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A Garota de Lugar Nenhum


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Publicado em 1 de Outubro de 2013

A Garota de Lugar Nenhum, de Jean-Claude Brisseau.

 

Michel Deviliers leva a desconhecida Dora para seu apartamento. Ensanguentada, ela recusar médicos ou a polícia. Deviliers cuida dos ferimentos e propõe a Dora que permaneça, desde que o ajude a revisar o ensaio sobre a falsidade dos mitos e das crenças que estruturam a sociedade. Em contrapartida, ela não quer laços e prefere ir e vir quando bem entender, uma vez que, quando se aproxima dos homens que ama, causa-lhes dor e sofrimento.

Mais do que nunca alter-ego do diretor (o próprio Jean-Claude Brisseau o interpreta), Michel Deviliers questiona, sobretudo, os mitos que fundamentam todas as religiões. São contos-de-fadas, narrativas inventadas para exercer o controle social e impor o poder do mais forte, através de fantasias como a esperança e a promessa de felicidade. Deviliers, viúvo faz vinte e nove anos, solitário no apartamento imenso que herdou da esposa, já aposentado das aulas de matemática e do cineclube que mantinha, descrê. Não há niilismo, contudo, pois ele se volta contra os limites que os mitos traçam, justamente para exaltar o poder da fabulação, do ato de criar. Para além do Nada e do Vazio, existe o Inominável, que as religiões chamam de Deus e definem como motor original de todas as histórias: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus” (João 1:1). Segundo Deviliers, os livros do Gênesis e do Êxodo foram escritos no século VIII a.C, durante o reino de Josias, para unir as tribos de Israel – motivo que nada têm a ver com a busca pelo sagrado.

Dora, para Deviliers, representa o Inominável, a força criadora que o ajuda a terminar o livro e a suportar a vida. Misteriosa e esquiva, ela preza a liberdade e resiste as tentativas do ex-professor de lhe tornar sua única herdeira. Amam-se: o vínculo que possuem, contudo, não é sexual. O nome Dora, diminutivo de Dorothée, significa presente, dádiva ou dom de Deus. Para Deviliers, ela é seu anjo-da-guarda, que o protege do Nada absoluto – a Morte – que o espreita no apartamento e está prestes a buscá-lo.

A dúvida, o ceticismo e a razão marcam o comportamento de Michel Deviliers, traços que lhe deixam inquieto em relação ao mundo. Dora tem visões, prevê o futuro, fala com os espíritos. Mas Deviliers não encara a parapsicologia sob o ponto-de-vista da fé, que oferece apenas respostas, mas do fenômeno, que gera perguntas. Assim, embora não creia, Deviliers tem ele mesmo visões, participa das sessões de ocultismo e discute com a Morte, sempre movido pela curiosidade.

Interessante como A Garota de Lugar Nenhum mantém pontos de contato com Amor Pleno, de Terrence Malick. Apesar dos estilos díspares – Brisseau é conciso, filma quase sempre em interiores e em digital de alta definição, ao passo que Malick usa e abusa da frouxidão narrativa, da câmera que vaga livremente pelos espaços e da luz que inunda a natureza – , ambos os cineastas põem a Dúvida no centro de suas obras, enquanto discutem o Amor de Deus (ou de uma força Inominável que se encontra além do Vazio). A Morte, tanto em A Garota de Lugar Nenhum, quanto em Amor Pleno: no primeiro, personificada; no segundo, presente no solo e na água contaminada da cidade. Contudo, enquanto Malick, profundamente católico, abraça a religião, Brisseau a rejeita.

E se Dora for a reencarnação de sua mulher, especula Devilier? Eles se reencontram e se apaixonam novamente, mas a diferença de idade (quarenta e quatro anos) não permite que vivam o amor. Seria a vez de Devilier morrer e voltar para procurá-la, agora vinte e seis anos mais jovem. O ciclo se repetiria infinitamente, com o Tempo e a Morte se interpondo entre os amantes. O assassinato do ex-professor, assim, transforma-se em sacrifício, em ato de amor premeditado, na procura pelo Inominável que lhe escapa. Outra intercessão entre Brisseau e Malick: reencenar o Cântico dos Cânticos, o Amor de Deus como o amor entre um homem e uma mulher.

Na iconografia cristã, representa-se Deus no céu, entre as nuvens e as estrelas. Os astronaustas estariam mais próximos Dele, questiona Deviliers? No último plano de A Garota de Lugar Nenhum, após Dora beijá-lo, a câmera se aproxima da parede ao fundo, com a noite estrelada. Deviliers tocou o Inominável: o Amor de Deus.

A Garota de Lugar Nenhum, de Jean-Claude Brisseau (La Fille de Nulle Part, 2012, França)

Trailer do filme:

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