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Walesa


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Publicado em 6 de Outubro de 2013

Walesa, de Andrzej Wajda.

Oriana Fallaci, famosa por retirar o xador durante o encontro com o Aiatolá Khomeini, viaja à Polônia para entrevistar Lech Walesa, líder do Solidariedade, primeiro sindicato independente do país, que representa mais de dez milhões de trabalhadores. Casado, pai de seis filhos, profundamente católico, avesso à leitura e aos intelectuais e egocêntrico, Walesa é repleto de contradições: aceita, por exemplo, da ditadura socialista contra a qual luta, o apartamento onde mora com a família. Andrzej Wajda se aproveita da entrevista para narrar, em flashbacks, os principais acontecimentos, entre 1970 e 1989, da vida de Lech Walesa, que coincidem com seu protagonismo para a volta da democracia na Polônia e no Leste Europeu.

Andrzej Wajda retorna aos conflitos sangrentos nos estaleiros de Gdánsk em 1970, quando Lech Walesa, após ser preso, torna-se informante da polícia secreta. Avança para o envolvimento de Walesa com a KOR, grupo de estudantes e professores a favor dos operários. Detém-se na greve geral de 1980, que tomou a Polônia e levou ao nascimento do Solidariedade. Mostra o Nobel da Paz de 1983, que sua esposa teve que buscar, e a humilhação que ela sofreu ao voltar ao país.

Mais importante em Walesa, contudo, não é a sucessão dos eventos que desfilam na tela, mas a forma com que Wajda os organiza, ao criar diálogos entre planos documentais e encenados, ou seja, entre imagens de arquivos e de ficção. Assim, o ator que interpreta Lech Walesa discursa para a câmera, enquanto a multidão que o assiste é a verdadeira, às portas do estaleiro de Gdánsk em 1980. Ou, na pela do líder sindical, Robert Wieckiewicz discute com o real primeiro-ministro polonês as exigências dos trabalhadores para o fim da greve. Verdade que, ao menos em duas ocasiões – na aceitação do Prêmio Nobel e nos conflitos de 1970 -, Wajda insere digitalmente as personagens em material de arquivo. No entanto, o procedimento estético que estrutura o filme é o simples campo / contracampo: imagem documental / imagem encenada, ficção / realidade, presente / passado. Como na entrevista com Oriana Fallaci, Andrzej Wajda força Walesa, paralelamente, através da narrativa, a se confrontar com ele mesmo, com seu Tempo, com a História.

Walesa possui o subtítulo “Homem de Esperança”. É a terceira parte da trilogia Homem de Mármore (1976) e Homem de Ferro (Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1980). Ao mesmo tempo, contudo, Andrzej Wajda utiliza o formato da cinebiografia laudatória, do grande filme de época em cinemascope, com reconstituição de época impressionante. Seria apenas outra produção em que o herói, tragado pelos acontecimentos históricos, deixa a família e a esposa abnegada em segundo plano?

O melodrama é uma leitura possível em Walesa. Mas o narcisismo e auto-indulgência do protagonista, bem como o diálogo entre a ficção e a História que o filme estabelece, levam a crer que Wajda nos propõe um herói dúbio, sedutor e consciente do que é necessário para alcançar o poder.

Walesa, de Andrzej Wajda (Walesa. Czlowiek z nadziei, 2013, Polônia)

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2013



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