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Rock the Casbah


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Publicado em 30 de Setembro de 2013

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O clichê no cinema existe e, muitas vezes, não há como contorná-lo. É interessante, porém, quando alguns clichês, em certos casos, se repetem tanto que fazem parecer que não são verdadeiramente clichês, mas sim elementos essenciais para certos tipos de narrativa. Ou mesmo, que já estão presentes desde o início, na situações narrável em si. Esse clichê em questão é o de jovens soldados recrutas em uma guerra, entediados e escutando música antibelicista. Acontece em Apocalypse Now, acontece em Platoon, acontece em (forçando um pouco a barra) Forrest Gump e acontece no israelense Valsa com Bashir.

No também israelense Rock the Casbah, do diretor Yariv Horowitz, nem é preciso dizer a canção antibelicista figurada como música de fundo. A resposta já está no título do filme. Mas, para quem não entende de punk rock, é interessante falar um pouco a respeito da letra de Rock the Casbah — sucesso da banda inglesa The Clash — para entender a ironia de dar esse nome ao filme.

A canção faz uma rocambólica associação — repleta de sarcasmo, como é típico no punk — entre os conflitos no Oriente Médio, a crise do petróleo do início dos anos 1980 e de como as características do autoritarismo e da repressão dos costumes no oriente e no ocidente, principalmente no que se refere à repressão da cultura jovem, são duas faces da mesma moeda.

O refrão de Rock the Casbah diz “o xerife/shareef não gosta de sacudir a casbá”, relacionando a figura de um xerife do velho oeste americano com a do shareef, uma espécie de líder religioso protetor da moral e dos bons costumes nos países islâmicos. Já casbás são aqueles típicos bairros árabes de casarios de cal branca, habitados por gente muito pobre. Resumindo, Rock the Casbah poderia ser traduzido como “levanta favela”, ou “abala favela”.

A ironia — ou clichê, se preferirem — é o fato de que a canção é escutada em um rádio de pilha por soldados que estão justamente patrulhando uma casbá. Mais especificamente na Faixa de Gaza no ano de 1989. Em um relato semi-autobiográfico sobre sua experiência como soldado durante a Primeira Intifada, Yariv Horowitz demonstra que, por mais que ele possa ter se inspirado em filmes como Apocalypse Now para dirigir o seu, há algo de inerentemente essencial, e que supera todos os clichês, quando se trata de jovens entediados no meio de uma guerra. Tédio esse que se torna despreparo em face de uma tragédia.

Logo que entram em Gaza, os soldados se dão conta de que estão completamente despreparados para enfrentarem a turba enfurecida de adolescentes que os apedrejam e de mães que vêm lhes atrapalhar, quando eles começam a prender os garotos palestinos. O clima da tensão vai aumentando até que, quando um dos palestinos detidos escapa, um dos soldados vai atrás do fugitivo e cai em uma bizarra emboscada: de cima do terraço de uma casa de dois andares, dois palestinos atiram uma máquina de lavar em sua cabeça, matando-o na hora.

Com o trauma causado pela morte do companheiro, um destacamento de quatro soldados – Tomer, Aki, Ariel e Haim – são designados para ficar em cima do terraço de onde a máquina de lavar foi jogada, vistoriando a área ocupada.

Ao longo do filme, enquanto os soldados mais experientes vão à caça dos assassinos do soldado morto, os quatro jovens ficam mais matando o tempo do que propriamente servindo de sentinela. É nesse pequeno mundo que os conflitos pessoais, tanto internos como externos, afloram. Aki, o islamofóbico, Tomer, o pacifista (e alter-ego de Horowitz), Haim, o irresponsável e Ariel, o chefe de destacamento designado por Haliva, o capitão (e que mais pensa em estar em Amsterdam fumando maconha do que na guerra). Os quatro vão do trauma e do luto inicial por Ilya, o soldado morto, até o ponto em que não se suportam mais. O amor acaba. Para completar, há ainda a relação com a família que mora no prédio do terraço, que querem que os soldados saiam do seu terraço por medo que os outros palestinos achem que eles se tornaram colaboradores.

O tempo todo a narrativa parece dizer que não há sentido algum para os quatro jovens estarem ali naquele terraço. Não fica claro no filme, mas é subentendido que aquilo seria uma espécie de retaliação à família que permitiu terroristas em seu terraço. Tanto é que, ao longo de todo o tempo, os destroços da máquina de lavar não são nem sequer removidos, nem sequer varrido para um canto. Parece que o tempo congelou e só voltará a correr quando eles encontrarem os assassinos.

 

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