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A Grande Beleza


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Publicado em 1 de Outubro de 2013

grandebellezza

(Londres, Moviola) – Paolo Sorrentino é o maior nome do cinema italiano atual. Peço desculpas a todos os meus amigos diretores italianos por essa apaixonada afirmação e cito um argumento basilar e outros tantos tangenciais. O primeiro argumento está na cara: Sorrentino tem coragem suficiente para fazer as pazes com a Época Dourada de cinema neo-realista e cita, revisita, reinventa e rasura em cima do nome mais conhecido da Itália: Fellini.

Seu filme anterior, Aqui é o meu lugar, é o mais contemporâneo e anti-italiano filme de um diretor italiano. Lá, não há quase nada dos tiques italicistas dos outros diretores. Mas quando Sorrentino resolve falar do seu país e de Roma, em particular, o faz com a acuidade de um cirurgião plástico, que disseca as camadas da população local, faz um peeling da aristocracia besta e artística atual.

Bem, Sorrentino, ao contrário de Fellini, não pode contar com a pena de Ennio Flaiano. Quem? Flaiano escreveu tudo quanto é filme da Época Dourada do cinema italiano, e é quase um desconhecido. Morreu brigado com seu maior colaborador, desiludido da vida. Portanto, os créditos pelo roteiro e encenação são mesmo do próprio Sorrentino. Você vai rir e chorar, especialmente se já passou algum tempo em Roma. Há coisas que talvez um não local não entenda, como a piada de Romano (Carlo Verdone) sobre morar na Casilina e o fato de ter de dar a carona para a amante até o aeroporto. Mas não se inquiete. O sentimento está lá.

O sentimento é um só: aquilo que Roma provoca nas pessoas. Ouvi de um amicíssimo italiano, da mesma idade do personagem de Toni Servillo (Jep), “Roma è così: la si ama e la si odia nello stesso tempo”. O sentimento vinha já denunciado e arrebatado em comédia por Fellini, mas em Sorrentino me parece que a consciência da perda da aura de líder no mundo das artes e da cultura é muito mais intensa. Hoje o muro caiu, o império caiu, o que resta são as ruínas – e Roma é a maior ruína a céu aberto do mundo – para se confrontar, para se apoiar, para se desvendar, para se conformar.

A história de A grande beleza (La grande belezza) é a de uma busca. Em Aqui é o meu lugar, a busca era uma caçada a um torturador nazista e a um passado que se queria esquecer. Neste novo filme, a busca é proustiana, nostálgica, mas ciente das impossibilidades de se voltar no tempo. Bem, certo, Proust é citado com ironia. A busca se revelará inútil, porque uma busca consciente da sua impossibilidade só pode ser inútil.

Facilmente, Sorrentino pode ser criticado por não inventar nada. Mas o que esta girafa está fazendo no meio do Foro Romano? Ah, é uma referência ao aspecto onírico de Fellini. Mas se você for lá no fundo, no fundo mesmo, pode ser capaz de, como a girafa, catar as frutas mais frescas que nenhum animal consegue capturar e então vai, como eu, se render à grande beleza. A grande beleza é um estalo de dedos perto do seu ouvido. No momento em que você se virar para verificar o que era mesmo aquele estalo, ele já se acabou.

A grande beleza fala também da mundanidade da vida romana: das festas, das drogas, dos banquetes, do “dolce far niente”, da ignorância, do saber viver o presente. E o filme ri agudamente de si próprio, dessa capacidade incrível de os romanos se acharem superiores. Eu me rendo: Roma é a cidade mais linda do mundo. Goethe não a descreve em umas 300 páginas? Mas, enfim, isso basta?

O filme é isso, caro leitor. O não bastar-se. O saciar-se e estar sempre a pedir mais. Jep tem todas as portas abertas, todas as chaves a seu dispor, toda a claque a lhe puxar o saco, todavia perdeu o dom de escrever. Também isso, falar sobre o próprio ofício, tão comum metalinguagem nas artes hoje, era novidade em 8 ½, mas vinha mesmo de Flaiano.) E o segredo lhe é revelado por uma prostituta depois de uma transa, já que os maiores segredos são divididos mesmo na cama. O maior segredo, ou mistério, se o preferir, é a morte.

 

Trailer do filme:

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