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Jovem e Bela


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Publicado em 4 de Outubro de 2013

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Cena 1: um exuberante corpo de moça se expõe seminu ao sol enquanto é observado por olhos anônimos, escondidos atrás de um binóculo. Ainda que logo se descubra que este é um olhar inocente e fraternal, a metáfora é bastante elucidativa para o enigmático enredo de Jovem e Bela, mais recente filme do cineasta francês François Ozon.

Ozon continua a filmar a juventude, em uma escolha que se reproduz desde seu penúltimo longa, Dentro de Casa (2012), e que reverbera ainda o grande sucesso de sua filmografia, Swimming Pool – À Beira da Piscina (2003). A trama quase naturalista da adolescente de classe média que se prostitui por vontade própria se inicia nas férias em família de Isabelle (Marine Vacth). É verão no Sul da França e ela perde a virgindade poucos dias antes de completar 17 anos, com um namorado alemão a quem inexplicavelmente passa a rejeitar. Seus passos seguintes são ainda mais surpreendentes. Em busca de autoconhecimento sobre o próprio corpo e sob o codinome de jovem profissional do sexo, Lea e sua maquiagem pesada logo se tornam a estrela da vida dupla encenada por Isabelle. Às tardes, ela se transmuta na estudante de letras que mecanicamente visita quartos de hotel por dinheiro, sempre ao lado de homens com o triplo de sua real idade.

Do verão da juventude ensolarada à primavera do renascimento, passando pelo limbo do outono e pela derrocada do inverno, Ozon orienta a linearidade de Jovem e Bela através de uma contemplativa passagem das estações – o tempo é sempre elemento chave de suas obras. Em cada um desses períodos, ganha destaque o ponto de vista daqueles que orbitam em torno da jovem: o irmão, os clientes, a mãe, o padrasto. Essas passagens temporais são entrecortadas por canções de Françoise Hardy que parecem, de modo distante, falar a respeito do momento íntimo vivido pela protagonista. Mas as pistas são esparsas. Em um primeiro momento, é impossível não fazer comparações entre o lançamento de François Ozon e A Bela da Tarde. Porém, as semelhanças se encerram na similaridade superficial da sinopse e dos títulos, pois se a Séverine de Buñuel (interpretada por Catherine Deneuve em 1967) ainda traz em si alguma paixão, a Isabelle de Ozon é puro vácuo.

O que teria levado Isabelle a optar por estes caminhos? É impossível saber. Aos poucos, o roteiro entrega algumas questões sobre a personagem: ela não possui muitos amigos nem um relacionamento próximo com o pai, quase não sai de casa, vive navegando na internet e toma banho inúmeras vezes por dia. Mas essas pequenas notas nada explicam o inexplicável. E é tudo que se pode esquadrinhar a respeito da personagem. Só é possível apreender sua presença, suas ações concretas, seu ser-no-mundo. Ozon não desnuda a verdadeira Isabelle, seus anseios, desejos e personalidade, exceto em carne e osso, de forma literal – e o faz intencionalmente.

Ao espectador só é permitido acesso àquilo que o título de Jovem e Bela entrega. Se Isabelle parece não saber quem é, o público pode conhecê-la menos ainda. Por trás de uma magnífica embalagem, existe um interior indecifrável, tal qual o é em potencial todo ser humano. A obtusidade da protagonista chega a ser incômoda. Os gestos não calculados, o visual desleixado, a ausência de emoções, a falta de conexão com seus pares e a frieza não usual em uma prostituta são fruto do trabalho de uma direção que clama por meias-verdades e lacunas que também não pretendem ser preenchidas.

Resta ao espectador apenas o tátil nas feições e na massa corpórea de Marine Vacth, a linda modelo de olhos melancólicos que, em sua estreia cinematográfica, parece ter nascido para este papel. O cineasta parisiense oferece a possibilidade de sermos, ao lado dos outros personagens, observadores privilegiados de um ano na vida da jovem, de acompanhar sua mutação radical de menina em mulher a partir de uma gangorra de escolhas desacertadas, reabilitação, recaída e redenção final. Aquela primeira cena oferece à plateia a resposta para a grande charada: somos todos voyeurs e, por 90 minutos, nos encontramos de olhos fixos em um único objeto – objeto esse que é, displicentemente, carregado de desejo e volúpia enquanto Isabelle é apenas Isabelle. E Ozon é ainda Ozon.

 

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