ia de vez em quando lá. Desde os tempos de baterista, Lobão ia lá. Barrão, Luiz Zerbini e a galera das artes plásticas também pintavam por lá – com o perdão do trocadilho. Paulo Leminski brotou em um festival de poesia lá. Dercy Gonçalves já subiu naquele palco de lá. Até Chacrinha já esteve na plateia de lá! É enorme lista de aparições que compõe A Farra do Circo, documentário de Roberto Berliner e Pedro Bronz que retrata com nostalgia os anos mais agitados e convulsos do Circo Voador.

Inaugurado há exatos 31 anos, o Circo Voador possui muita história pra contar. A Farra do Circo se habilita a compartilhar com o público algumas delas. Em 1982, Berliner era um jovem cabeludo que trabalhava no Centro de Documentação (CEDOC) da TV Globo e, ao lado de amigos, se tornava testemunha ocular de um momento único na vida artística do Rio de Janeiro: a criação do Circo Voador. Ao lado do agitador Perfeito Fortuna, o cineasta capturou com sua câmera a efervescência embrionária promovida pela intelligentsia jovem da Zona Sul que logo se tornaria a cara da cultura carioca através de nomes conhecidos do grande público, como a atriz Regina Casé, e outros consagrados nos bastidores do mundo artístico, como o cenógrafo Gringo Cardia.

O cineasta oferece ao espectador, entretanto, mais que um punhado de histórias. Suas imagens aparecem como um emaranhado de memórias. A Farra do Circo é, sem narração ou depoimentos recentes, todo pautado nas imagens originais registradas por ele, encadeadas temporalmente (além de gravações concedidas por acervos externos, como da TV Globo, da Intrépida Trupe e outros). Majoritariamente filmado em VHS entre 1982 e 1986, o documentário resume os quatro primeiros anos do Circo: o nascimento no Arpoador, o (primeiro) renascimento na Lapa e o plantio das palmeiras hoje frondosas e imponentes da sede, além de projetos inovadores como Rock Voador, Creche Apareche e até o caótico Circo Volador, que levou uma trupe de artistas brasileiros para Guadalajara durante a Copa do Mundo de 1986 e que teve de ser encerrado antes do tempo por questões contratuais.

O resultado é uma hora e meia de registros de memória in natura. Quase sem cortes, a dupla de diretores faz um percurso emocional pelos anos mais loucos e rebeldes da casa mais juvenil da cidade, levando ao espectador uma experiência semipresencial do que era o Circo daqueles primeiros anos. Com a câmera na mão, em ângulos duvidosos, Berliner se torna os olhos de quem assiste, e de certo modo, o coração, ao despertar uma nostalgia sem fim mesmo para quem não viveu a época. A qualidade das imagens, tornada obsoletas pelo tempo, se torna estética, além de um ingrediente a mais nesse mar sinestésico. A Farra do Circo é tomado pela impressão nostálgica de que o espectador entrou em uma máquina do tempo e mergulhou na plateia de uma apresentação do Asdrúbal Trouxe O Trombone ou acordou pendurado nos ferros de sustentação da lona em um show do Barão Vermelho.

Como definira certa vez Maurício Sette, um dos fundadores do espaço, o Circo Voador era uma usina de sonhos. O Circo possuía uma efervescência única para o momento, quando o Brasil começava a engatinhar na democracia e deixar para trás a dureza de tempos da ditadura. Seu primeiro quadriênio foi um desbunde colorido, lisérgico, mesmo em meio à chamada década perdida. A atmosfera anárquica, experimental e de vanguarda que Roberto Berliner e Pedro Bronz nos oferecem, infelizmente, parece distante da realidade asséptica da arte e da cultura que se vive hoje – é possível pensar que a juventude contemporânea encaretou. Porém, longe de saudosismos, A Farra do Circo nos lembra que esta é uma vivência que não pode ser esquecida e, conforme flui o motor da história, também não pode parar.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2013



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