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Bertolucci on Bertolucci


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Publicado em 5 de Outubro de 2013

Bertolucci_on_Bertolucci

(London Film Festival 2013, Moviola) – Há certos nomes no Olimpo no cinema italiano e decididamente Bernardo Bertolucci é um deles. Com o apoio do Istituto Luce Cinecittà, a 57ª edição do London Film Festival decidiu trazê-lo à baila neste documentário, Bertolucci on Bertolucci, de Luca Guadagnino e Walter Fasano.

Praticamente, uma colagem de trechos de entrevista do diretor, Bertolucci on Berlolucci refaz a trajetória do diretor, desde Antes da Revolução até Eu e você. Por ele, você vai acompanhar o seu engajamento marxista, nitidamente influenciado por Pasolini, já que Bertolucci começou como assistente do poeta-diretor em Accatone. Na verdade, Pasolini era já velho amigo da família. Bertolucci relembra o primeiro encontro entre os dois. “Pasolini veio ver meu pai (Attilio Bertolucci, crítico de cinema) em casa. Eu deveria ter uns 13 anos. E quando eu atendi à porta, pensei Pasolini fosse um ladrão. Por que será que eu pensei nisso? Deve ter sido o modo como ele me olhou. Meu pai me disse: ‘Ele é um grande poeta! Faça-o entrar logo”.

Tal encontro marcou definitivamente o futuro cineasta, que confessa que vivia uma vida fragmentada: “Vivia metade do tempo em casa, em meio à aristocracia, e metade com os camponeses, participando de suas lutas”. Em seus primeiros filmes, como Antes da revolução, Partner e O conformista, o discurso é mesmo escrito como se a câmera fosse uma metralhadora e é preciso ler nas entrelinhas para compreender que se trata, intrinsecamente, de uma corrupção da razão, do raciocínio lógico ítalo-cartesiano, e suas dificuldades em manter o foco racional. O italiano é per se emocional e melodramático; então por vezes a sua Lógica Pura não se sustenta. Talvez por isso, Bertolucci tenha abandonado a sua primitiva veia social e revolucionária, para uma relação mais amorosa com seu público.

Em filmes como O último tango em Paris, O céu que nos protege e Beleza roubada o que prevalece é o ato de amor. Muito aquém da pornografia em si, censurada internamente, mas aplaudida em outros países como França e os Estados Unidos, nesses filmes e no seu discurso sobre eles, veem-se uma história de amor entre o diretor e os atores. “Todo filme é uma história de amor com os atores. O que acontece é que alguns deles são sado-masoquistas.”

A construção da violência em Bertolucci nunca é extrema, mas configura-se num ato de castração ou incesto velado. Por ter sido criado numa família cujos pais nunca brigavam, nunca se agrediam, Bertolucci foi buscar na psicanálise os modos de matar seu pai, sublimando-o, na arte. Assim é que quase nunca seus filmes têm final feliz — uma exceção é O último imperador —, mas inevitavelmente procuram um final aberto, um coito interrompido, uma ejaculação precoce. Este ato de amor, pulsão primeva, que origina a criação, o abandona em meio ao processo a ponto de o cineasta ter dificuldades em montar a sua última cena. Quase sempre ele a decide na edição.

Bertolucci on Bertolucci discorre sobre o peso das cores e vozes na obra do diretor, de Paul Bowles a Verdi, de Godard a Freud. É uma aula de crítica de cinema. Ou como o vocábulo “cinema” se traduz na língua chinesa, “sombra elétrica”. Está no campo do metal e do ar.



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