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Narco Cultura


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Publicado em 30 de Setembro de 2013

Narco-Cultura

 

É atribuída a Mark Twain a frase que diz que “o homem é o único animal que mata por prazer”. Hoje em dia, os biológos já comprovam que esta afirmação é equivocada, mas, mesmo assim, nós certamente somos especialistas nesse quesito. No panorama mundial do cinema dos últimos anos — um número cada vez maior de produções, tanto documentais como de ficção, tem tido como tema central guerras e genocídios, ilustrando-as de maneira cada vez mais realista e sangrenta. Em Narco Cultura, documentário do cineasta e fotógrafo israelense Shaul Schwartz, a chamada Guerra do Tráfico Mexicana — um conflito generalizado entre o governo mexicano e diversos cartéis de narcotráfico daquele país — é retratada sob o foco da subcultura gângster cada vez mais popular naquele país, bem como na comunidade mexicana existente no seu vizinho, os Estados Unidos da América.

Desde 2006, quando o recém-empossado presidente mexicano Felipe Calderón herdou de seu antecessor Vicente Fox um país em crise, à beira do caos e com cartéis de narcotráfico cada vez mais fortes, Calderón resolveu seguir o exemplo das operações anti-tráfico na Colômbia e iniciou uma guerra contra as diversas organizações criminosas mexicanas, que já brigavam entre si, desencadeando um banho de sangue que tem varrido o México nos últimos sete anos. O número oficial de mortos é de 60 mil, apesar de que há estimativas que afirmam que o número chega perto de 100 mil.

No filme, o conflito é apresentado sob dois pontos de vista muito distintos: o de um funcionário da polícia forênsica da cidade de Juaréz, fronteiriça ao Texas e possuidora de uma das mais altas taxas individuais de homicídio do país, e de um grupo de músicos mexicano-americanos de Los Angeles, célebres na comunidade hispânica de seu país por tocarem Narco-corridos — basicamente música de mariachi com letras fazendo apologia à vida criminosa dos gângsters de cartéis mexicanos, estilo musical claramente influenciado pelo Gangsta Rap estadunidense e cada vez mais popular, tanto nos Estados Unidos como no próprio México.

Ao passo em que a vida de Richi Soto, o policial forênsico, é dura e triste, devido a seu baixo salário, ao convívio diário com a morte no departamento de perícia mais ocupado do mundo e, não menos, à constante ameaça de ser assassinado só pelo fato de usar uma farda, os Bukanas de Culiacán levam vidas de astros, à base de álcool, drogas e orgias nos hotéis por onde eles passam, em suas turnês pelo sudoeste norte-americano.

Richi Soto perdeu vários colegas de trabalho para a guerra do tráfico, tem medo de sair de casa e fica remoendo um sonho de ir morar em El Paso, Texas, exatamente do outro lado da fronteira, onde só houveram cinco assassinatos no mesmo período em que houve mais de 3 mil em Juaréz. Já os músicos do Bukanas de Culiacán seguem, de certa forma, o caminho inverso. Frustrados por não conhecerem a vida real de um gângster mexicano, eles resolvem fazer uma espécie de “viagem de imersão” em Culiacán, sede do cartel de Sinaloa, o mais poderoso de todos e liderado por Joaquín “Chapo” Guzmán, o homem mais procurado do mundo desde a suposta morte de Bin Laden. Apesar de se chamarem Bukanas de Culiacán, o líder do grupo confessa durante a viagem de que eles nunca tinham estado na cidade. Só colocaram esse nome pelo que ela representa para a narco cultura mexicana e hispânica.

O contraponto entre a glamurização e a crua realidade da violência são a tônica do filme, que é ainda entremeada pelo ancestral e sincrético culto mexicano da morte. Em um momento da visita dos Bukanas ao cemitério de Culiacán, repleto de mausoléus de chefões do tráfico, o homem que os guia diz que, certa feita, foram encontrados pedaços de um cadáver na porta de um dos mausoléus. Aquilo era uma “oferenda”, ele afirma, feita ao morto enterrado no mausoléu, um importante padrinho da região. Em 2013 no México, todos os dias são “días de los muertos”.

 

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